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Archive for 11 de fevereiro de 2010

“Oi!”

 

Atrás de um queijo especial, fui um dia desses a um mercado digamos que um pouco mais sofisticado mas, já lá dentro,  parei com minha busca para observar o tratamento dispensado a duas senhoras já com idades bem avançadas.

Não enxergavam direito e tudo perguntavam a quem quer que por elas passasse.

Alguns mostravam-se prestativos, outros um pouco menos.

As maçãs estavam lindas, brilhantes e consistentes, naquele cesto grande, colocado em evidência.

Mas entre elas observei uma já meio passada, podendo contaminar as demais.

E num piscar de olhos o tratamento mudou.

As senhorinhas foram ostensivamente maltratadas pelo funcionário do mercado.

Precisei segurar meu queixo porque não acreditava no que meus ouvidos contavam.

“Gente da sua idade não pode sair sozinha! Só dá trabalho, só atrapalha!”

A maçã já não estava passada; havia apodrecido mesmo.

Olhei penalizada para elas, no momento em que uma delas humildemente abaixou a cabeça e puxou pela outra, rumo à saída.

Alcancei-as e enquanto fazia queixa  ao gerente, minha memória trouxe, quase que instantaneamente, uma cena da adolescência.

Minha mãe, minha tia e eu estávamos conversando na cozinha, quando chega minha irmã Margarida, toda sapeca, olhos brilhando e feliz! Sabe, mamãe, a Ana Luíza (a vizinha) é minha amiga! É mesmo, minha filha? É, mamãe. E posso saber por quê? Porque ela disse “oi” prá mim!

Até hoje rimos daquela alegria pura e tão afetiva, que a fazia sentir-se tão próxima a outra pessoa  por causa de um simples aceno.

Talvez por isso eu ainda fique chocada quando presencio certas cenas.

Sou de um tempo em que amizade se fazia com a demonstração de um carinho e aproximação, apenas com um sorriso.

Hoje, nem com educação e simpatia conseguimos conquistar a atenção e gentileza de quem está ali unicamente para bem atender às pessoas.

Foi essa lembrança que contei enquanto, no meio delas, de braços dados, atravessávamos a rua, como que querendo me desculpar pelo desrespeito do funcionário.

Já na outra calçada, ganhei um beijo de cada uma e uma delas disse-me, dando tapinhas no meu rosto, Não se preocupe, filhinha, as maçãs podres acabam no lixo.

Quando voltei para a outra calçada, elas me chamaram; virei-me e elas, sorrindo, disseram juntas “Oi!”

“Oi!” respondi e acenei feliz.

Está vendo, minha irmã, hoje ganhei duas amigas; a Dolores e a Vilma disseram “oi” prá mim!

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