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Archive for setembro \30\UTC 2010

 

 

Me pego lendo-os novamente.

Hoje me parecem apenas palavras.

Ou talvez eu é quem queira que pareçam apenas palavras em folhas soltas de papel.

Senti necessidade de lê-los, um por um, para ver o que ainda me diziam.

Também quis ouvir uma das músicas que eu colocava quando sentia vontade de escrever para você, de você.

Os bilhetes estão à minha frente e parece-me que minha intuição,  acima da batida do meu coração, faz-me pensar que talvez o melhor fosse destruí-los, todos, rasgá-los um por um, libertar as palavras da tinta, do papel, da alma.

Vacilo, não são apenas palavras, eu sei; você me diz em cada uma delas, eu sinto.

Meu gesto sem carinho, meu olhar gelado como um fio afiado de faca, meu coração cicatrizado de ferida de morte me permitem que eu os analise neste momento: brancos, sem exceção; de vários tamanhos, várias dobras, várias gramaturas, porém brancos.

Antes, retinham o perfume de suas mãos; hoje são inodoros.

Soltos, espalhados pela mesa, sem nenhuma ordem, sem datas, o que não faz diferença alguma; minha alma sabe porque, em que tempo e como tudo aconteceu.

E não se esquecerá nunca mais.

Guardará esses momentos para sempre.

Há fatos, penso eu, que deveriam ser apagados porque, por mais que eu me engane, por mais que eu me justifique, sempre constatarei no espelho que aquela minúscula marca, porém profunda, aquela lampadinha queimada lá no fundo dos meus olhos aconteceu.

E não há possibilidades de restituição, de troca.

Assim permanecerá.

A vida é assim, um banco de lâmpadas, vão se apagando uma por uma, de diversas formas.

Em silêncio, em curto circuito ou até mesmo no escuro, quando pensa estar apagada apenas para repousar.

Até que não sobre mais uma sequer.

E mais esta se queimou.

Estourando ruidosamente, deixou pequenos cacos espalhados nas mãos, na garganta, nos olhos, na boca.

Cacos assim tão pequenos, impossíveis de serem recolhidos, varridos, encontrados aqui ou ali, debaixo daquele sorriso ou daquele gesto que ficou incompleto, retido no ar.

Toda essa dor e todo esse desconforto fazem parte do viver?

O amor que senti por você, que explodiu e evaporou no ar como um balão atingido por um dos cacos, foi um dos sentimentos mais lindos que já vivi em minha vida.

E recordá-lo me basta, me é o suficiente para saber que felicidades são pequenos momentos que às vezes demoramos vidas e vidas para refazê-los, ainda que adormecidos em nossas lembranças.

                                                       Primavera de 1983

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Às Vezes

 

Às vezes

quando se perde

se ganha

 

 

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23 de Setembro

 

 

Se eu disser que dia 23 de Setembro homenageia-se Ricardo Eliócer Neftalí Reyes Basoalto, na certa alguns me perguntarão de quem se trata.

Mas se eu disser que nesta data é lembrada a morte de Pablo Neruda, todos saberão de quem falo.

Nobel da Literatura em 1971, desenhou seu último voo no espaço em 1973, devido a um câncer, encontrando eu em vários compêndios que Neruda morreu de “tristeza” ao ver dissolvido o governo de Allende.

Rendo-me neste e em todos os instantes de ternura ao seu encantamento, que transbordará para sempre das palavras que ele utilizou para eternizar sua expressão de  amor, de saudade, de carinho, de busca, toda a sua lírica.

Deixo aqui um dentre tantos poemas de minha predileção, imaginando-o a declamar:

 

Nos Bosques, Perdido

 

Nos bosques, perdido, cortei um ramo escuro
E aos lábios, sedento, levante seu sussurro:
era talvez a voz da chuva chorando,
um sino quebrado ou um coração partido.

Algo que de tão longe me parecia
oculto gravemente, coberto pela terra,
um gruto ensurdecido por imensos outonos,
pela entreaberta e úmida treva das folhas.

Porém ali, despertando dos sonhos do bosque,
o ramo de avelã cantou sob minha boca
E seu odor errante subiu para o meu entendimento
como se, repentinamente, estivessem me procurando as raízes
que abandonei, a terra perdida com minha infância,
e parei ferido pelo aroma errante.

Não o quero, amada.
Para que nada nos prenda
para que não nos una nada.

Nem a palavra que perfumou tua boca
nem o que não disseram as palavras.

Nem a festa de amor que não tivemos
nem teus soluços junto à janela…

Pablo Neruda

 

 

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Árvores

senhoras imponentes do

tempo

pés no chão

cabelos ao vento

 

Como se não bastasse

tamanha majestade

ainda cantam

ainda dançam

ainda são generosas

em sombras e frescor

em frutos e ninhos

em encontros e sonhos

 

Por isso

senhoras do tempo

 

 

 

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Gestos

  

Procuro-te

como se nunca o tivesse visto

e surpresa

vejo que és como sempre te guardei

em mim

 

Teus olhos falam

com a voz que sempre escuto

quando a vida me surpreende

com uma bússola

 

Das tuas palavras

sorvo a sabedoria

de saberes grande em mim

embora te mostres pequeno

 

Tuas mãos como que distraídas

contam segredos

rasgam cortinas

para me encontrar

escondida atrás de ti

 

 

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Nascera com esse dom.

Foi com a mãe visitar a vizinha, para ajudar a tricotar o enxovalzinho dos bebês que estavam por vir.

Mal chegou e vendo aquela barriga imensa, começou a rir e a dizer Mamãe, dona Matilde engoliu minha bola, aquela que sumiu ontem lá do quintal.

A mãe, meio sem jeito, explicou que ali dormiam dois bebês que logo logo iriam acordar.

A criança pediu para colocar suas mãozinhas delicadas de cinco anos de idade na barriga da futura mamãe, o que foi atendida de imediato.

Foi então que, com as mãos no ventre, seus cabelos começaram a se eriçar, tornando-se uma imensa cabeleira loura, o que deixou todos os presentes alarmados, surpresos, diria até que temerosos…

No instante seguinte nova transformação: os cabelos começaram a desarmar à medida que se encaracolavam, como cabelos de anjos barrocos.

E, como se não bastasse, novo susto: a feição da criança foi se modificando, os olhos de cor de avelã passaram a verdes, o rosto afilado, um brilho intenso nos olhos e uma expressão meio cínica nos lábios, diga-se de passagem, nada normal que se possa perceber no rosto de uma criança.

No outro instante, tudo se normalizou como num passe de mágica, como se nada houvera.

E a criança parecendo divertir-se disse Mamãe, são dois meninos! Como assim, meu bem!?! É, são dois meninos de cabelos enrolados e olhos claros; um é bom e o outro mais ou menos.

O que aconteceu com a futura mamãe não vem agora ao caso, mas quando as crianças nasceram eram tal e qual havia descrito a criança.

Foi esta a sua primeira manifestação.

A partir desse dia formou-se uma fila interminável de mulheres grávidas à sua porta e como a família passava por dificuldades financeiras, o pai, tesoureiro na empresa em que trabalhava, resolveu contabilizar as visitas.

Às vezes quando estava indo à escola e via uma mulher grávida, atravessava a rua correndo e, colocando as mãos na barriga dela, fazia sua previsão; tudo escondido do pai porque havia muitas mulheres pobres naquela cidade.

O tempo foi passando, a criança crescendo, simples, delicada, doce, até que um dia tornou-se uma moça muito bonita e inteligente; digamos que um pouco diferente das demais, pois à medida que o tempo passava ia aprimorando seu dom, capaz de manifestá-lo já nos primeiros meses de qualquer gravidez, ou melhor, nas primeiras semanas, como fazem os cálculos os médicos.

Num dia de outono perdeu seus pais.

Num dia de inverno enviuvou sem chegar a ter filhos.

Num dia de primavera foi morar com a irmã que havia tido um belo menino.

Ajudando-a a banhar o garoto e resvalando naquele pênis tão pequeno que mais parecia um dedinho de criança, seu dom se manifestou de forma diferente; agora retratava em seu rosto não só o lado físico do garoto, mas sua personalidade, trazendo à tona alguma passagem importante do seu futuro.

A irmã, vislumbrando uma situação ainda mais promissora, resolveu alardear e contabilizar, como o pai, aquela nova inspiração, não se importando com o que vira no rosto da irmã.

A fila interminável de homens que se formou à porta da casa era maior que a de mulheres; tão grande, que foi obrigada a dar uma assessoria à irmã, que já não estava dando conta do recado sozinha; na verdade debatia-se todos os dias, quase que o dia inteiro, naquele mar leitoso e caudaloso que a cercava.

E foi assim que as duas, por pura incompetência  administrativa,  prostituíram-se.

 

 

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Marcas do Tempo

 

Rodeado por tantos

sorrisos

olhares

palavras

por que haverias

de reparar em mim

 

Entregue a tantos

amores

suspiros

saudades

por que haverias

de escutar a mim

 

Povoado de tantos

sonhos

beijos

carinhos

por que haverias

de pensar em mim

 

Sou criança

quando penso ser única

Sou marcada pelo tempo

quando descubro

uma por uma

todas as outras

 

 

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