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Archive for fevereiro \26\America/Sao_Paulo 2010

 
 
 
 
 

Hoje de manhã, à hora do café, lembrei-me muito da senhora à frente daquela xícara fumegante de chá e posso até sentir o cheiro da manteiga derretendo no pão também quentinho, ao mesmo tempo em que observava suas mãos, com unhas sempre esmaltadas, como se fossem duas pequenas bailarinas graciosas, levando o pão à boca, buscando o guardanapo ou, simplesmente pousadas à mesa, esperando um outro momento, um novo acorde para executar mais outro passo, um salto, quem sabe.

Seu sorriso, bem…seu sorriso era algo de especial! Quando eu a chamava de Lindinha, a senhora sorria para mim e eu ficava perdida entre seu riso, suas palavras, seus carinhos, seu olhar de luz!

Fazia de tudo para vê-la sorrir; fazia gracinhas, contava piadinhas, ou simplesmente sorria porque sabia que a resposta para tudo seria um outro sorriso, um sorriso especial!

Lembrei-me também que, quando papai zangava-se com meus irmãos e comigo, a senhora sorria para nós de uma forma que ele não visse, como que amenizando o momento e isso nos parecia tão reconfortante,  tão cúmplice.

Em uma noite dessas, enquanto o sono não vinha, lembrei-me de como eu,tão pequena, abraçava-a pela cintura (meus braços eram pequenos, não conseguiam se fechar) e assim adormecíamos.

A verdade, minha Lindinha, é que sinto tanto sua falta, sinto falta de tudo o que sua imagem e suas palavras sempre significaram para mim; às vezes penso ouvi-la a sorrir; de outras, sinto seu toque sutil nos meus ombros, meus cabelos.

Por vezes me assusto ao olhar no espelho, parece que estou vendo sua imagem…

E isso acontece sempre nos momentos mais difíceis da minha vida, nesses momentos em que um gesto ou uma palavra tornam-se decisivos, podendo mudar simplesmente o rumo de tudo.

É quando tenho a nítida certeza de que estás ao meu lado, como agora, porque sinto que não apenas escrevo e sim, que estou conversando, contando que hoje pela manhã, à hora do café, lembrei-me muito da senhora à frente de uma xícara fumegante de chá, ao mesmo tempo em que observava suas mãos, como se fossem duas pequenas bailarinas…

 

 

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Origem

 

 

 

Ainda não há tempo para sentir saudade.

Porém já sinto.

Deito no chão do terraço com os olhos grudados na negritude do céu.

Vejo minha casa.

Pequena e brilhante!

E sinto saudade.

A ponto de querer retornar.

Mas ainda é cedo, digo para mim;  se o fizer agora, entrarei em minha casa de mãos vazias, olhos ausentes, coração calado.

Ultimamente tenho sentido vontade de voltar para casa, mesmo consciente de minha condição.

Tenho sentido sede e muita  falta de ar (o dito progresso me sufoca em vários momentos).

 Se eu fosse agora, gostaria de acenar um sorriso para algumas pessoas, como naqueles filmes antigos que revi  junto à minha mãe, onde um lenço branco era estendido ao vento e, como o vento, sumia  leve, lentamente, como um sonho.

Sei que devo estar errada, não é tempo ainda de voltar mas…tenho sentido saudade.

A ponto de chorar.

 

 

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Primavera

 
 

 

 
Continuo procurando entre os escritos
um pedaço de papel
uma lembrança querida
não encontro

 

Um achado da memória
que foi perdido em algum canto
caderno ou gaveta

 

 
Começa parece-me que assim
Sinto que ainda falta em mim uma primavera 
 
Apesar de muitas eu ter vivido
poucas sentido
flores que passaram distraídas aos meus olhos distraídos
vozes de pássaros aos meus ouvidos já surdos
pelos ruídos daqui de dentro da minha cabeça
e do mundo lá de fora.

 

 
Sóis e noites e estrelas que passaram,
voltaram para dizer que ainda estavam,
novamente passaram como passam as horas nos meus dias
achando que não tenho tempo para nada
para mim, para ti
para todas as pessoas que me invadem
os sentimentos 
 
Sinto que ainda falta em mim uma primavera
e quando ela chegar saberei sentir todas as suas cores
saberei de todas as suas flores
do sol, da noite com seu manto forrado de estrelas
dos pássaros, da brisa
do passeio a pé pelas ruas
pela vida

 

 
Saberei das pessoas muito mais
Na certa estarei amando

 

 
Sinto que ainda falta em mim uma primavera
falta em mim uma mão carinhosa que me conduza até ela
e que me faça vivê-la intensamente
minuto a minuto

 

 
Sinto que ainda falta em mim muito mais amor
muito mais, amor

 

 

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Palavras

 

 

Não uso palavras bonitas, tão pouco aquelas rebuscadas para dar um tom diferente à conversa.

Não falo palavras.

Falo sentimentos.

E quando me silencio é porque não encontro uma palavra sequer que possa contar da revolução acontecendo no transbordar de minha alma.

E quando reticencio é porque não há como expressar o sentimento que faz de mim um ser transcendente, envolvido completamente pela luz dos olhos teus.

 

 

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Ser

 
   
 
 
Este que é meu
não é o mesmo que vejo
na companhia dos outros.
 
Este que é meu
fala ainda menos
olha ainda mais
e vejo-o, às vezes, a sorrir.
 
Este que é meu
lê comigo e para mim
poemas de animais
de campos floridos
de chegadas
de algumas partidas.
 
Este que é meu
aquieta-se em cumplicidade
com o silêncio
abraça-me
dorme conversando com as estrelas.
 
Este que é meu
está sempre comigo
no café da manhã
no espelho
nas palavras que procuro
no teclado.
 
Este que é meu
 faz-me dormir
beija-me os olhos com doçura
e fecha os seus.
 
Este que é meu
dorme e acorda comigo
como se comigo
conseguisse viver para sempre.
 
Este que é meu
não é meu
não é de ninguém
nem dele mesmo.
 
Este que é
simplesmente.
 
 

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“Oi!”

 

Atrás de um queijo especial, fui um dia desses a um mercado digamos que um pouco mais sofisticado mas, já lá dentro,  parei com minha busca para observar o tratamento dispensado a duas senhoras já com idades bem avançadas.

Não enxergavam direito e tudo perguntavam a quem quer que por elas passasse.

Alguns mostravam-se prestativos, outros um pouco menos.

As maçãs estavam lindas, brilhantes e consistentes, naquele cesto grande, colocado em evidência.

Mas entre elas observei uma já meio passada, podendo contaminar as demais.

E num piscar de olhos o tratamento mudou.

As senhorinhas foram ostensivamente maltratadas pelo funcionário do mercado.

Precisei segurar meu queixo porque não acreditava no que meus ouvidos contavam.

“Gente da sua idade não pode sair sozinha! Só dá trabalho, só atrapalha!”

A maçã já não estava passada; havia apodrecido mesmo.

Olhei penalizada para elas, no momento em que uma delas humildemente abaixou a cabeça e puxou pela outra, rumo à saída.

Alcancei-as e enquanto fazia queixa  ao gerente, minha memória trouxe, quase que instantaneamente, uma cena da adolescência.

Minha mãe, minha tia e eu estávamos conversando na cozinha, quando chega minha irmã Margarida, toda sapeca, olhos brilhando e feliz! Sabe, mamãe, a Ana Luíza (a vizinha) é minha amiga! É mesmo, minha filha? É, mamãe. E posso saber por quê? Porque ela disse “oi” prá mim!

Até hoje rimos daquela alegria pura e tão afetiva, que a fazia sentir-se tão próxima a outra pessoa  por causa de um simples aceno.

Talvez por isso eu ainda fique chocada quando presencio certas cenas.

Sou de um tempo em que amizade se fazia com a demonstração de um carinho e aproximação, apenas com um sorriso.

Hoje, nem com educação e simpatia conseguimos conquistar a atenção e gentileza de quem está ali unicamente para bem atender às pessoas.

Foi essa lembrança que contei enquanto, no meio delas, de braços dados, atravessávamos a rua, como que querendo me desculpar pelo desrespeito do funcionário.

Já na outra calçada, ganhei um beijo de cada uma e uma delas disse-me, dando tapinhas no meu rosto, Não se preocupe, filhinha, as maçãs podres acabam no lixo.

Quando voltei para a outra calçada, elas me chamaram; virei-me e elas, sorrindo, disseram juntas “Oi!”

“Oi!” respondi e acenei feliz.

Está vendo, minha irmã, hoje ganhei duas amigas; a Dolores e a Vilma disseram “oi” prá mim!

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Traços

Quando te vejo fico assim, meio encantada.

Quero lembrar-me de palavras ouvidas, palavras ditas mas só o que me vem com perfeita nitidez é teu olhar.

A nitidez também me traz tuas mãos de dedos longos, como pernas de bailarinas no ar para, de repente, saltarem do espaço para o teu rosto, teus cabelos ou simplesmente voltarem a executar esse invisível ballet; às vezes uma das bailarinas, cansada talvez, repousa escondida no teu bolso.

Nítido também é o timbre de tua voz, suave ao mesmo tempo que firme, voz clara e  macia como teu rosto, quase que quieta porque grita tudo pela urgência.

Nítida é tua lírica, onde as palavras não falam; sentem, vibram, onde o carinho transborda, transcende, ensolariza.

Nítida também é tua fragilidade, cúmplice da tua força visceral.

Nítida também é tua dor.

O resto, por ora me escapa.

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Metade de Mim

O que falar do Haiti que já não se tenha dito.

Tudo foi abordado, em todos os ângulos.

Mas sinto  algo se esvaindo em mim.

Irrequieta, saí ontem chutando pedrinhas pelas ruas.

O céu já rugia sua tempestade da tarde mas não me importei: a tempestade que trazia dentro de mim era maior.

Por isso, continuei de mãos vazias, olhar grudado no chão, chutando pedrinhas.

Simplesmente.

O corre-corre das pessoas, o barulho ensurdecedor do trânsito, a poluição e os buracos nas calçadas aconteciam ao meu redor apenas como pano de fundo para o meu vendaval.

Quando pessoas importantes na minha vida se foram para uma outra dimensão, eu e meus irmãos, já adultos, sentíamos uma necessidade muito grande em brincarmos de alguma coisa, de jogar varetas, ou dominó ou o jogo do ludo, o que fosse, o que estivesse à mão.

Acho que queríamos enganar a nós mesmos, como se não tivéssemos crescido, como se o tempo não houvesse passado, como se negássemos reementemente e em absoluto mutismo, a perda das pessoas queridas.

Para sempre.

Ontem acordei me sentindo metade.

E tive saudade da outra metade que não sabia ainda aonde estar.

E essa ausência da metade de mim causou-me uma profunda sensação de perda.

Então resolvi sair chutando pedrinhas pelas ruas, pelas calçadas, pelos jardins.

Querendo talvez encontrar em cada movimento um pouco da infância que não vi no rosto daquelas crianças amontoadas como escombros, como embrulhos sem destinatário, numa busca inútil pelos pais desaparecidos.

Para sempre.

Fins de tarde sem fim, como aquela em que a menina segurava uma boneca sem uma perna e sem um olho, com suas mãos sujinhas de terra e de abandono.

Como ela, como todas aquelas com seus olhos vazados de dor e de medo.

Minha criança interior foi ter com elas, a parte que achei haver perdido; foi talvez levar a elas alguns brinquedos, alguns jogos, para que o tempo não as machucasse mais do que mutiladas  já estão.

Talvez possam, juntas, encontrar um pouco de suas infâncias; talvez minha criança possa levar-lhes um sorriso de amor  e  amarrar fitas coloridas em seus cabelos e enxugar a dor de seus olhos, convidando-as a pular a amarelinha na calçada, cujo único objetivo é chegar ao céu.

Em fins de tarde sem fim.

Por isso continuo chutando pedrinhas.

Como moleques chutam latas.

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Ausente

 

 

Procuro um ombro
para deitar minha tristeza

 

Desde que calaste
não consigo mais sorrir
ou falar
ou andar despreocupadamente
entre as rosas

 

Procuro mãos
que me embalem 
junto aos meus antigos sonhos
que até hoje são só sonhos
lindos
delicados

 

Procuro-me
desesperadamente entre os papéis
os lápis
as canetas
e só encontro
uma imensa borracha
que insiste
em me apagar

 

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Não, ninguém entendia que, além de um leite com café dentro de uma xícara, era possível se ver mais outras coisas.
  
Ficava uma hora exata sentada à mesa, para tomar o café da manhã.
Olhava-me refletida no leite.
Sorria para mim e dizia bom dia e, juntas, ríamos pela cumplicidade.
  
Quando começavam a caçoar da minha vagareza em comer e beber, eu e a refletida na xícara chorávamos, magoadas, ressentidas.
Os outros não sabem que você existe, que você está aqui e que todas as manhãs converso com você; os outros não entendem nada – eu a consolava.
E ouvia minha mãe dizer “Dorme em cima de uma mesa!”, pois na certa queria ocupar o espaço com seus afazeres.
 
Então eu tomava todo o leite, de uma só vez.
Bebia, todas as manhãs, além do leite, aquela refletida.
 
Pronto, acabou; nós duas estamos juntas novamente – dizia, olhando para dentro de mim mesma, para aquela imagem que ainda trazia uma pequena lágrima correndo pelo rosto.
 
Então nós duas levantávamos, sorríamos para minha mãe, aquele sorriso preguiçoso que acabou de amanhecer, e íamos pular corda, estudar, desenhar.
 
Todas as manhãs dos meus oito anos de idade.
E por muitos outros anos.
Todas as manhãs.
 

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