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Archive for janeiro \30\America/Sao_Paulo 2010

Condição

 
 
 
 
 
“O amor incondicional não existe.
Você é que o submete a tudo.
Você faz com que o amor suporte tudo.
Mas ele não suporta.”
 

Foram palavras que ouvi de alguém em praça pública, ditas através de um megafone, caso algum ouvinte alegasse surdez.

 
 

O amor não é incondicional.

O amor não suporta mais ausências.

Não suporta mais chorar em vão.

Não suporta mais chantagens.

Não suporta sofrer tanta concessão, tanto ceder.

O amor não suporta mais ser sublimado.

Não suporta mais ser magoado, não ver, mostrar-se ignorante, alheio.

O amor não suporta mais relevar.

O amor não suporta mais fingir que perdoa.

Tudo sempre jogado em seus ombros, em nome de um amor que não o dele.

O amor não suporta mais tamanho fardo.

Sempre excedendo em tanto e em tudo…

E para subestimá-lo, ignorando sua angústia, sua aspiração à liberdade de pensar, agir e falar, rotulam-no de incondicional.

E assim, o amor sofre calado.

Pressionado.

Reprimido.

Massacrado debaixo da condição de ser incondicional.

O amor sempre estará condicionado a algo, a alguém, a um gesto, uma ação; a um sorriso, uma palavra, um carinho; a um silêncio mesmo que sem perdão.

E na possibilidade de encontrar-se mesmo ausente de tudo, estará condicionado ao tempo, ao vento, ao alento.

Mesmo que ao relento.

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Sentindo o vento frio da manhã no rosto, procuro entre as plantas um carinho.

Pequenas orquídeas, fartas folhagens, meus olhos pousam como pássaro triste na hortênsia rosa, tua representação no meu jardim.

Enquanto a beijava e roçava meu rosto em suas pétalas, podia quase sentir teu rosto junto ao meu.

Agora suas pétalas murcham, pouco a pouco, lentamente, como a me mostrar que são apenas pétalas, apenas flor.

O vento aumenta, escondo as mãos no peignoir macio, aconchegando-me à sua gola, sentindo-me assim, só, olhos perdidos nas plantas, no horizonte, lá na serra do mar quase que toda coberta pela neblina.

Dia sem sol.

Fecho os olhos, acaricio meu rosto quieto e gelado, sinto o vento brincando com meus cabelos.

Depois entro, tranco a porta de mim e ouço um silêncio.

Só então entendo que tudo que vivi foi um sonho só meu.

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Gozo Infantil

 

Gosto de sair à rua, ir às compras.

Saio um pouco do meu mundo.
 
Deixo os livros, a música, o computador (que é um outo mundo), para observar o mundo do outro que, por sua vez, sai do seu para observar o do outro e, o outro, para ele, sou eu.

E assim o ciclo se fecha e podemos continuar a conversa.

É verdade que às vezes levo comigo o trecho de um livro que me aprisionou de surpresa ou um poema que minha alma estremeceu.

Fazemos companhia um ao outro.

O poema diz um verso, eu digo outro; ele um, eu outro, ele mais um, eu um outro.

E assim vamos conversando pelas ruas.

Às vezes o poema interrompe sua fala para chamar minha atenção, com cuidados para que eu atravesse na faixa; me chama de rebelde e indisciplinada e eu finjo não ouvir.

Dia desses, quando ergui os olhos para melhor observar as pessoas, vi um senhor sorrindo para mim e do jeito que me olhava logo entendi que eu deveria estar falando em voz alta.

Retribuí o sorriso e prossegui tranquila, porque já me dei permissão para falar sozinha pelas ruas (às vezes acho graça de coisas e pessoas que vejo mas não as deixo perceber, sou discreta!).

Imagine em casa, então! Dependendo do assunto, brigo até com minha imagem no espelho, até que uma das duas, imagem ou reflexo, tenha juízo e diga:

– Chega, Isabel, estou querendo apenas ajudar mas se não quer me ouvir, pegue uma enxada e vá plantar batatas!

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Imagem Eterna

 

 

Saber que a vida é eterna

o que me faz sentir

 

 

O que escolhi para lembrar

o que não quero esquecer

que palavras deixar para trás

e qual novamente trazer

 

 

E  quando me encontro procurando

de mim

um sentido para esta saudade

esta vontade de viver

um abraço que não dei

um beijo que não roubei

 

 

Penso compreender

que você é o presente

que eu quis trazer

mesmo que ausente

de meus braços

nesta vida

 

 

Mas como a vida é eterna

eternamente terei você

como saudade

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Correr, para Onde

 Como falar de amor em tempos de ódio.

Como dirigir uma palavra de afeto num tempo de total desentendimento.

Como se solidarizar num tempo de corrupção.

Sinto-me estranha em falar de amor enquanto lá fora as pessoas morrem como moscas.

Sinto-me estranha de mim mesma; procuro-me nos objetos, nos sentimentos, nos valores e já não me encontro em absolutamente nada do que eu pensava verdadeiro, sólido, equilibrado, digno.

E pior fico se falo do meu mundo, este em que vivo, sem o qual não sobrevivo.

Saio dele e deixo-me ser devorada pelos insaciáveis predadores?

Corro para seu interior mais profundo, preservando-me mas, ao mesmo tempo, alienando-me?

Como demonstrar que não é mais possível provocar ondas monstruosas para os barcos em movimento, porque quem afundará desta vez é a grande nau, o mundo.

Como falar de sonhos e esperanças se é preciso que se acorde antes que o despertador seja acionado, como uma bomba a devastar o que estiver a seu alcance.

Há como sair deste labirinto?

Se há, por favor,  diga-me, porque estou achando que já não me reconheço, que já me perdi de tudo há muito tempo,  quando ainda havia um por do sol para que o dia seguinte  pudesse amanhecer.

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Beijo Ausente

 

Tenho-te em minha mente

às primeiras horas da manhã

 

Trago-te dentro de mim

como uma lembrança suave

terna, verdadeira

mas adormecida

 para sempre

 

Como um carinho

hoje de mãos vazias

de olhares perdidos

 Palavras não ditas

medos, angústias, dúvidas

 

Nunca soube quanto me quis

só soube que muito te amei

 

E hoje, dia de teu aniversário,

te saúdo

com um beijo suave

mas ausente de tua face

por tua eterna felicidade

 

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O Burrego

Gosto de escritores que mexem com  o meu imaginário.

Levam-me a lugares “nunca d’antes navegados”,  quase que vivenciando cenas que brotam e borbulham dentro de mim.

É certo que, por instantes, preciso deixá-los de lado, com todo o respeito, para poder por no papel o que me vai pela veneta ( sempre quis usar essa palavra – veneta – que me parece leve, até simplória, quase que louca, mas nunca surgiu oportunidade; aí está).

Há pouco, lendo “Caim” de meu querido porque não amado José Saramago, reportei-me a uma cena imaginária que, imaginária fiz acontecer nos idos anos 60, mais ou menos assim, mais ou menos assado.

Quando pequena, queria ter um burrego. Queria por que queria e ponto.

Pedia ao pai e este dizia, Mas para que queres um burrego? Para ir à escola, respondia. Tua escola é muito perto, teus pés dão conta do recado.

Ia ao encalço da mãe, mãe é mãe, compreende tudo, Quero um burrego, minha mãe. Que história é essa agora, menina? Para que? Para brincar com ele, oras! dizia, meio incerta. Tens muitas bonecas, não precisas de mais nada.

Como último recurso ia ter com o avô, a pedir-lhe um burrego a todo custo. E pelo menos tu sabes o que é um burrego? Como não mentia ao avô, somente ao avô, disse Não, não sei; é que achei a palavra um pouco diferente e bastante interessante e, por isso, queria um desse tal de burrego para mim. Então vamos consultar o pai dos burros, disse o avô.

Foi só então que a menina ficou sabendo que burros têm pai e que, além de ser doutor (o avô foi consultá-lo) era inteligente, o danadinho.

Ponto.

Agora, se me dão licença, vou entregar-me outra vez aos braços de Saramago, admirando-o cada vez mais e rindo muito com caim (assim mesmo, com letra minúscula).

Ah! antes que eu me vá, posso indicar esse livro para vocês? uma ótica diferente de passagens da bíblia, descrevendo o confronto entre criador e criatura, tornando nova  histórias milenares, com um humor mordaz com que esse escritor português nos delicia.

Nota: o que me deu na veneta não tem nada com o livro; mas foi Saramago que, com uma palavra semelhante, fez minha fonte brotar.

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Não haveria espaço suficiente para falar do poeta que faz de mim uma sonhadora, através de seus poemas construídos com palavras ásperas ou com palavras de mulher ou de pastores perdidos em seus próprios campos e rebanhos, ou contando do mesmo e do outro ou de si mesmo, em meio a essa incrível torre de babel que me leva aos céus e me devolve à terra, como se voar fosse possível.

E nessa trajetória poética vou encontrando seus passos, seus pedaços, seus gestos, seus anseios e sua desesperadora vontade de acreditar que muitas coisas ainda são possíveis, na vida e na literatura, apesar da inversão de valores e absoluta falta de honestidade a que os verdadeiros poetas estão sendo submetidos nos tempos de agora.

Jornalista, romancista, novelista, cronista, ensaísta, entrevistador, tradutor,  poeta; um dos nomes mais significativos da geração 60 da poesia deste país; e como Paulo, um dos apóstolos, leva incansavelmente suas palavras, seu sermão no viaduto, para aqueles que anseiam como ele, por uma verdadeira renovação de sonhos, delírios, saltos mortais, reencontro.

Seus livros trazem toda a sua biografia, quase completa, como ele mesmo diz; e quero que ela permaneça assim por muito tempo, incompleta, porque assim sentirei que sua busca continua incessante, investigadora, descobridora, sensível como um gesto quase que invisível e solto no ar, no hálito, no beijo, na palavra, no silêncio.

Lá, na biografia de seus livros, é possível se  saber de todo o seu traçado registrado nos anais da literatura brasileira e do exterior.

Aqui, quero deixar um de seus poemas (o que não me foi nada fácil escolher, escolhido que foi pelo instante que vivo), para sentirmos um pouco da magia de suas palavras, das cores e dos sons de seus sentimentos.

 

 O Azul Irremediável

Quando o azul for irremediável

é porque não há mais saída

para nada.

Quando o azul for irremediável

na tez e no tecido

no quadro e no olhar

é porque

tudo já é ausente

no quarto

nas figuras de gesso

nas xícaras de chá

no cálice de licor.

O azul será irremediável

sempre

que for necessário

observar

os momentos derradeiros.

                                                            Álvaro Alves de Faria

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Voo Livre

As borboletas passam por vários estágios na vida.

Mas há um que não podemos acompanhar, o último, devido a ainda pequenez da nossa visão.

É quando ela atinge o máximo de sua beleza, de sua luz (embora às vezes sua aparência diga o contrário) e alça o seu voo esplêndido às alturas, onde nem o calor do sol pode queimar suas asas, nem a chuva pode adiar seu caminho.

Não há o que possa detê-la, majestosa, iluminada, em busca de um outro jardim.

Foi assim que ontem ela se foi.

Borboleta que cumpriu todas as etapas e agora busca no espaço flores mais brilhantes, perfumes diferentes, em luz rara.

Deixou outras cinco borboletas a colorir as paisagens da vida.

E eu, que não saí de seu ventre, mas que também fui amada e por tanto que ouvi e aprendi, sei que sentirei muito e tanto sua falta entre os canteiros de flores.

O que me aquieta, borboleta querida, é sabê-la longe dos alfinetes que a aprisionavam, tirando seus movimentos, mas não a sua lucidez.

É sabê-la num voo pleno, onde dor nenhuma pode alcançá-la.

Vai, borboleta linda, voa nessa imensidão secular em busca da tua paz.

Leva em tuas asas as cores e o amor de teus filhos, netos e bisnetos; e desta tua filha torta, um carinho profundo e um pedaço do meu coração.

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Dia da Justitia

Justitia (ou Iustitia), nome da antiga deusa da Justiça da mitologia romana.

A deusa deveria estar em pé durante a exposição do Direito (jus), enquanto o fiel (ligueta da balança indicadora de equilíbrio) deveria ficar no meio, completamente na vertical, direito (directum).

Dessa forma, os romanos pretendiam atingir a prudentia,   isto é, o equilíbrio entre o abstrato (o ideal) e o concreto (a prática).

 Diferente da deusa grega correspondente, Dice (ou Diké), que empunhava uma espada representando a imposição da justiça pela força (iudicare), a deusa romana preferia o jus-dicere, atitude em que a balança era empunhada com as duas mãos, sem a espada, ou com ela em posição de descanso, podendo ser utilizada se necessário.

Enquanto leio essas informações, fico refletindo sobre o fiel da balança deste país, onde o desequilíbrio é desmoralizante e total, onde a prática da corrupção está muito, mas muito aquém do ideal de dignidade.

Concreto? Abstrato? Isso é conversa de psicólogo, filósofo, sociólogo, companheiro! – diria alguém.

É mais fácil usar um par de meias (que é concreto, prático) bem mais folgado que os pés, para qualquer eventualidade, mesmo que não corresponda ao ideal (ou abstrato).

Pois não é que hoje, 8 de janeiro, comemora-se o Dia da Justitia?

Dizem que a venda nos olhos da deusa simboliza a imparcialidade mas, neste país acho que é cegueira mesmo.

Se não me falha a memória, a representação dessa deusa lá, naquela cidade entregue ao deus dará, além de estar hermeticamente vendada, está sentada (cansada talvez?) e sem a balança nas mãos.

Se não fosse por sua espada em repouso absoluto no colo, diria que ela é a imagem não da deusa romana, mas da grega.

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