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Archive for 15 de março de 2010

A Madrinha

 

Todo final de ano minha irmã ía visitar sua madrinha, levar um presentinho de natal e… buscar o seu.

Cheguei a ir algumas vezes com ela pois sua madrinha, tão generosa, sempre oferecia uma farta mesa de guloseimas para o lanche da tarde.

Antes de sairmos, mil recomendações de minha mãe para nos sentarmos como mocinhas, para conversarmos educadamente, perguntarmos pelos parentes, filhos e netos; para agradecermos tudo que eventualmente ela nos oferecesse e, que aceitássemos apenas algumas pequenas guloseimas e um copo de refresco e nada mais.

E foi em uma dessas tardes gostosas que nós duas nos dirigimos para a casa de sua madrinha.

Era uma bela caminhada e até chegarmos à sua porta íamos tentando adivinhar o que minha irmã iria ganhar naquele ano.

Lá chegávamos e a madrinha nos recebia com tanta amabilidade e educação, aquela senhora de idade já bem avançada, aparentemente frágil mas de muita personalidade, brilho no olhar e voz firme.

Quando a conversa já caminhava para nenhuma outra novidade, ela pediu licença, nos deixando na sala com aqueles retratos tão antigos pendurados nas paredes e foi dar ordens para que providenciassem a mesa para o lanche.

Quantas delícias! Se fechar os olhos sou capaz de sentir o aroma dos salgadinhos, dos bolos, docinhos e…das empadinhas! Eu adorava as empadinhas que ela mesma fazia.

E não é que ela colocou uma travessa imensa de empadinhas bem à minha frente?

De imediato, lembrei-me das recomendações de mamãe, Comportem-se e comam apenas o suficiente para que a madrinha fique contente.

Peguei apenas uma, coloquei no meu pratinho e fui saboreando lentamente aquela divina delícia; minha irmã pegou, também delicadamente, um pedaço de bolo de chocolate.

De repente o telefone tocou e a secretária veio informar que era o filho dela, querendo trocar umas palavrinhas. 

Então a madrinha nos pediu licença e foi atendê-lo.

Ah! fizemos a festa! Peguei a travessa de empadinhas e dividi metade para mim, metade para minha irmã e, num segundo, devoramos todas; assim, num piscar de olhos.

E entre um gole de refresco e outro, comemos bolos, pamonhas, brigadeiros, pudins.

Quando ouvimos a madrinha voltando, limpamos nossas bocas, recompondo-nos e, com caras de anjo de altar, demos um sorriso amarelo quando ela entrou na sala.

Nunca me esquecerei o susto que ela levou (e que tentou disfarçar)  ao ver a mesa detonada; sorriu daquela forma doce como a pensar, Crianças…

Na verdade, penso que ela deve ter rido muito com sua filha quando fomos embora, da mesma forma que ríamos pelas ruas, prometendo uma à outra não contar nada à mamãe.

Promete? Eu não conto! Então promete.Prometo! Jura? Juro!

E se a madrinha comentar com a mamãe? Não, a madrinha não vai fazer isso, ela é muito fina!

E se a madrinha contar à mamãe que, quando entrou na sala, nós estávamos rindo dos retratos nas paredes? Não, a madrinha não vai fazer isso, ela é muito fina e educada!

E se a madrinha perceber e contar à mamãe que limpei as mãos na toalha porque meu guardanapo caiu no chão e fiquei com vergonha de pegá-lo? Não, a madrinha é muito fina, educada e gentil!

E se a madrinha… Chega! Ela não vai contar nada, fique tranquila. Vamos manter nosso pacto.

Antes de chegarmos em casa, já avistávamos nossa mãe no terraço nos esperando.

Mas… como ela sabia que estávamos chegando, perguntei à minha irmã. E, numa fração de segundo concluímos a mesma coisa: a madrinha ligou!!!

E mal subimos a escadaria, nem ouvindo direito minha mãe perguntando se tudo havia corrido bem, falamos quase que ao mesmo tempo: Mamãe, foi a Isabel que comeu quase todas as empadinhas! Mas a Margarida, mamãe, comeu tres pedaços de bolo e um bom pedaço de pudim! A Isabel tomou toda a jarra de refresco! A Margarida comeu dez brigadeiros, mamãe.

Claro que a madrinha não havia ligado; claro que não sabíamos mentir.

Mas íamos dormir sem jantar.

 

 

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