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Archive for março \30\UTC 2010

Meu Anjinho

 

 

Mexendo em minha caixa de lembranças encontrei um bilhete de um querido amigo de trabalho que à época do final de ano o escreveu, quando trocávamos correspondências nas brincadeiras de amigo oculto.

 

 

Esse bilhete deve ter sido escrito na década de 80, numa caligrafia bonita mas que está sumindo com o tempo porque foi escrito a lápis.

 

 

Lembro-me do Chicão como se o visse agora à minha frente; eu era sua amiga aculta e, inspirada que fui em sua imagem, olhos azuis, cabelos loiros encaracolados, risonho, criativo, adotei o pseudônimo de Anjinho.

 

 

Fazíamos parte de um grupo muito afinado,  sob o comando do Osvaldo Marcolini, a pessoa que ensinou-me tudo o que eu pude aprender na minha carreira profissional e, mesmo depois que se foi, continuei fazendo valer tudo o que me passou, inclusive a ter paciência e tolerância em horas bastante difíceis.

 

Trabalhávamos muito mas nos divertíamos muito também; almoçávamos juntos, gostávamos do mesmo tipo de leitura e de longas conversas, enquanto caminhávamos pelo jardim da empresa nos horários de café.

 

Ás vezes fazíamos arte, como se fôssemos crianças, de deixar nosso querido Osvaldo de cabelos em pé (talvez por isso, novo que era, tenha ficado precocemente careca).

 

 

Gostaria muito de saber de meu amigo Chicão; não nos encontramos mais desde que ele foi transferido para outra área, há muito tempo atrás, mesmo antes d’eu sair da empresa; sei que àquela época já dedicava-se ao teatro e hoje já não sei o que faz, aonde está.

 

Mas pela lembrança doce e gostosa que me trouxe seu bilhete, compartilho com vocês as palavras dele, seu carinho e inspiração.

Um bilhete que, por certo, guardarei sempre não só em minha caixa de lembranças, mas no profundo de meu coração.

 

Meu Anjinho

 

É com trabalho e fadiga,

Mas com amor e carinho

Que pego nesta caneta antiga

E volto candidamente a encher,

Encher sua tarde trigueira

Sem saber o que escrever

Com uma pena ligeira

Que não para de me encher:

“Senhor Francisco – me diz ela,

Em tom leve e baixinho –

Vamos, dê uma trela,

Escreva para o seu Anjinho”.

 

Vontade não me falta

Inspiração tenho de sobra

E quando apanho a pauta

É para escrever uma obra

Pois você, Anjinho meu,

De mim merece o melhor,

Porque um ser vindo do céu

Não deve sentir dor.

 

Dor de ser mal correspondido

Por um amigo insano,

Que não se faz de esquecido,

Que apenas no seu cotidiano

Tem o amor e pensamento que lhe é cabido.

 

Arranque deste papel,

Anjinho do meu coração,

Um abraço ou beijo com gosto de mel

Que lhe vai mandar seu amigo Chicão.

                                     Francisco Antonio Rossi

 

 

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Sonho

 

Te vejo a sorrir

adormecido

observo teu semblante

quero adivinhar

o que te vai pela alma

 

 

Vejo teu riso desenhando tua boca

te agitas entre os lençóis

estendes as mãos

como a convidar um anjo

a dançar

 

 

E sorrio do teu riso sonhador

da tua brandura

do teu gesto suave

assim a dormir sorrindo

a sorrir adormecido

 

 

Te vejo

e na verdade

quem sonha sou eu

 

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Devaneio

  

 

 Esta noite sonhei com meu irmão, o irmão que arrumou suas malas lenta e dolorosamente e foi morar em outra dimensão.

Mas hoje não quero falar dessa dor; quero falar do sorriso que ele desenhou em meu rosto durante esta noite, desenhista que era a dominar os traços, as nuances, a sombra e a luz, o pulsar da vida em uma pintura, sem nunca perder sua postura de príncipe diante das tolices dos irmãos ou mesmo diante do irremediável por vir.

Lembrei-me então de uma carta que ele me escreveu quando ainda morava no Rio, quando a vida ainda lhe parecia um mar revolto, inconstante ao mesmo tempo que surpreendente; pensando melhor, acho que sempre foi assim…

Assim, ainda com esse sorriso no rosto que ele desenhou suavemente durante toda a noite e com  o coração cheio e tão apertado de saudade, deixo aqui um fragmento dessa carta, onde apenas acrescentei o título acima.

  

“Nesta manhã calma, quando me sento à mesa de desenho e espalho os papéis brancos, vejo todos os matizes do branco.

Embaralho tudo novamente, fazendo um jogo silencioso, descobrindo as idéias que também se espalham na minha cabeça.

Hoje percebi que são muitas e é preciso saber, ter consciência disso.

O traço vai dançando por entre o papel, devagar, impreciso e meus olhos muitas vezes se esquecem de olhar para dentro e ver meu mosaico.

São tantas as pedrinhas e tantas as cores, que me perco.

Fujo de uma emoção forte que sei que me espera.

É a coragem de abrir a porta e tomar a ventania.

É a emoção que me toma todo e que sei que procuro esse escancaramento.

É como um enorme espelho onde me vejo de corpo inteiro.

Senti coisa parecida quando me vi no vídeo e pensei que ainda há muito a fazer.

Meus olhos fogem do papel e buscam ver o que meu traço se esforça em desenhar.

E vejo prédios em construção.

Ruídos de rua.

Da cidade.

E apago as luzes do céu, desse sol embaçado e me vejo nas ruas da madrugada.

Vagabundo e amante do mundo.

Vejo-me perdido.

Só.

Buscando o sabor da aventura que um dia tive e que hoje se repete.

E caminho, caminho, meu desenho não acaba.

Pego os lápis de cor e mancho os papéis.

Verde azulado.

Ultramar.

E me entrego aos pensamentos.”

 João Rodrigues Nepomuceno Filho

1980

 

 

 

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Lembranças…

Há lembranças guardadas em gavetas perfumadas que, de tão cheirosas, viram sonhos.

  

Como virou aquele vestido que vovô Cintra deu, o Nhonhô, como carinhosamente gostávamos de chamá-lo.

Cor de gelo com fitas e lacinhos brancos, meias cor de rosa transparentes e sapatinhos de verniz (e a sombra do vovô de chapéu na foto, tirando a foto).

 Para ir à festa, só se for com o vestido que vovô deu; para ir à missa, só se for com o vestido que vovô deu; para passear com as irmãs no jardim, só se for com o vestido que vovô deu!

Mas, minha filha, vão pensar que você só tem essa roupa. Não faz mal, quero colocar o vestido que vovô deu.

Até que crescí e não deu mais, mesmo, para usá-lo.

 

Como virou o passeio na estação, só para ver o trem chegar, o trem partir.

Quando ouvi o apito lá longe, antes mesmo de fazer a curva (porque é que sempre há uma curva antes da chegada?), agarrei nas pernas de meu pai, com medo do barulho, mas fascinada com a enorme e negra e assustadora locomotiva que vinha, como um animal enlouquecido, tão veloz em nossa direção.

O vento e o barulho ensurdecedores que provocou quando chegou, tirou-me a fala, o fôlego.

Ao contrário de seu passo preguiçoso, quando começou a se mover para partir, depois de deixar tantas pessoas com suas malas na plataforma da estação.

Meu pai perguntou se eu havia gostado do passeio e eu dizia que sim com a cabeça, muda de emoção, porque as pessoas sempre me pareciam felizes ao chegar.

  

Como virou a ida ao aeroporto recém aberto, no Mércuri preto e brilhante de meu padrinho Ray.

Não sei se porque eu era ainda muito pequena, mas aquele avião parecia-me enorme, de um azul tão diferente… pousou na pista como se fosse uma libélula gigante vinda de um outro planeta!

Pelas mãos de meu pai e de meu padrinho, consegui chegar bem perto da escadinha, tão perto que pude ver algumas aeromoças, hoje comissárias de bordo.

E quando a libélula levantou voo, fiquei durante toda a noite com olhos sonhadores, imaginando como deveria ser delicioso olhar as nuvens de perto (aeromoça, será que poderia abrir um pouquinho só a janelinha, para eu tocar nas nuvens e nas estrelas?).

Fiquei imaginando pássaros exóticos fazendo ninhos nas nuvens, borboletas voando entre os raios do sol!

 

Lembranças…perfumadas e inesquecíveis.

Para sempre.

 

 

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Necessito do Silêncio
em suas profundezas
encontro minha superfície
a outra dimensão

 

Encontro a mim mesma
quando inebriada pelo céu da madrugada
consigo ver-me no mar
no rio, na relva
descubro-me
quando cruzo o espaço
como uma estrela cadente
mas em ascensão

 

Sinto-me como que em casa
como se tivesse achado
o meu canto predileto
o meu banco predileto
o meu jardim predileto
o meu momento predileto

 

Necessito do Silêncio
mesmo entre ruídos demolidores
porque pressinto quem sou
quando envolvida em seu sopro

 

Sinto o Silêncio
é como entregar-me
à Natureza
é como um encantamento
um anjo de asas velozes

 

Silêncio, êxtase
é sentir e quase ver o divino
mesmo que a Essência seja invisível
aos olhos mundanos

 

A quietude do meu ser me embala
e assim posso respirar
silenciosamente

 

 

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Regresso

  

Espero teu regresso

para empinarmos pipa

brincarmos de pega

voarmos no teu carrinho de rolimã

 

Haveremos de rir muito

dos joelhos ralados

das mãos sujas de terra

e da dor no pescoço de tanto olhar para o céu

 

Depois, cansados

deitaremos na relva macia

como macia é tua voz

para sonharmos com as formas das nuvens

 

Haveremos de conversar com os caracóis

grilos e também com os pássaros

e ao tentar colher um girassol

pedirei que não o faça

assim poderemos apreciá-lo sempre

 

Deixarei que recostes tua cabeça no meu colo

e tu deixarás que eu acaricie os teus cabelos

cantarei uma melodia de acordo com a tarde

e tu recitarás as estrelas por vir

 

Embriagados pela fonte que jorra de nós

levantaremos num salto

eu com meu vestidinho rodado

e tu de calça curta

prontos para apostar uma corrida

pelo campo repleto de florzinhas azuis

e nosso riso há de farfalhar a copa de todas as árvores

 

Espero pacientemente teu regresso

 

 

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A Madrinha

 

Todo final de ano minha irmã ía visitar sua madrinha, levar um presentinho de natal e… buscar o seu.

Cheguei a ir algumas vezes com ela pois sua madrinha, tão generosa, sempre oferecia uma farta mesa de guloseimas para o lanche da tarde.

Antes de sairmos, mil recomendações de minha mãe para nos sentarmos como mocinhas, para conversarmos educadamente, perguntarmos pelos parentes, filhos e netos; para agradecermos tudo que eventualmente ela nos oferecesse e, que aceitássemos apenas algumas pequenas guloseimas e um copo de refresco e nada mais.

E foi em uma dessas tardes gostosas que nós duas nos dirigimos para a casa de sua madrinha.

Era uma bela caminhada e até chegarmos à sua porta íamos tentando adivinhar o que minha irmã iria ganhar naquele ano.

Lá chegávamos e a madrinha nos recebia com tanta amabilidade e educação, aquela senhora de idade já bem avançada, aparentemente frágil mas de muita personalidade, brilho no olhar e voz firme.

Quando a conversa já caminhava para nenhuma outra novidade, ela pediu licença, nos deixando na sala com aqueles retratos tão antigos pendurados nas paredes e foi dar ordens para que providenciassem a mesa para o lanche.

Quantas delícias! Se fechar os olhos sou capaz de sentir o aroma dos salgadinhos, dos bolos, docinhos e…das empadinhas! Eu adorava as empadinhas que ela mesma fazia.

E não é que ela colocou uma travessa imensa de empadinhas bem à minha frente?

De imediato, lembrei-me das recomendações de mamãe, Comportem-se e comam apenas o suficiente para que a madrinha fique contente.

Peguei apenas uma, coloquei no meu pratinho e fui saboreando lentamente aquela divina delícia; minha irmã pegou, também delicadamente, um pedaço de bolo de chocolate.

De repente o telefone tocou e a secretária veio informar que era o filho dela, querendo trocar umas palavrinhas. 

Então a madrinha nos pediu licença e foi atendê-lo.

Ah! fizemos a festa! Peguei a travessa de empadinhas e dividi metade para mim, metade para minha irmã e, num segundo, devoramos todas; assim, num piscar de olhos.

E entre um gole de refresco e outro, comemos bolos, pamonhas, brigadeiros, pudins.

Quando ouvimos a madrinha voltando, limpamos nossas bocas, recompondo-nos e, com caras de anjo de altar, demos um sorriso amarelo quando ela entrou na sala.

Nunca me esquecerei o susto que ela levou (e que tentou disfarçar)  ao ver a mesa detonada; sorriu daquela forma doce como a pensar, Crianças…

Na verdade, penso que ela deve ter rido muito com sua filha quando fomos embora, da mesma forma que ríamos pelas ruas, prometendo uma à outra não contar nada à mamãe.

Promete? Eu não conto! Então promete.Prometo! Jura? Juro!

E se a madrinha comentar com a mamãe? Não, a madrinha não vai fazer isso, ela é muito fina!

E se a madrinha contar à mamãe que, quando entrou na sala, nós estávamos rindo dos retratos nas paredes? Não, a madrinha não vai fazer isso, ela é muito fina e educada!

E se a madrinha perceber e contar à mamãe que limpei as mãos na toalha porque meu guardanapo caiu no chão e fiquei com vergonha de pegá-lo? Não, a madrinha é muito fina, educada e gentil!

E se a madrinha… Chega! Ela não vai contar nada, fique tranquila. Vamos manter nosso pacto.

Antes de chegarmos em casa, já avistávamos nossa mãe no terraço nos esperando.

Mas… como ela sabia que estávamos chegando, perguntei à minha irmã. E, numa fração de segundo concluímos a mesma coisa: a madrinha ligou!!!

E mal subimos a escadaria, nem ouvindo direito minha mãe perguntando se tudo havia corrido bem, falamos quase que ao mesmo tempo: Mamãe, foi a Isabel que comeu quase todas as empadinhas! Mas a Margarida, mamãe, comeu tres pedaços de bolo e um bom pedaço de pudim! A Isabel tomou toda a jarra de refresco! A Margarida comeu dez brigadeiros, mamãe.

Claro que a madrinha não havia ligado; claro que não sabíamos mentir.

Mas íamos dormir sem jantar.

 

 

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