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Archive for fevereiro \07\America/Sao_Paulo 2010

Metade de Mim

O que falar do Haiti que já não se tenha dito.

Tudo foi abordado, em todos os ângulos.

Mas sinto  algo se esvaindo em mim.

Irrequieta, saí ontem chutando pedrinhas pelas ruas.

O céu já rugia sua tempestade da tarde mas não me importei: a tempestade que trazia dentro de mim era maior.

Por isso, continuei de mãos vazias, olhar grudado no chão, chutando pedrinhas.

Simplesmente.

O corre-corre das pessoas, o barulho ensurdecedor do trânsito, a poluição e os buracos nas calçadas aconteciam ao meu redor apenas como pano de fundo para o meu vendaval.

Quando pessoas importantes na minha vida se foram para uma outra dimensão, eu e meus irmãos, já adultos, sentíamos uma necessidade muito grande em brincarmos de alguma coisa, de jogar varetas, ou dominó ou o jogo do ludo, o que fosse, o que estivesse à mão.

Acho que queríamos enganar a nós mesmos, como se não tivéssemos crescido, como se o tempo não houvesse passado, como se negássemos reementemente e em absoluto mutismo, a perda das pessoas queridas.

Para sempre.

Ontem acordei me sentindo metade.

E tive saudade da outra metade que não sabia ainda aonde estar.

E essa ausência da metade de mim causou-me uma profunda sensação de perda.

Então resolvi sair chutando pedrinhas pelas ruas, pelas calçadas, pelos jardins.

Querendo talvez encontrar em cada movimento um pouco da infância que não vi no rosto daquelas crianças amontoadas como escombros, como embrulhos sem destinatário, numa busca inútil pelos pais desaparecidos.

Para sempre.

Fins de tarde sem fim, como aquela em que a menina segurava uma boneca sem uma perna e sem um olho, com suas mãos sujinhas de terra e de abandono.

Como ela, como todas aquelas com seus olhos vazados de dor e de medo.

Minha criança interior foi ter com elas, a parte que achei haver perdido; foi talvez levar a elas alguns brinquedos, alguns jogos, para que o tempo não as machucasse mais do que mutiladas  já estão.

Talvez possam, juntas, encontrar um pouco de suas infâncias; talvez minha criança possa levar-lhes um sorriso de amor  e  amarrar fitas coloridas em seus cabelos e enxugar a dor de seus olhos, convidando-as a pular a amarelinha na calçada, cujo único objetivo é chegar ao céu.

Em fins de tarde sem fim.

Por isso continuo chutando pedrinhas.

Como moleques chutam latas.

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Ausente

 

 

Procuro um ombro
para deitar minha tristeza

 

Desde que calaste
não consigo mais sorrir
ou falar
ou andar despreocupadamente
entre as rosas

 

Procuro mãos
que me embalem 
junto aos meus antigos sonhos
que até hoje são só sonhos
lindos
delicados

 

Procuro-me
desesperadamente entre os papéis
os lápis
as canetas
e só encontro
uma imensa borracha
que insiste
em me apagar

 

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Não, ninguém entendia que, além de um leite com café dentro de uma xícara, era possível se ver mais outras coisas.
  
Ficava uma hora exata sentada à mesa, para tomar o café da manhã.
Olhava-me refletida no leite.
Sorria para mim e dizia bom dia e, juntas, ríamos pela cumplicidade.
  
Quando começavam a caçoar da minha vagareza em comer e beber, eu e a refletida na xícara chorávamos, magoadas, ressentidas.
Os outros não sabem que você existe, que você está aqui e que todas as manhãs converso com você; os outros não entendem nada – eu a consolava.
E ouvia minha mãe dizer “Dorme em cima de uma mesa!”, pois na certa queria ocupar o espaço com seus afazeres.
 
Então eu tomava todo o leite, de uma só vez.
Bebia, todas as manhãs, além do leite, aquela refletida.
 
Pronto, acabou; nós duas estamos juntas novamente – dizia, olhando para dentro de mim mesma, para aquela imagem que ainda trazia uma pequena lágrima correndo pelo rosto.
 
Então nós duas levantávamos, sorríamos para minha mãe, aquele sorriso preguiçoso que acabou de amanhecer, e íamos pular corda, estudar, desenhar.
 
Todas as manhãs dos meus oito anos de idade.
E por muitos outros anos.
Todas as manhãs.
 

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