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Archive for maio \30\UTC 2010

Por quê?

Se as mulheres conseguiram colocar-se em projeção profissional.

Se têm filhos quando querem.

Se cursam qualquer faculdade.

Se repartem deveres domésticos com seus companheiros e se não há companheiros, conseguem prover suas casas sozinhas, desde uma conta de luz até uma garrafa de vinho.

Se administram seus cartões de crédito.

Se fazem suas escolhas sociais e culturais,

Por que continuam tristes?

 

Olho sem medo para meus olhos, me enxergo e aponto para minha alma o que sempre me faltou e a cada dia mais, porque o que tenho visto é desolador, o oposto do que preciso, sempre.

Há exceções e como é reconfortante reconhecer exceções, embora seja como procurar agulha no palheiro ou fazer um camelo passar pelo buraco de uma agulha ou… não importa: há exceções.

No entanto essa insatisfação crescente vai tomando conta dos gestos, apagando o brilho do olhar.

Vai colocando a mente racional, objetiva, prática em destaque.

Vai automatizando ações e reações.

Vai formatando pensamentos, vontades, sentimentos.

Na verdade vai escravizando ao invés de libertar.

A roupa da moda, o corpo da moda, a boca da moda…

Por que continuam tristes?

 

Nunca gostei de cascas.

Não me fazem bem.

Nem das frutas; também daquelas onde dizem que a maior quantidade de vitaminas está concentrada.

Não consigo digerí-las; ficam entaladas na garganta, às vezes até roubam-me o ar.

Nunca consegui digerir cascas, superficialidades; para bem da verdade, nunca fiz o mínimo esforço para isso.

Sei que acabaria me engasgando com invólucros, protótipos de mulher que, posando de poderosas, servem hoje e cada vez mais, de exemplares-padrão a serem seguidos.

Mulheres de plástico.

Derretem ao sol, racham ao frio.

No mais, ocas, cascas que nem de porcelana são.

Saio pelas ruas observando fisionomias, em especial das mulheres.

E quando me canso, paro em frente à vitrine de uma loja qualquer e, vendo-me refletida no vidro, a única pergunta que me invade a mente é:

Por que as mulheres continuam tristes?

 

 

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Vinho

 

 

 

Não posso tomar vinho na tua presença

Perco a lucidez

O rumo, o prumo

 

Não consigo escutar sequer

Uma palavra do que me dizes

Não sou eu quem ali está

 

Se sorris, sorrio

Se afirmas, confirmo

Se me perguntas o que acho

Respondo logo que igual a ti

 

No entanto

Estou perdida em teus olhos úmidos

Embalada pela carícia da tua voz

 

Persigo tuas mãos com os olhos

Registro teus gestos

Inalo teu perfume lentamente

  E aos poucos me inebrias

 

Não me contes nada sério

Nem importante

Quando me vires assim

 

Não posso tomar vinho na tua presença

Não consigo pensar em nada

Fico com uma vontade louca de te beijar

 

 

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Revés

Onde estavas quando

como um golpe

a noite chegou

Quando o punhal rasgou-me as plantas dos pés

tornando-me uma inútil caminhante 

Onde estavas quando meus dedos foram roídos

e não pude mais escrever cartas de amor

Quando minha boca foi costurada com agulhas envenenadas

e então não soube mais dar um beijo

mesmo que de adeus 

Onde estavas quando meus olhos foram cegados

com imagens dantescas

e por necessidade suprema

desesperadora

precisei involuir involuntariamente

para que eu me sentisse um feto

com esperanças de futuro 

Onde estavas quando meu corpo foi violentado e

como tempestade

foi arrastado

varrido de qualquer sonho possível

para o nada absoluto

Onde estavas quando meu barco foi a pique

mergulhando no submundo do oceano

Hoje as marés trazem destroços de velas

de cordas

de sonhos sufocados

de gritos inúteis

O leme mergulhou na escuridão

junto à âncora

a conviver com o inviável

Não sei onde estavas

mas agora não importa mais

 

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Em Você

  

  Ando

silenciosa e branca

pela casa

silenciosa e branca

procurando nos espelhos

o olhar perdido

 

Entre um passo

e outro

os pés se cansam

do permanente desencontro

 

Nas folhas das plantas

um possível carinho

nas flores

apenas orvalho

 

O perfume

e a beleza

a doçura

e a poesia

estão todos em você

 

 

 

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Máscaras

 

 

Irrita-me ver pessoas brincando de semideuses, da mesma forma que me sensibiliza ver deuses brincando de simples mortais, tão somente para que as diferenças não sejam tão delirantes, evitando simplesmente que esses coitados se matem ao defrontarem-se com o aroma da primeira tarde do outono.

Semideuses, assim se intitulam, deixando propositalmente uma certa evidência de falsa modéstia, porque na verdade se autodenominam deuses.

Da verdade, do mais belo, mais perfeito, do melhor, do maior, do único.

Prefiro a companhia das hortênsias que, mesmo sem perfume, acariciam minha alma, tocam minha emoção, marejam meus olhos.

Prefiro a companhia do grilo verde que mora na folhagem do terraço, que me fala não do mundo dos homens arrogantes, mas da essência de sua alma de grilo.

E se tarde da noite for, não me permitindo longos passeios pelo jardim, ainda assim prefiro o brilho do luar a um lugar de honra no Olimpo junto a deuses de mentira.

 

 

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Eterna

 

 

Ali está aquela que me acompanha há tantos anos.

Não sei quando a encontrei pela primeira vez, perdeu-se no tempo…

Já se fez presente em algumas salas, visível e invisível aos olhos de uns, de outros.

O que mais gosta… acho que de lembranças.

Recortes de rostos, de histórias, de sensações que um dia achou importante guardar, para a qualquer momento reler, consultar, confirmar; ideologias, pequenas jóias, sentimentos, roupas, perfumes…

Daqui da onde estou, olho para ela.

Ela me sorri.

E como hoje foi dia de arrumação, empurrei-a de lá para cá, daqui para lá; depois retornei-a ao lugar de antes; aonde ela sente-se bem, porque dalí domina toda a sala, todos os olhares e palavras e gestos que se desenham na vida, nos móveis, no tempo.

Dalí admira os quadros nas paredes e lembra-se do autor, conheceu-o, sente saudade das brincadeiras que faziam, de dançar todas as músicas da coleção de discos com rótulos vermelhos

Dalí escuta conversas ao telefone, ruídos da rua, notícias na tv.

Dalí sente o aroma dos alimentos postos na mesa, do café que vem lá da cozinha e também o perfume das flores que enfeitam o vaso.

Dalí me vê, quando na rede sonho os sonhos mais improváveis, balançando a cabeça negativamente pelo meu breve sorriso que sempre evapora-se no ar.

Vê o tempo passando lá fora, a chuva, o vento; vê as pequenos periquitos quando chegam para o bom dia e, ao entardecer, como a dizerem boa noite.

Vê demoradamente meus pais e avós eternizados em molduras invisíveis, tentando adivinhar se um dia alguém a fitará também assim, em silencioso reconhecimento.

Ás vezes me vê chorando e corre a me enxugar os olhos com seus cabelos macios, feitos de paz interior; de outras me vê cantando, dançando entre as plantas, pintando, pensando, com os olhos perdidos de amor ou distantes, na escuridão do espaço, em busca da luz de uma estrela ou de um anjo.

Quando me ausento, se emudece; deita no sofá e se me demoro, entristece.

Mas quando ouve o barulho da chave na fechadura, corre para a porta, bate palmas, me beija, me abraça, sorri seu sorriso mais doce…

E, pedindo-me colo, eu a embalo até que lenta e  suavemente adormece.

Adormece em mim.

Cuido dessa criança com muito carinho, com todo o amor que sou capaz de sentir.

Para mantê-la viva.

Como meu espelho.

Como minha luz.

 

 

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Eu Truce

 

 

O diálogo seria mais ou menos assim, entre duas pessoas no ponto de ônibus:

– A gente vamos de ônibus mesmo; se tiver cheio a gente vai di a pé.

– É, o chefe fico loco na 2ª-feira porque eu tinha chego atrasada de novo.

– Eu vi ele co rosto todo vermelho. Ele tava  olhando torto prá você.

– To falano! Mas me deu uma dó dele, que acabou fazendo uns trabalho que era prá mim fazer. Mas hoje eu vou ponhá tudo arrumado e amanhã vou ter menas coisa prá fazer.

– É isso aí! Seje organizada e deixe tudo arrumado.

– Nem que seje prá mim esmagrecer 2 quilos, eu arrumo tudo, num dia só, você vai ver. Ele vai ficar contente e vai passar a acreditar ne mim, apesar que pode até mudar o diretor, mas não muda eu.

– Ué, você não deu sinal pro ônibus? As porta não abriu.

– Eu pensei que as porta já tivesse abrido prá nós subir.

– Ta vendo? O tempo ele tá mudando, vai chover! Ainda bem que eu truce meu guarda chuva…

Na semana passada a revista Época trouxe uma matéria sobre a exposição no Museu da Língua Portuguesa, intitulada “Menas – O certo do errado, o errado do certo”, com curadoria do linguista Ataliba Teixeira de Castilho e Eduardo Calbucci.

 Tudo bem que Calbucci seja professor de cursinho e que Castilho, professor titular da USP, seja um estudioso da área há mais de cinco décadas, mas daí a dizer que “na sala de aula é preciso que se reflita sobre a língua, e não ensinar o português – isso o aluno já sabe. Se o aluno que domina a variante popular voltar para o ambiente familiar falando a norma culta, haverá uma ruptura da identidade linguística.”

Então a minha pergunta  é a mesma que a do professor Evanildo Bechara, um dos mais importantes gramáticos do Brasil, que diz nessa mesma matéria: “É como dizer: se todo mundo está usando o crack, por que eu não vou usar? Se o aluno aprende a língua que ele já sabe, ou a escola está errada, ou o aluno não precisa da escola”.

Confesso que, quando saí do Museu com uma garotada à minha frente, fiquei arrasada ao ouvir os comentários; eles sentiam-se enaltecidos com a exposição, dizendo que sabem tudo e nem precisam estudar mais, confirmando que a linguagem que usam cotidianamente é  “maior legal”.

Já tinha conhecimento de como o ensino está cada vez mais fraco, mas não sabia que existem propostas de nivelá-lo por baixo, bem por baixo, baixo mesmo.

 

 

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