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Archive for janeiro \13\America/Sao_Paulo 2010

Não haveria espaço suficiente para falar do poeta que faz de mim uma sonhadora, através de seus poemas construídos com palavras ásperas ou com palavras de mulher ou de pastores perdidos em seus próprios campos e rebanhos, ou contando do mesmo e do outro ou de si mesmo, em meio a essa incrível torre de babel que me leva aos céus e me devolve à terra, como se voar fosse possível.

E nessa trajetória poética vou encontrando seus passos, seus pedaços, seus gestos, seus anseios e sua desesperadora vontade de acreditar que muitas coisas ainda são possíveis, na vida e na literatura, apesar da inversão de valores e absoluta falta de honestidade a que os verdadeiros poetas estão sendo submetidos nos tempos de agora.

Jornalista, romancista, novelista, cronista, ensaísta, entrevistador, tradutor,  poeta; um dos nomes mais significativos da geração 60 da poesia deste país; e como Paulo, um dos apóstolos, leva incansavelmente suas palavras, seu sermão no viaduto, para aqueles que anseiam como ele, por uma verdadeira renovação de sonhos, delírios, saltos mortais, reencontro.

Seus livros trazem toda a sua biografia, quase completa, como ele mesmo diz; e quero que ela permaneça assim por muito tempo, incompleta, porque assim sentirei que sua busca continua incessante, investigadora, descobridora, sensível como um gesto quase que invisível e solto no ar, no hálito, no beijo, na palavra, no silêncio.

Lá, na biografia de seus livros, é possível se  saber de todo o seu traçado registrado nos anais da literatura brasileira e do exterior.

Aqui, quero deixar um de seus poemas (o que não me foi nada fácil escolher, escolhido que foi pelo instante que vivo), para sentirmos um pouco da magia de suas palavras, das cores e dos sons de seus sentimentos.

 

 O Azul Irremediável

Quando o azul for irremediável

é porque não há mais saída

para nada.

Quando o azul for irremediável

na tez e no tecido

no quadro e no olhar

é porque

tudo já é ausente

no quarto

nas figuras de gesso

nas xícaras de chá

no cálice de licor.

O azul será irremediável

sempre

que for necessário

observar

os momentos derradeiros.

                                                            Álvaro Alves de Faria

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Voo Livre

As borboletas passam por vários estágios na vida.

Mas há um que não podemos acompanhar, o último, devido a ainda pequenez da nossa visão.

É quando ela atinge o máximo de sua beleza, de sua luz (embora às vezes sua aparência diga o contrário) e alça o seu voo esplêndido às alturas, onde nem o calor do sol pode queimar suas asas, nem a chuva pode adiar seu caminho.

Não há o que possa detê-la, majestosa, iluminada, em busca de um outro jardim.

Foi assim que ontem ela se foi.

Borboleta que cumpriu todas as etapas e agora busca no espaço flores mais brilhantes, perfumes diferentes, em luz rara.

Deixou outras cinco borboletas a colorir as paisagens da vida.

E eu, que não saí de seu ventre, mas que também fui amada e por tanto que ouvi e aprendi, sei que sentirei muito e tanto sua falta entre os canteiros de flores.

O que me aquieta, borboleta querida, é sabê-la longe dos alfinetes que a aprisionavam, tirando seus movimentos, mas não a sua lucidez.

É sabê-la num voo pleno, onde dor nenhuma pode alcançá-la.

Vai, borboleta linda, voa nessa imensidão secular em busca da tua paz.

Leva em tuas asas as cores e o amor de teus filhos, netos e bisnetos; e desta tua filha torta, um carinho profundo e um pedaço do meu coração.

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Dia da Justitia

Justitia (ou Iustitia), nome da antiga deusa da Justiça da mitologia romana.

A deusa deveria estar em pé durante a exposição do Direito (jus), enquanto o fiel (ligueta da balança indicadora de equilíbrio) deveria ficar no meio, completamente na vertical, direito (directum).

Dessa forma, os romanos pretendiam atingir a prudentia,   isto é, o equilíbrio entre o abstrato (o ideal) e o concreto (a prática).

 Diferente da deusa grega correspondente, Dice (ou Diké), que empunhava uma espada representando a imposição da justiça pela força (iudicare), a deusa romana preferia o jus-dicere, atitude em que a balança era empunhada com as duas mãos, sem a espada, ou com ela em posição de descanso, podendo ser utilizada se necessário.

Enquanto leio essas informações, fico refletindo sobre o fiel da balança deste país, onde o desequilíbrio é desmoralizante e total, onde a prática da corrupção está muito, mas muito aquém do ideal de dignidade.

Concreto? Abstrato? Isso é conversa de psicólogo, filósofo, sociólogo, companheiro! – diria alguém.

É mais fácil usar um par de meias (que é concreto, prático) bem mais folgado que os pés, para qualquer eventualidade, mesmo que não corresponda ao ideal (ou abstrato).

Pois não é que hoje, 8 de janeiro, comemora-se o Dia da Justitia?

Dizem que a venda nos olhos da deusa simboliza a imparcialidade mas, neste país acho que é cegueira mesmo.

Se não me falha a memória, a representação dessa deusa lá, naquela cidade entregue ao deus dará, além de estar hermeticamente vendada, está sentada (cansada talvez?) e sem a balança nas mãos.

Se não fosse por sua espada em repouso absoluto no colo, diria que ela é a imagem não da deusa romana, mas da grega.

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Outro Ano

Apenas as datas se repetem.

Apenas os ponteiros marcam as mesmas horas.

As mesmas folhas do calendário vão se soltando, uma a uma, mês a mês.

Os sonhos, o possível que sempre se quer presente, a vontade de que a vida seja leve como o vento, o desejo de que as mãos transbordem afeto, isso vem lá de trás, de não sei quando, do tempo em que para sonhar bastava fechar os olhos.

De um tempo em que se sorria com vontade de sorrir e quando se chorava era por alguma coisa que se esvaía diante de um doce beijo.

Um tempo que não existe mais.

Mas a expectativa sempre existe, uma vontade tão íntima de acreditar que o novo ano traga o que de mais importante faltou nesse que passou.

Hoje é dia de reis (será que alguém ainda se lembra disso?) e estou aqui na janela esperando-os chegar: tomara que tragam a dignidade, o caráter e o respeito, para que este ano comece diferente.

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