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Saudade VII

 

Quando conto para os amigos que fui uma menina muito arteira a maioria não acredita; acham-me calma, comedida demais para assim ter sido.

E por ter sido como fui, mamãe sempre me entretinha junto a ela com algum brinquedo, objeto ou o que fosse, para eu não sair correndo pelo quintal (que era enorme!) ou abrir o portão e sair para a rua; afinal eu tinha apenas cinco anos, talvez até menos, não sei bem.

Era muito engraçado (e talvez estranho para os adultos) essa minha vontade de correr e correr e correr… será por isso que gosto tanto de vento?

Bem, voltando ao entretenimento… enquanto minha mãe plantava folhagens, outros tipos de mudas e florzinhas, dava-me uma pazinha para cavoucar a terra, achando que plantava também!

Me divertia quando achava tatuzinhos agitados, correndo de lá para cá, talvez vexados por eu ter descoberto seus esconderijos de uma forma tão fácil e, cá para nós, tão invasiva…

Me divertia com as borboletas coloridas que beijavam as flores e brincavam com os raios do sol.

Me divertia com as pocinhas de água que eu fazia na terra, pequenas piscinas que eu construía para as minhocas nadarem! (me divertia com tantas coisas pequenas mas que me maravilhavam, coisas que muitas crianças, hoje,  nem sabem que existem… ainda existem?)

Lembro-me de um chapéu imenso que mamãe colocava em minha cabeça para eu não tomar tanto sol; não sei se ele era tão grande assim ou eu que era muito pequena; só sei que fazia uma imensa sombra à minha volta e que tinha uma linda fita vermelha rodeando a cabeça!

Acredito que não foi a primeira vez que vi um grilo, mas foi em um dia desses de jardinagem matinal que vi pela primeira uma joaninha.

Veio voando de mansinho e aterrissou no meu braço!

Fiquei estática, com medo de me mexer e ela ir-se embora..

A primeira impressão que tive foi a de uma florzinha vermelha esvoaçando no ar.

Quando começou a andar pelo meu baço, fazendo coceguinhas, chamei mamãe para ver, ao que ela largou do que fazia para me falar sobre o bichinho.

A Joaninha deu uma voadinha e se aquietou novamente, desta vez em minha mão, e eu pude ver suas asas vermelhinhas com pintinhas pretas e seus olhinhos que mais pareciam cabeças de alfinete.

Quando mamãe contou-me que se chamava Joaninha… não gostei.

As Joanas que me perdoem (inclusive Joanna D’Arc, minha protetora) mas, na minha insignificância, achei um nome muito pesado para um bichinho tão delicado.

Minha irmã e eu vimos, em um outro dia de peraltices, duas Joaninhas, uma em cada planta; comecei a gritar Mamãe, mamãe, a Joaninha, a Joaninha voltou!

Quando ela veio ver, perguntei a ela o nome da outra; mamãe olhou-me meio surpresa e disse chamar-se Joaninha também.

Lembro-me de que pensei Que coisa mais sem graça… o mesmo nome?

Então resolvi chamá-las, a cada vez que apareciam, de nomes diferentes como, por exemplo, Pin, Mia, Liz, Raio e outros mais.

Mamãe ria tão gostoso quando eu dizia que as Joaninhas eram florzinhas que voavam!

Esquecia-me dos tatuzinhos, minhocas, grilos, borboletas e das plantinhas; ficava olhando aquele bichinho andando pelo meu braço, meu dedo, voando para o meu cabelo todo sujo de terra.

Queria fazer um carinho, mas ao menor gesto ela voava um pouquinho, para ir sentar-se em outro lugar.

Eu ficava maravilhada em ver que um bichinho tão pequeno, tão engraçadinho parecia mesmo uma florzinha a voar.

Os anos passaram, não vejo mais tudo o que me divertia.

E duramente descobri que minha mãezinha é uma florzinha que voou.

Às vezes ela vem à noite, em sonhos, conversar com a minha criança… faz um carinho, beija-lhe os olhos, escova-lhe os cabelos, veste-lhe um pijama quentinho, afofa o travesseirinho e depois se vai, antes do sol chegar, como uma florzinha a voar… 

 

 

 

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Quando meus olhos vislumbrarem um horizonte que existirá somente dentro do meu ser, posso pedir que me faças um carinho manso no rosto e me chames de querida?

 

Que ajeites meus cabelos suavemente e sorrias tão serenamente para mim?

 

Que venhas me buscar, um dia qualquer, para passearmos de mãos dadas pelo parque sem nenhum propósito ou palavra, enquanto as folhas rodopiam por entre as árvores a dança do outono, para que eu possa me permitir a encostar em teu ombro a pedir um abraço que nunca me deste?

 

Que declames para mim, somente para mim, teu poema predileto, para que possamos sorrir e chorar juntos mais uma vez e descobrir que andamos muitas vezes pelas mesmas planícies sem nunca nos encontrar?

 

Que me leves para dançar em algum lugar mágico, aonde eu possa sentir que preencho teus braços e que tu respiras meu perfume, minha serenidade silenciosa, ou quem sabe apenas o mesmo ar que ainda me fará estar por uns tempos?

 

Que tu possas cantar alguma melodia apenas para que eu sinta a doçura e maciez de tua voz e, bem baixinho, eu possa acompanhar o ritmo do teu coração?

 

Para que possas me levar a me embriagar com o último por do sol que ficará retido para sempre nestes olhos que, repito, neste instante vislumbram um horizonte que existirá somente dentro do meu ser, sem mais se importar em estar….

 

Enfim, tu virias até onde estou, mesmo que eu não soubesse mais quem sou, quem és, para que eu sentisse apenas a tua presença, mais uma vez, na minha vida?

 

 

 

 

Surgiram à minha frente do nada, assim, de repente, como se tivessem caído do céu ou de um telhado ou do alto de uma mangueira (é possível?)

 

Um deles, trazendo uma espada de madeira na cintura e uma capa nos ombros de saco de estopa, mostrava um sorriso escancarado no rosto, olhinhos que pareciam jabuticabas, negrinho como uma noite sem lua e estrelas.

 

O outro, trazendo uma lata sem fundo de goiabada na cabeça, também trazia uma toalha de mesa bastante rota amarrada ao pescoço, como um manto a arrastar-se pelo chão.

Mas o que me chamou a atenção mesmo foi o silêncio que trazia consigo, um silêncio que brilhava nos olhos, meio encobertos por sua cabeleira desalinhada, assim como labaredas alaranjadas de um por de sol.

 

E finalmente o terceiro, um baixinho serelepe, trazendo uma toalha de rosto meio encardida enrolada na cabeça, exibindo um broche (disse que da avó) preso na altura da testa, mostrando que a pedra era tão verde quanto seus olhos e, por isso, apresentava uma teoria de que ela era um terceiro olho que tinha, do jeito que ouviu, um dia, de um moço meio maluco que encontrou na rua.

 

Andavam, pulavam, cantavam à minha frente, como se a pobreza não os incomodasse, como crianças que riem à toa, sem motivo, pelo simples fato de viver.

 

Reparei então que cada um deles trazia uma caixinha de madeira nas mãos e que, deliberadamente, as seguravam perto do coração.

Fiquei curiosa, apertei o passo (tive até que dar uns pulinhos para alcançá-los, acredita?) e, alcançando-os, contei da minha curiosidade.

 

Pararam à minha frente, outra vez de repente, como tudo que estava acontecendo tão de repente.

Sério, o de olhos de jabuticaba abriu sua caixinha e eu vi uma porção de cinzas, restos do que fora uma folha de papel.

E, tomando uma postura solene, disse-me que eram cinzas de uma carta que queimara porque, toda vez que sua mãe a lia, chorava e escondia o rosto entre as mãos, como que escondendo-se do pouco de alguma coisa que restou, Um vazio, não sei, disse ele.

Eu não quero mais ver minha mãe triste, moça, nunca mais; quero que ela comece a sorrir para todas as coisas deste mundão!

Vou jogar essas cinzas lá no rio, longe de casa, para ela nem mais sentir o cheiro…

E fechou a caixinha, encostou-a junto ao seu coração, voltando a sorrir novamente.

 

O segundo, de cabelos de sol já preguiçoso, abriu sua caixinha sem eu pedir e, surpresa, vi uma plantinha com raiz e tudo, até com um pouco de terra e ele foi logo explicando que, perto de sua casa havia uma fábrica de não sei o quê, que deixava tudo cheirando muito mal, Que nem o pum do vovô quando come batata doce, moça; é um horror, todo mundo sai correndo porta a fora!

Quero plantar essa roseirinha lá na pracinha, moça, para enfeitar o olhar de quem a possa ver; então sentiremos o perfume das rosas!, completou.

 

O terceiro, o do broche, hesitou em abrir sua caixinha e só depois de alguns segundos que fitou-me nos olhos é que a abriu.

O que havia dentro?

Nada?!?, disse eu.

Como nada? respondeu, com profunda reverência. Tem tudo e como esse tudo é tão grande, precisa ser invisível para caber aqui dentro! Já pensou se eu chego lá no presépio e o Menino Jesus me pede alguma coisa que eu possa não ter na minha caixinha?

 

Fiquei de boca aberta e os três começaram a rir da expressão que eu certamente fiz e nesse momento entendi que não era a primeira pessoa a passar por essas surpresas.

Enquanto se afastavam, rindo alto, fiquei pensando nos presentes de suas caixinhas…

 

Já na esquina, voltaram-se para mim me chamando, Venha, moça, venha brincar com a gente de reis magros!

Rindo do trocadilho, respondi que eles já estavam em três reis magros e que eu era gorda!

Não faz mal, moça, faz de conta que você é o papai noel! Vem!

 

Será possível isso acontecer aqui, nestas ruas de São Paulo, tão vazias de encantos?

Não sei… talvez em sonho.

 

Hoje meu blog completa oito anos.

De tentativa de levar alguns sonhos para aqueles que ainda acreditam que suas crianças interiores os habitam.

Como eu, ainda encontram uma forma de agradecer os momentos vividos e também aqueles só sonhados e ainda não realizados.

Não importa, porque sonhar é abrir um portal na mente onde deixamos entrar apenas aqueles escolhidos pelo coração.

Hoje, dia de Reis, dia da Gratidão, deixo aqui a minha, a todos que me fizeram e fazem sonhar.

 

 

 

Todo Natal sinto uma tristeza que me aperta o coração.

Mas não é, como muitos pensam, de saudades de meus queridos que hoje são estrelas; eles continuam me habitando e os vejo brilhar, a qualquer momento que eu queira, no céu de minha Alma.

Sinto-me assim porque, apesar da palavra do momento ser “crise”, as lojas e ruas se apresentam como um tsunami de pessoas que correm desvairadas, ansiosas e desesperadas atrás de presentes, comidas e bebidas.

 

Minha sorte, meu privilégio, meu merecimento, não sei, foi me encontrar em uma noite dessas com um anjo. É, um anjo!

E sabe o que mais? Mandou-lhe um beijo!

Não se espante, é para você, sim, que me lê neste instante!

Um beijo simplesmente.

 

Depois de expressar seu pedido, ou seja, de que eu fosse a portadora desse seu desejo, ficou a me sorrir.

Procurei desvendar em seu sorriso um motivo, mas ele só me devolveu outro sorriso.

Perscrutei seus olhos em busca de uma razão mais profunda …

E ele, meio que se divertindo com esse meu interrogatório silencioso, da mesma forma me olhava e sorria.

Não procure o que não existe, disse-me ele.

Mesmo assim fitei-o por mais um pouco e não senti em seu olhar nada que justificasse uma emergência, uma necessidade maior do que a vontade de enviar-lhe um beijo, lembrando, à você que me lê.

Tudo bem, pensei, darei o recado, mas… e eu não ganho nada? interroguei com o olhar, habituada que estou, como todo mortal, de sempre querer ganhar alguma coisa.

Você já indagou um anjo? se não, saiba que a resposta vem de imediato!

 

Sentados a uma mesa, frente a frente, tomou-me as mãos entre as suas e eu pude sentir com que intensidade fluía nesse toque, toda a ternura de sua imagem etérea, a sua alegria, o seu cuidado reverente com os momentos.

Depois, levantou-se e lentamente veio em minha direção.

Tomou-me o rosto entre suas mãos tão suaves ao mesmo tempo que firmes.

E deu-me um doce e longo beijo, primeiro nos olhos, depois na boca.

Senti por todo o meu corpo uma corrente de energia em intenso movimento, roubando-me os sentidos.

 

Depois que essa eternidade passou em mim, abri os olhos como que ainda encantada…

Ele continuava a sorrir.

Este é para você, disse-me num sussurro.

E se foi, lentamente, jardim a dentro, este que cultivo em meu coração.

 

Bem… acho que você deveria estar feliz por eu estar contando que um anjo mandou um beijo à você, mas você deve estar se perguntando como sei que era um anjo, não é isso? por isso é que às vezes perdemos os melhores presentes, porque nos preocupamos com o menos importante…

 

Mas vou te contar; pelo simples motivo de ver estrelas brilhando em seus olhos, melodia em seu sorriso, luz intensa cingindo sua cabeça, parecendo-me até, por segundos, vislumbrar asas em lugar de seus braços.

E seu beijo…Ah! seu beijo… é um beijo que somente um anjo saberia dar!

 

Espero que você não seja uma dessas pessoas que diz, Mas quanta fantasia, quanto devaneio ou mesmo quanta bobagem! e saem por aí preocupadas com comidas e bebidas, apenas brincando de ser feliz, sem se importar com o presente que acabou de ganhar!

 

 

Nascer é reviver, é renovar, é renascer em si mesmo através de novas oportunidades, de sonhos, de esperanças.

 

 

 

 

 

 

.

Menino lindo

de cabelos de seda

olhos de estrelas

sorriso sereno

lábios doces

beijo de alma para alma

.

Brinca, dança

sonha

estende as mãos

entrega o riso

.

Canta baixinho

uma canção de amor

resolveu ser sonhador

.

Viaja no eterno

traz presentes de outros mares

conta histórias de lugares

onde só ele pode chegar

.

Menino lindo

de cabelos de seda

sabe voar, posto que é anjo,

para depois retornar

.

E contar das estrelas que colheu

e dos oceanos permanentes

em seu coração

.

Menino lindo!

 

 

Despedida

 .

.

Antes de encontrá-lo pela última vez é necessário

que eu chore o que me resta

para eu secar por dentro

 

Então estarei pronta

hirta e ausente,

para ouvir sua voz de palavras escolhidas,

mas opacas, vazias como seu coração

 

Para eu ver seu riso frisado, gelado

em um esforço supremo de emoção

como se carinho se encontrasse à venda

em qualquer gesto

 

Para eu sentir suas mãos frias

no meu rosto ardente…

de dor e despedida

 

Para que tanto cuidado em não me ferir

se já me apunhalou…

 

Não faltarei a esse encontro,

digo ao meu coração tão calado

 

É preciso que eu morra para renascer

no canto da boca de um outro sorriso

sentir o calor de outras mãos em profundo aconchego

morar no brilho de um olhar sereno, cuidadoso,

intenso, de desejo

 

E não haverá necessidade de palavras

 

O silêncio é mágico, é portal para outros pulsares

é linguagem de eternidade

 

É preciso que eu morra mais um pouco

um pouco mais, só mais um pouco

 

Falta tão pouco…

 

Reflexão

 

 

Dia desses assisti ao filme O Doador de Memórias, baseado no livro de Lois Lowry, com o maravilhoso ator Jeff Bridges, sob a direção de Phillip Noyce.

A sinopse diz que trata-se de um mundo feliz (apenas na aparência) onde, através de um conselho de anciãos, um rapaz que completa 18 anos é escolhido para tornar-se o receptor das memórias de um passado real ocorrido na comunidade em que vivem.

Só o ancião mais sábio, que um dia também foi escolhido por outro, tem condições, como doador, de passar, através de algumas técnicas, as memórias passadas, completamente desconhecidas pelos habitantes atuais.

É quando o rapaz, tomando conhecimento das memórias, entra em conflito com o seu até então aprendizado padrão, confrontando-o com a realidade omissa em que vê acontecer ao seu redor.

Não vou contar o impasse do filme, mas sim, o que me levou a uma profunda reflexão e à necessidade em vê-lo por mais de uma vez.

As cenas são, até certo ponto, em preto e branco e o doador de memórias explica que, em um determinado momento no passado, o conselho assim deliberou, como única alternativa para extirpar de vez a inveja, o orgulho, o ódio, a ambição, a prepotência que predominavam entre as pessoas; tirando a cor de tudo e  criando esse mundo padrão, preto e branco, insípido, de mesmices, onde as pessoas têm sentimentos mascarados, superficialmente educadas umas com as outras, mas completamente desprovidas de emoção e verdade.

Assaltou-me à mente e isso assustou-me bastante (ainda me assusto!) a ideia de que, será essa a solução para recomeçarmos a vida social, política e profissional?

Será que haverá necessidade de se eliminar de vez as “cores” (a vida) das coisas (e emoções) para se zerar as mazelas do mundo?

E como todo “mundo perfeito”, também eliminar de forma fria e prática, bebês indesejados e velhos indefesos?

Será que, em uma inversão de papéis, já não moramos nesse mundo mascarado, onde os corruptos, os violentos, os sem caráter descoloriram nossas vidas, tirando-nos a alegria de viver, de planejar, de descobrir nossos caminhos, vontades, emoções?

Como disse, não quero entrar em mais detalhes,  mas há que se ver esse filme com cuidado, pois são muitas as situações expostas que nós podemos comparar com esta realidade difícil, antes inimaginável, em que estamos vivendo.

Mas, como no filme, há uma palavra chave que cura e curará as feridas abertas, causadas pelo próprio ser humano.

É nela que reside uma profunda reflexão.