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Archive for julho \28\America/Sao_Paulo 2010

 

 

Lembro-me de nossa casa e seu belo quintal.

Lembro-me do sol iluminando sua imensa fachada e do jardim do lado esquerdo, logo na entrada depois da escada, onde as flores sorriam para quem em casa entrasse, ou mesmo para quem do portão olhasse.

Lembro-me do primeiro dia em que escapuli de minha mãe, da pajem e de minha irmã Rosa; abrindo o portão com muito esforço e bem de mansinho, corri para a calçada.

Quantos anos? tres, quatro anos no máximo.

Andava um pouquinho e olhava para trás e pensava: ainda estou vendo minha casa e o portão aberto (eu nunca havia saído à rua sozinha!)

Andava mais um pouquinho, olhava para trás e pensava: ainda vejo minha casa e ninguém sentiu minha falta.

Meu coração batia na garganta e meus olhos, na certa, brilhavam de euforia.

Minha aventura era a maior ousadia que já pensara em fazer: andar sozinha nas calçadas, entre as pessoas, carros, barulhos diferentes… meu Deus! que liberdade eu sentia!

Podia escolher em qual calçada andar, podia escolher em andar rápido ou devagar ou saltitar, conforme minhas perninhas quisessem!

E de longe, mas ainda enxergando minha casa, aquele muro que me parecia tão alto, tão forte, tão protetor, agora não passava de um murinho marfim, seguido de várias janelas (onde foram parar aqueles janelões enormes!) que pareciam caixinhas…

Minhas descobertas nessa aventura? Vi um cachorro (de pertinho!), uma bicicleta veloz (parecia ter asas!), pessoas bem vestidas e mal vestidas, tristes, alegres, assobiando…

Fiquei encantada com os paralelepípedos; faziam um som tão poderoso quando um carro passava sobre eles!

E de repente esqueci de olhar para trás; de tão entretida que estava, perdi minha casa de vista.

No mesmo momento que entrei em pânico, ouvi a voz de minha mãe e de minha irmã, Isabel… Isabel… onde você está?

Onde eu estava?

Como responder se eu não sabia onde estava.

Não sabia, não conhecia aquelas casas, aquelas pedras, aquelas ruas…

Estou aqui!!!  (aqui, aonde?)

Pus-me a chorar até que um anjo veio me socorrer.

Me tomou pela mão, sorriu e me fez um carinho nos cabelos e pediu para não mais chorar, que ele iria me levar até minha mamãe.

Viramos a esquina e então vi novamente minha casa: tão alta, tão forte, tão acolhedora!

E vi minha mãe sorrindo no terraço, falando alto e gesticulando, descendo as escadas, correndo para mim.

Ufa! por hoje chega, por hoje está bom de emoções, pensei eu, abraçando longa e carinhosamente minha mãezinha do coração.

Meu anjo? Quando me virei para falar com ele,  já havia partido.

Mas nunca mais me esqueci de seu semblante; mesmo porque já o vi outras vezes.

 

 

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 Espero a noite chegar.

Vislumbro o vulto silencioso do universo.

O sol se põe forte e vermelho, como imagino as tardes em que suas energias se reunem para traçarem novos trajetos.

Os prédios começam a acender como se fossem árvores de natal, presépios, presentes… 

Espero a noite chegar.

O céu está limpo, mais azul, mais calado.

Vasculho sua profundeza em busca da primeira estrela.

Sei que vou vê-la a qualquer momento, como se fosse o olhar risonho de minha mãe vindo me beijar (preciso tanto de ti, hoje, minha mãe…) 

Um dia suas mãos de raio vão me alcançar, eu sei.

Sei também que me levará a passear pelas nuvens, pelos mundos e poderei contar-lhe do meu amor.

Assim abraçadas, nós duas continuaremos a nos confidenciar como antes.

Ah! lá está ela me sorrindo! 

A noite chegou.

 

 

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Estavas aqui todo o tempo.

Mas tua dor imensurável não te deixou vislumbrar a lua.

Nem as estrelas.

Nem a mim sentada ao piano, tentando tirar das notas uma pausa, mesmo que em semibreves, que te fizesse respirar, para aspirar o perfume da noite.

 

Estavas aqui todo o tempo.

Acalentado pelo silêncio divino daqueles que estão neste mundo por descuido.

Mas tua dor, maior que qualquer possibilidade de discernimento, povoava teus movimentos, teus pensamentos, tua vontade.

De estar de volta, de ser mortal, de se despojar da distância imposta aos deuses.

Por um dia que fosse, ainda que por um momento ao menos. 

 

Estavas aqui todo o tempo.

E eu nada pude dizer ou fazer.

Apenas pude chorar e vislumbrar teu vulto solitário a reluzir ao luar.

E as teclas do piano, tocadas por dedos robóticos, repetiam apenas as notas semínimas, incessantes, a confirmar minha condição.

 

Até o sol surgir e tu não mais estar.

 

 

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A do passado afirma

te reconheço

 

A do presente constata

ainda não te conheço

                                                                                 

A do futuro pressente

te saberei

 

E enquanto a eternidade vai passando diante dos olhos

para todo o sempre

as temporalidades recolhem-se em uma só

sem saber se esse amor

liberta ou sufoca

 

 

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A parte de mim onde me habitas

está sempre impregnada de luz

mesmo nos dias em que choras

fazendo-me reconhecer a velocidade dos rios

 

Na parte de mim onde me habitas

há sempre flores que espargem teu perfume

a cada passo

a cada gesto

 

Com a parte de mim onde me habitas

teço um lençol de cetim onde guardo

embrulhadas com cuidado

todas as delicadezas que me fazes

como se guarda jóias e alicerces

 

A parte de mim onde não me habitas

permanece em plena escuridão

 

 

 

 

 

 

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Última Confissão

 

 

Ver pessoas partindo

me faz  pressentir

que também posso ir

a qualquer instante

 

Mas antes que eu me vá

quero deixar para que guardes contigo

as palavras que comigo sempre guardei

e não pude dizer

 

Te amo!

 

(pronto, agora posso morrer)

 

 

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Canto

… e então abraçou-me como se o anjo fosse eu!

Com ternura e suavidade.

Por um segundo senti seu coração batendo junto ao meu corpo, seus braços cingindo minha cintura.

Depois me beijou os cabelos.

E me sorriu lentamente, com o vagar da eternidade.

Senti minhas pernas fraquejarem, as imagens turvarem, a respiração alterar.

Só via seus olhos e neles mergulhei  a nadar sentimentos profundos.

Foi quando me perguntou se eu queria voar.

Não tenho asas, meu amor – respondi – mas, se quiseres,  aprendi a cantar uma bela canção, que me ensinou um passarinho sabiá!

Sem nada falar, tomou-me nos braços e alçou suave voo, voo de anjo, até o por do sol.

E de mãos dadas, sentados em uma nuvem rosa – alaranjada, vendo o sol a despedir-se de nossos olhos para dentro de nossas almas, disse-me então, com voz mansa e doce, para eu cantar aquela canção.

Sem largar de suas mãos, fechei os olhos e cantei do jeitinho que o passarinho sabiá me ensinou: com a simplicidade da alma, com a intensidade da emoção.

Por toda a noite.

Por todo o verão.

Por toda a vida.

Para ele.

Só para ele.

 

 

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Olho para seus olhos e sinto uma energia forte que costumo sentir apenas nos de pessoas íntegras, que lutam por suas verdades, suas escolhas, suas caminhadas.

Nas palavras, o que absorvia de tudo que o cercava.

Nos gestos, o que da vida pretendia.

Os que com ele conviveram contam que não gostava de bajulação, mas era de uma amorosidade infinita para com os que se mostravam como são, sem dissimulações.

Deixou-nos poesias ricas, raras, profundas, o que tanto precisamos nos dias de hoje, onde a maioria se contenta com quase nada.

Aqui deixo uma lágrima e um aceno de tristeza, com a certeza de que agora trilha outra estrada onde encontrará, por certo, poetas que o antecederam e o aguardam de sorriso e braços abertos.

Vai-se o homem mas permanece o anjo de luz, que impregnou de energias suas palavras, seus poemas, para sempre, como este abaixo que deu título ao livro.

  

Paranóia

 

  Eu vi uma linda cidade cujo nome esqueci

 

onde anjos surdos percorrem as madrugadas tingindo seus olhos com lágrimas invulneráveis

 

onde crianças católicas oferecem limões para pequenos paquidermes que saem escondidos das tocas

 

onde adolescentes maravilhosos fecham seus cérebros para os telhados estéreis e incendeiam internatos

 

onde manifestos niilistas distribuindo pensamentos furiosos puxam a descarga sobre o mundo

 

onde um anjo de fogo ilumina os cemitérios em festa e a noite caminha no seu hálito

 

onde o sono de verão me tomou por louco e decapitei o Outono de sua última janela

 

onde o nosso desprezo fez nascer uma lua inesperada no horizonte branco

 

onde um espaço de mãos vermelhas ilumina aquela fotografia de peixe escurecendo a página

 

onde borboletas de zinco devoram as góticas hemorróidas das beatas

 

onde os mortos se fixam na noite e uivam por um punhado de fracas penas

 

onde a cabeça é uma bola digerindo os aquários desordenados da imaginação.

 

 

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Logo cedo, a primeira providência que tomei, mesmo antes do café, foi ligar para o CBDC; para quem não sabe, Comando dos Bandidos Donos da Cidade, para pedir permissão para sair de casa.

Preciso abastecer minha casa de alimentos e também de produtos de higiene pessoal e de limpeza.

 

Perguntei com um pouco de receio se poderia aproveitar a saída, para dar uma chegada rápida ao Mercado Municipal, para comprar frutas e flores.

O CBDC permitiu que eu comprasse frutas, flores não.

Pedi também para dar uma volta até a Praça Buenos Aires onde, em épocas tranqüilas, eu costumava ir à tarde para ler, escrever ou pintar, ao que permitiu, mas sem livro, caneta ou lápis nas mãos.

 

Ordenou que eu usasse óculos escuros, o mais escuro possível, para não ver com clareza a beleza da natureza e, se por acaso eu tivesse vontade de cantar, que emprestasse a mordaça de algum pitbull que por lá estivesse a brincar.

Ah! o CBDC também me orientou a não falar e muito menos a sorrir para qualquer pessoa que por ventura cruzasse o meu caminho.

Também me ordenou para não mudar de itinerário sem aviso prévio.

 

Alertou-me de que não adiantará atravessar as ruas nas faixas de segurança e nos sinais verdes; haverá sempre componentes do CBDC trafegando pela cidade, prontos para cometerem barbáries, as piores possíveis.

E, por fim, que não adiantará eu segurar com firmeza a bolsa junto ao corpo; quando eu menos esperar o CBDC a arrancará de meus ombros e se eu resistir, azar o seu, disse ele em tom debochado.

Depois desses apartes que me deixaram bastante tranquila e relaxada, deu uma sonora gargalhada, dessas de filme de terror, e me informou que eu tinha permissão para sair, mas não garantia nada que eu retornasse; e desligou o telefone proferindo costumeiros palavrões.

 

Diante do exposto, resolvi não sair mais.

Faz cinco horas que estou tentando cancelar minha saída, mas a linha só dá ocupada.

Só parei uns minutos para tomar um copo de água e olhar, com medo, pela janela, para ver se o tiro que ouvi foi mesmo aqui por perto.

 

Se eu não conseguir cancelar é bem capaz que invadam minha casa, me intimidando e humilhando por eu ter pedido licença e não ter saído.

Para não perderem a viagem, quebrarão tudo o que virem pela frente; levarão tudo o que encontrarem de valor.

A minha vida para o CBDC não tem o mínimo valor, mas se estiverem um pouquinho só invocados e ficarem irritados, também a levarão.

 

Será o fim da brincadeira.

 

 

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