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Archive for novembro \26\UTC 2010

 

Quando a energia elétrica é interrompida, corro ao terraço para cantar com a chuva.

Depois pego o violão e fico brincando com suas cordas, fazendo alguns sons.

Lá maior, lá menor, ré maior, fá sustenido, fora as posições que minha irmã, com seus dedos longos e ágeis, inventou.

 

As lembranças vão surgindo à minha frente como um filme.

Papai cantando e tocando Sertaneja.

Minha irmã Rosa compondo A Ribeirinha.

Nhonhô Cintra, meu avozinho, cantando e tocando O Pé de Jambo, onde todos nós, no refrão, batíamos os pés no chão, cantando: “sai prá lá moleque malcriado e deixe o passarinho bicar sossegado, fazendo isso você não vai pro céu, quem mata passarinho vai pro beleleu”.

 

Como um filme.

Minhas lembranças levam-me em suas asas ligeiras à casa da minha infância.

Mamãe cantando,  Assis rodando o pião a fazer aquele ruído estranho de ventania, João pintando A Abolição e Margarida ocupada em vestir suas bonecas, contando a elas sua história predileta.

 

Quando a energia elétrica do meu bairro se vai é como se eu, de malas já prontas, embarcasse para a cidade dos meus sonhos, dos jardins e bosques floridos e ensolarados, dos bons ares, onde mora meu amigo João, para o qual cantei e toquei tantas canções de amor e dor.

 

Quase perdi o trabalho que estava digitando quando a energia se foi nesta tarde.

Não me importei porque acabara de descobrir que a chuva também é um anjo terno que me  faz reviver.

As lembranças embalaram-me em seus braços e no silêncio que se fez depois.

 

 

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Quem sou eu

para que a onda do mar venha até onde estou

e se quebre aos meus pés

em espuma e murmúrios

 

Quem sou eu

para que o mar permita que eu brinque e pule e cante

enquanto envolve meu corpo

em força e poder

 

Quem sou eu

para que o sol mostre as ilhas ao redor e os navios tão distantes

a gemerem seus lamentos

ao mais profundo do oceano

 

Quem sou eu

para que o Tempo traga lembranças em seu manto

vividas em outras praias

fazendo-me ver criança a catar conchinhas para castelos enfeitar

 

Quem sou eu

para que a lua me banhe com clarão e lágrimas

por sentir no ar o perfume dos que já se foram

sem algum vislumbre dos que virão

 

Quem sou eu

para que esta escuridão da noite me trague por inteira

sentada nesta pedra

onde brilha a imagem de uma oferenda aos céus

 

Quem sou eu

para que o Universo me presenteie com esta brisa carinhosa

que faz esvoaçar meus cabelos

minha alma

 

Quem sou eu

para que Itararé de São Vicente me acolha em seus braços

com tanta doçura, magia e leveza

 

Quem sou eu

pergunto ao silêncio embriagador do por do sol

um pequenino grão de areia responde-me ele

beijando-me a boca e o riso

como se faz a um eterno amor

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Ter Asas

 

 

Quando pego um pássaro nas mãos

sinto como se estivesse

acariciando-te

com cuidado

para que um gesto mais brusco

não venha te assustar

como te assustas com a vida

em certos momentos de tempestade

 

Fico maravilhada com a cor da tua plumagem

com a fragilidade de teus pés

e, no entanto trilhas teus rumos

como a um cuidadoso voo traçado

 

Quando pego um pássaro nas mãos

de coraçãozinho tresloucado

a quase sair pelo bico

é para recuperá-lo do susto de uma batida

e o tempo de ficar bom

 

Depois faz como tu

parte novamente

sem ao menos olhar para trás

 

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Tenho em mãos um livro que, acredito, poucas pessoas conhecem.

Da Companhia das Letrinhas, com ilustrações muito criativas, repletas de detalhes de gosto bastante requintado, A Maior Flor do Mundo é um livro destinado ao público infantil, escrito por José Saramago.

 

E porque está em sua estante de livros, pode alguém perguntar.

Porque em minha alma, respondo eu, mora uma criança de sentimentos naturais e que nunca irá crescer, além de ser perdidamente apaixonada pelas histórias de meninos e meninas que, por sua vez, moram no mais íntimo de cada poeta, cada escritor, cada romancista.

 

E ali está o retrato da alma deste escritor que me cativou, que continua desafiando meus pensamentos, que me apaziguou o viver em momentos de extrema aflição, que companhia me fez em noites insones e que me ensinou ver o mundo por um prisma muito especial.

 

Este dramaturgo que a muitos estremeceu diante do compromisso que tinha consigo mesmo, lealdade esta que muitas vezes não ia de encontro com o pensar de muitos e, por isso, não souberam respeitá-lo devidamente.

Este romancista polêmico que jogava um carvão em brasa sobre o gelo da hipocrisia e que, de tão incandescente, rompia com qualquer máscara revestida de uma moral que existe, até hoje, só nos tratados de bem viver contemplados em leis esquecidas pelos gestos e palavras daqueles que se dizem senhores do bem e da verdade.

 

Um escritor severo consigo mesmo, pleno que era da responsabilidade que existe no poder da palavra.

Um escritor que unia os extremos do universo, ódio e amor, completando assim o círculo da evolução dos sentimentos no homem.

 

Mas neste livro Saramago mostra-se despido de qualquer tipo de argumentação; expõe a face cristalina de sua alma, aquela parte de si que é pura essência, que permanece; que sonha, que imagina e que voa, entregando a quem queira estar com o menino que trazia em si e para si, do menino que talvez tenha conseguido apresentar para tão poucos…

Aquele garoto que, cansado de remar contra tantas tempestades, exausto adormeceu ao relento, agasalhado por uma pétala dA Maior Flor do Mundo.

 

É assim que dormes em mim, menino.

Sei que hoje comemoram teu aniversário e que talvez fosse prudente acordá-lo para assistires às comemorações, mas… dormes em mim, tal e qual o garoto que foi levado para casa, rodeado de todo o respeito pelo feito que atingiu.

Um respeito que ficaram te devendo ao longo desta travessia terrena que findou, mas que nem por isso alterou tua rota em busca de algo maior que tua própria vida.

 

Lendo e relendo este pequeno livro grande, procuro entre linhas a magia, o encanto que só quem não cresceu é capaz de vislumbrar.

 

Um dia disseste e aqui transcrevo, porque sinto-o a cada leitura que faço:

“O outro é um complemento que nos faz a nós maiores, mais inteiros, mais autênticos.  Essa é a minha própria vivência.”

A minha também, meu poeta, a minha também.

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Acabei de ler um texto que diz ser o homem portador de pelo menos uma virtude.

É, virtude, palavra esquecida, enterrada com os sonhos, a delicadeza, a educação.

 

Um dia desses estava eu transitando por uma rua onde havia uma obra em andamento e, de repente, formou-se uma fila imensa encabeçada por mulheres.

Estiquei o olhar para ver o que ocorria: em um lugar onde passava somente uma pessoa por vez, sem riscos de atropelamento, as mulheres tiveram que parar para que uns marmanjões passassem! Não havia um que se dignasse ceder a passagem a uma mulher sequer, que se detivesse para que a fila do outro lado andasse um pouco!

Minha amiga Ademilde ficou com pena de mim por reparar nessas coisas e disse que eu sou da época dos dinossauros; acho que sou mesmo, os dinos eram muito mais educados que os racionais de agora.

 

Fico muito confusa com o que vejo e com o que leio.

O texto diz que a virtude é um elo que une o profano ao divino e que devemos utilizá-lo de forma pura e sublime, fazendo brotar através dessa virtude nossa própria alma.

Haverá alguém, alguns olhos, algum sentido em sintonia com essa energia.

Aí me perdi por completo; aonde, em pleno século XXI, vou encontrar um dinossauro para trocar energias sensíveis, doçura?

 

Há pessoas, continua o texto, que se utilizam de suas virtudes para cortar atalhos, buscar caminhos fáceis, passar por cima dos outros. Elas nunca saberão como é o prazer de pisar na terra, sentir o cheiro do mato, tomar chuva entre as plantas e as flores, conversar com os animais.

Se elas conhecessem esse estado de espírito haveria mais cordialidade, generosidade, carinho.

É uma questão de escolha, de escolher como ser.

 

Quando acabei de ler o texto senti uma saudade tão grande da era paleozóica ou mesozóica, não sei; da era em que os dinos passeavam pelas matas, alimentando-se de folhas e frutos… e à noite, quando a lua brilhava lá na imensidão do espaço, eles emitiam aqueles sons que mais pareciam lamentos; depois, entrelaçados uns aos outros, adormeciam…

 

Lamentos.

Lamento tanto que tenhamos chegado neste século sem poder compartilhar nossas sonoridades escritas em partituras de emoções e delicadezas.

Por isso lamento tanto a solidão interior de cada um.

Lamento tanto que a tecnologia esteja dando saltos velozes e mortais à frente do homem em anos, décadas, e o próprio homem esteja marcando passo, arraigado que está à pobreza de espírito, à mesquinharia, ao egocentrismo.

Lamento tanto tudo o que passou e não foi aprendido e muito menos apreendido e  que não voltará jamais.

 

 

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A saudade chega assim

sorrateira

silenciosa

 

Penso em dormir

quando a noite se mostra

e ela chega

e como fere fundo

a foice, a faca

até sangrar

 

Dói tanto

impossível deter

o pranto

 

A tristeza me invade

vontade de tua voz

tuas mãos

teu sorriso ainda que triste

 

E o sono se esvai

a noite avança

o pranto não cessa

completo abandono

 

Depois que te vi

os dias que passo longe

não existem

são abismos escuros

profundos

 

Preciso de teus olhos

nos meus olhos

preciso da tua luz

 

Penso em mandar-te

uma carta de amor

mas não sei como fazê-lo

nem sabes que morro a cada ausência

 

 

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Deita menino, tua cabeça no meu ombro.

 

Se quiseres continuar tocando tua flauta, ouvirei todas as notas e verei todos os risos que dela se elevam aos céus.

 

Se quiseres chorar, não farei barulho algum para que possas ouvir o bater forte e compassado de meu coração, dizendo que nas lágrimas mais sentidas estão escondidos os oceanos de esperança.

 

Dorme menino, deixa que o vento suave brinque com teus cabelos macios, te beije os olhos e os sonhos; enquanto ressonas, recordarei teus murmúrios, teus pedidos às estrelas quando, numa poça d’água, achavas que as tinhas a escorrer entre os dedos.

 

Quando acordares será outro tempo e, abrindo teus olhos e tua mente, terás tempo suficiente para sentires o sol raiando na tua vontade louca de viver!

 

Por enquanto, adormece menino; prometo segurar teu balão colorido para que não saia a voar sem destino e também não deixarei que as formigas façam festa com teu algodão doce porque, bem sei, o clima não é de festa…

 

Quero apenas que descanse teu cansaço, tua dor, tua aflição; quem sabe sonhes com uma pipa linda a riscar o espaço, quem sabe sonhes com uma rosa ou com uma nova canção.

 

Permite apenas que eu sorria, na tentativa de que teu sono seja em paz.

 

 

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