Feeds:
Posts
Comentários

Archive for 15 de maio de 2010

Eterna

 

 

Ali está aquela que me acompanha há tantos anos.

Não sei quando a encontrei pela primeira vez, perdeu-se no tempo…

Já se fez presente em algumas salas, visível e invisível aos olhos de uns, de outros.

O que mais gosta… acho que de lembranças.

Recortes de rostos, de histórias, de sensações que um dia achou importante guardar, para a qualquer momento reler, consultar, confirmar; ideologias, pequenas jóias, sentimentos, roupas, perfumes…

Daqui da onde estou, olho para ela.

Ela me sorri.

E como hoje foi dia de arrumação, empurrei-a de lá para cá, daqui para lá; depois retornei-a ao lugar de antes; aonde ela sente-se bem, porque dalí domina toda a sala, todos os olhares e palavras e gestos que se desenham na vida, nos móveis, no tempo.

Dalí admira os quadros nas paredes e lembra-se do autor, conheceu-o, sente saudade das brincadeiras que faziam, de dançar todas as músicas da coleção de discos com rótulos vermelhos

Dalí escuta conversas ao telefone, ruídos da rua, notícias na tv.

Dalí sente o aroma dos alimentos postos na mesa, do café que vem lá da cozinha e também o perfume das flores que enfeitam o vaso.

Dalí me vê, quando na rede sonho os sonhos mais improváveis, balançando a cabeça negativamente pelo meu breve sorriso que sempre evapora-se no ar.

Vê o tempo passando lá fora, a chuva, o vento; vê as pequenos periquitos quando chegam para o bom dia e, ao entardecer, como a dizerem boa noite.

Vê demoradamente meus pais e avós eternizados em molduras invisíveis, tentando adivinhar se um dia alguém a fitará também assim, em silencioso reconhecimento.

Ás vezes me vê chorando e corre a me enxugar os olhos com seus cabelos macios, feitos de paz interior; de outras me vê cantando, dançando entre as plantas, pintando, pensando, com os olhos perdidos de amor ou distantes, na escuridão do espaço, em busca da luz de uma estrela ou de um anjo.

Quando me ausento, se emudece; deita no sofá e se me demoro, entristece.

Mas quando ouve o barulho da chave na fechadura, corre para a porta, bate palmas, me beija, me abraça, sorri seu sorriso mais doce…

E, pedindo-me colo, eu a embalo até que lenta e  suavemente adormece.

Adormece em mim.

Cuido dessa criança com muito carinho, com todo o amor que sou capaz de sentir.

Para mantê-la viva.

Como meu espelho.

Como minha luz.

 

 

Read Full Post »