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Archive for abril \29\UTC 2010

Súplica

 

 

O que quero é que entendas meu coração.

Tua compreensão não precisa vir revestida de palavras.

Nem de alguma atitude.

Pode chegar silenciosa, será sempre bem vinda.

Sentirei teu respeito no ar.

 

Não preciso que  inventes situações para justificar teus pensamentos suspeitos, sem ao menos tentares saber da verdade.

As meias palavras cortantes, como pontas de vidro estilhaçado, ferem meu pequeno coração que só quer pulsar.

 

Diga, sim, meias palavras que façam com que eu me sinta apenas viva, já me basta.

 

Como com todos que não têm medo de viver, minha jornada também tem sido de pontos ásperos, amargos, difíceis… mas que estou sabendo não contorná-los, mas resolvê-los, estreitamente abraçada aos bons, importantes e ensolarados momentos.

 

E agora, quando busco somente um pouco de paz e serenidade, envolvida pelos meus mais sutis, doces e essenciais sentimentos, não tentes me banhar em águas turvas; elas já não me afogam mais.

 

Se não consegues, morro um pouco a cada instante que me feres, porque a ferida não se abre em meu corpo mas em tua alma; e mesmo de mãos atadas continuo minha busca pela paz que me planejei.

 

 

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Hoje seria o aniversário de minha mãe.

Há tanto a se dizer sobre esse anjo que ainda me protege, mas o farei em outra oportunidade, porque hoje, minha Lindinha, quero dar-te tres presentes: um grande e doce beijo, esta rosa da cor que tanto gostavas e  esta lembrança que veio-me à memória , de uma de suas comemorações.

 

Mamãe havia convidado suas amigas, vizinhas e cunhadas para um belo lanche da tarde e, para recebê-las bem, encomendou junto à confeiteira, bolo, balas, salgadinhos e docinhos.

Como os docinhos ficaram prontos logo pela manhã, mamãe colocou as bandejas dentro de uma cristaleira, trancando sua porta.

 

É nesse ponto que entramos, meus irmãos e eu, em cena.

Minha irmã Rosa entrou na sala e, passando pela cristaleira, espichou um olhar comprido para aqueles docinhos, expostos como se numa vitrine.

Chamou a mim e a Margarida e lá estávamos nós tres cheias de vontade…

Daqui a pouco veio o Assis e o João, curiosos em saber o que tanto olhávamos… e  aqueles docinhos como que acenando para nós.

 

Não sei quem foi o espírito de porco que sugeriu forçar a porta e aproveitar a ida da mamãe ao cabeleireiro, para cair de boca nos docinhos, certificando-nos antes, se o papai havia mesmo saído para comprar as bebidas.

 

Éramos pequenos, mas já sabíamos muito bem o que era certo ou errado.

Mesmo assim, o Assis arrombou a porta com uma chave de fenda do papai.

 

Pegamos a bandeja maior, de brigadeiro e olho de sogra e já estávamos escapando para o quintal, quando a babá apareceu e falou que iria telefonar para a mamãe.

A Rosa, como a mais velha dentre nós, sentiu-se na obrigação de resolver essa parada, que estava tomando rumos indesejáveis; afinal, não havíamos comido nada ainda!

 

Enquanto a babá esbravejava, a Rosa pegou dois enormes brigadeiros e enfiou-os na boca da Mercedes (acho que era esse o seu nome); Agora você não poderá falar nada, senão eu conto que você também comeu, disse a Rosa.

E a Mercedes ficou ali, parada, sem reação, tentando mastigar os brigadeiros. Lurdes, a cozinheira e também irmã da Mercedes, foi logo socorrê-la ao notar que ela nem conseguia falar.

 

O quintal de casa era imenso, muitas flores e plantas, muitas árvores e frutos e nós escolhemos ficar escondidos atrás do canavial.

Agachados para que ninguém soubesse do nosso paradeiro, gulosamente comemos tudo em minutos, rindo e nos lambuzando como se fôssemos bichinhos.

E não tardou a chegar… a dor de barriga!

 

Mamãe ficou triste, claro, mas não se apertou; ligou para a confeiteira pedindo mais.

Pena que não pudemos participar dessa festa da mamãe; além de estarmos, os cinco, de castigo, só podíamos sair de nossos quartos para irmos ao banheiro.

 

Ah! Mãezinha, que saudades…

 

 

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Retornar

  

 

Qualquer dia meu barco ficará à deriva.

Os remos soltos a balançarem com o movimento da água, como se fossem minhas mãos num último aceno.

Um aceno à natureza que sempre e tanto me encantou.

Um aceno aos habitantes das águas que por tantas vezes acompanharam meus sulcos, meu rastro, minhas marcas.

Um aceno a algumas sementes que plantei nas margens por onde passei e também aos frutos que colhi.

Um aceno ao perfume e ao silêncio da mata.

Um aceno às flores, aos pássaros e aos anjos que conheci.

Um aceno ao sol, à chuva, à lua e ao orvalho na relva, à neblina da manhã…

 

Haverá um momento em que meu barco chegará a alguma margem.

E ali permanecerá em silêncio, quieto, paciente, adormecido.

Por dias, anos ou séculos.

 Até que alguém o encontre e o faça, novamente, navegar pelas águas, pelas correntezas, ora frias, ora mornas, ora turbulentas e também em calmarias, atracando num novo cais.

Por segundos, por horas, para sempre.

 

Sei que nesse dia fará sol e, sem saber ao certo por que, sentirei novamente o perfume da vida, espargido pelo vento, no ar.

 

 

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Magia

 

Ouço uma música suave…

Uma valsa.

Fecho os olhos para me dar conta do voo de minha alma até aonde penso que estás.

E chegando mansamente, para que não te assustes, tiro o lápis de tua mão e, com um sorriso, levo-te a dançar, sem uma palavra sequer, entre os móveis, as pessoas, os lustres, as janelas, o tempo.

Os violinos nos levam pela sala como se fôssemos plumas no ar!

Há uma infinita luz que nos acompanha; aquela, tênue, de fim de tarde, branda como um carinho, um sussurro, um silêncio mágico.

E assim rodopiamos pela sala, por onde nos é permitido passar; olhos nos olhos, num sorriso e num compasso, sem pressa, sem dor…

Ouça.. agora está chegando aos seus últimos acordes…

Deixo-te em tua mesa de trabalho, admirando o desenho que estás a terminar e fico contente em ver que este é colorido.

Escancaro a janela de minha alma e como cheguei, sem um ruído sequer, parto no último raio de sol.

Antes, beijo-te as mãos, os olhos, a boca… sem me importar com a platéia que, extasiada, ainda não crê no que vê.

Aqui de volta, sentada diante deste teclado, procuro as letras, as palavras que possam contar, um pouco que seja, desta valsa, deste voo, desta visão…

Sinto-me ainda feliz e leve como uma nuvem a voar ao sabor da brisa da tarde, ou como uma borboleta que acabou de sentir o perfume de sua flor preferida.

Prometo que, quando tu menos esperar, irei aí novamente te convidar a rodopiar entre os móveis e as pessoas, num tempo em que só nós que sonhamos, conseguimos nos situar.

 

 

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Dor II

 

 Não chores, meu amor

embora penses ter agora

as mãos vazias

de eternidade

ninguém nada te roubou

 

É o tempo que vai diluindo as imagens

transformando os sentidos

criando dedos longos

em busca de outras estrelas

sóis, ventanias

 

Não chores, meu amor

os que te amam estão atentos

aqui e lá

a cada passo

a cada olhar

suas asas imensas protegem

teus sonhos, tuas buscas

a secar teus olhos

com um sopro de doçura

 

Não chores, meu amor

mas se acontecer

na tua visão turvada pela dor

que possas ao menos me enxergar

e que me deixes embalar

o silêncio teu

 

 

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Literalmente o mundo está expirando.

Desabamentos.

Alagamentos.

Incêndios.

Terremotos.

Tsunamis.

Vulcões em erupção.

Fenômenos da natureza?

Sim, da natureza humana que a tudo devasta, consome, corrompe, transgride, manipula, devora.

 

Política corrupta.

Violência física e moral.

Miséria física e mental.

Fome física e cultural.

Tráfico de drogas, de mulheres, de órgãos, de armas, de crianças, de ideologias.

Também fenômenos da natureza humana.

Enquanto algumas casas vão se tornando gaiolas de ouro, as ruas vão de transformando em montes de lixo de embalagens, de acidentes, de garrafas, de assaltos, de papéis, de corpos.

 

Desespero, fúria, ira são alguns dos sentimentos que afloram.

Aí se lembram de um deus e em cima dele descarregam seu ódio, suas incompetências, suas mazelas, sua condição de espécime ignorante, tão mais inferior que muitos animais ditos irracionais.

Como pensar nos atributos da alma humana, na dimensão divina do homem, se nem da parte mais objetiva e prática e consciente se é capaz de levar a contento quando, ao contrário, são promovidas guerras registradas nos tempos e nas mentes doentias de lunáticos fantasmas que perambulam pelo planeta se intitulando deuses?

 

Torre de Babel, diz a passagem alegórica da bíblia.

Torre de papel.

Que vai se desintegrando no ar, no fogo, na água, na lama da ganância, do egoísmo, da luxúria.

 

Onde, então, buscar um pouco de luz?

Onde encontrar uma palavra que traduza verdadeira confiança?

Onde compartilhar um doce olhar se as pessoas não mais se enxergam, afogadas que estão em suas angústias e medos?

 

Se alguém tem uma resposta, uma que seja, gostaria de ouví-la; preciso respirar e pensar que, numa virada de esquina, ainda existe a possibilidade de se encontrar um Oasis que não tenha sido atingido pela mão do homem de valores corrompidos, estraçalhados, jogados no poço das misérias, onde soterrou seu amor próprio, sua dignidade e caráter; onde ele mesmo enterrou sua verdadeira divindade.

 

É verdade; não há apenas uma torre de babel; são várias as torres de babel e são gêmeas, embora de aparências díspares.

São gêmeas, espalhadas por todo o mundo, feitas do mesmo cimento, da mesma massa; por isso, o mesmo tombo, o mesmo rombo, o mesmo abismo.

 

Logo os pólos descongelarão, as estrelas cairão e o amor… ah! o amor… bem, o amor não passará de pura fantasia que um dia os poetas enalteceram em suas loucuras.

Nada mais.

 

Na verdade, bem sabemos que quem está dando seu último suspiro não é o mundo.

 

 

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Um Nome

 

 

 

 

O carro freou de repente.

Dele saltou uma moça abrigada em um casaco de lã vermelho, cabelos negros e mãos em luvas de couro.

Quase que de imediato, do outro lado do carro saiu um rapaz alto, forte, casaco pesado, botas de montaria, óculos escuros.

Ela chorava.

Ele falava.

O vento era forte e muito frio naquela manhã.

O lenço que ela trazia nos ombros saiu voando pelo tempo.

Ele parou de falar e correu em busca dele.

Ela, sem parar de chorar, tirou do bolso de seu casaco uma carta.

Uma carta de amor.

Uma carta de amor impossível.

Uma carta de adeus.

Quando percebeu que o rapaz voltava com o lenço transparente como asas de libélulas ao sol, beijou a carta e deu-a ao vento.

Ele, novamente solícito, correu a resgatar aquela folha que fugia, fugia dos sonhos, de uma possibilidade talvez.

Nesse descuido, a correr atrás de algo que nem mesmo sabia, da natureza daquelas palavras, não percebeu que ela tirava os sapatos e subia no beiral da ponte.

E pulou.

Da vida.

No espaço.

Sumiu nas águas.

Ele desesperou-se e gritou seu nome inúmeras vezes, com toda a força de seus pulmões.

Seu óculos caiu na correnteza turva que corria logo abaixo de seus pés, como se assim fosse possível enxergá-la, agarrá-la.

Haveria de beijá-la e abraçá-la e amá-la todos os dias que ainda restassem de sua vida … prometeu a si mesmo.

Estendeu seus braços ao rio e com um uivo, um uivo de dor e fúria, gritou seu nome mais uma vez.

Em vão.

 

Com certa frequência tem acordado assustada, quase chorando, com aquele nome ecoando em sua mente, como se um dia houvera sido seu.

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