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Archive for dezembro \18\UTC 2010

Paz e Bem!

 

As malas estão quase prontas.

Itinerário traçado.

Ilhas quase desertas, paradisíacas, tombadas.

Estou indo a passeio, mas a sensação é de fuga; dos fogos, do riso maquiado, do abraço frio, dos votos ditos de forma automática.

 

Mas antes de partir quero contar uma história de amor.

Saindo do médico fui até ao Shopping Paulista para ver, mais uma vez, a decoração de Natal.

Foi quando avistei no piso de baixo, Papai Noel sentado no trono e uma pequena fila de crianças que, sentando em seu colo, faziam seus pedidos.

 

Fiquei em pé ali por perto por muito tempo e, quando a fila acabou, olhei para um lado, depois para o outro e corri falar com o Papai Noel.

Sua auxiliar, com uma prancheta na mão para anotar os nomes das crianças e seus desejos, olhou-me sem nada entender e eu também não senti vontade de me explicar.

 

Sentei-me aos pés de Papai Noel, que me fitava meio surpreso e meio triste, quase que adivinhando a razão d’eu ali estar.

Trocamos um olhar demorado, feito meio que de desespero, dor, angústia, mas com uma fagulha de luz que cintilava pela sinceridade, até ingenuidade do meu ato.

Senti que ele não sabia quem estava ali; se era a criança que me habita ou se era a mulher.

 

Depois me sorriu e como eu não dissesse nada, passou suas mãos enluvadas nos meus cabelos e perguntou se podia me ajudar.

Foi quando senti meus olhos marejarem, aquele nó na garganta indo e vindo, impedindo que eu emitisse qualquer som.

Quando senti que realmente chorava, abaixei a cabeça como se, com esse gesto, pudesse amenizar o constrangimento que causei.

 

Novamente senti sua mão enluvada em meu queixo, obrigando-me a olhá-lo de frente e, mais uma vez, nos olhamos profundamente, olhamos nossas almas; eu a dele, ele a minha.

Foi quando notei que de seus olhos também escorriam lágrimas, com a diferença de que Papai Noel necessitava recompor-se e eu não; poderia sair chorando entre as pessoas, que ninguém se incomodaria com isso.

 

Foi só neste momento que vi que algumas crianças formavam nova fila e sorriam entre si por verem um adulto junto a Papai Noel.

 

Mas ele carinhosamente tomou-me pelas mãos e levantou-me, levantando-se, e pediu à sua auxiliar um balão em formato de coração.

Amarrou-o no meu pulso esquerdo com aquela fita vermelha, macia como um carinho eterno que eu jamais esquecerei.

 Abraçou-me demorada e comovidamente.

E bem baixinho, como se temesse quebrar a delicadeza daquele momento, disse-me ao ouvido:  Paz e Bem!

Beijou-me a testa e deixou-me ir.

Enquanto caminhava no meio da multidão, ainda pude ouvir ao longe a risada do Papai Noel divertindo a criançada.

 

 

Até a volta.

 

 

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Ausência II

  

 

Já sofro

e sequer partiste

 

O nó não facilita

a passagem do ar

seiva necessária

quando estás longe

 

E sinto-te perto

distante

presente, ausente

como passos de uma valsa

dos opostos

a zombarem de minha agonia

 

E, no entanto,

te alcanço com o pensamento

(nunca com as mãos)

carinho perdido no vazio

no lado escuro do espelho

 

Já sofro

porque sei não resistir

tua ausência

enfraquecida

olhos turvos

a morrer de amor

 

Enquanto te acenava do cais

desmanchava-se em meu gesto uma alegria

nascia em minha alma

mais um soluço 

 

 

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“Nunca estou sozinho

  Porque você bate dentro de mim

 Feito um segundo coração

 A pulsar meus caminhos”

 

                                                                                    Paulo César Falseti

 
 
(do poema Saudade)
 

 

 

 
 

O telefone tocou.

Meia dúzia de frases de minha irmã e aquele momento que o coração dá menos uma batida se repetiu.

Depois a incredulidade.

E depois, no silêncio, veio sua imagem como se aqui você estivesse naquele momento.

Primeiro seus olhos azuis como um céu sem nuvens.

Depois seus cabelos loiros envolventes como o sol das manhãs.

Por fim, seu sorriso aberto, contagiando a tudo e a todos.

Palavras carinhosas e doces, sempre doces em sua boca, de sua alma.

 

Lembrei-me da última vez que nos vimos, no Natal passado, sentados no sofá da sala de seu irmão, meu cunhado, a confidenciarmos sentimentos partidos em cacos doloridos, por amores não correspondidos.

Você olhou no fundo de meus olhos, dizendo que sabia exatamente como era a dor que eu sentia…

E nesse segundo silencioso comungamos nossa solidão interior.

 

Mas logo você sorriu e entregou-me seu livro de poesias – Cartas por Um Dia de Amor – com palavras doces em sua dedicatória: “À querida Isabel, com todo carinho e apreço. Para 2010, um ano cheio de amor para dar e receber. Dezembro/2009. PC Falseti.”

Chamavam-no de PC, você gostava, mas para os íntimos você era Paulo, nome bonito, sonoro, forte.

 

Seu olhar fotográfico ficou registrado em cada sutileza, nuance, luz e requinte de cada foto que escolheu para esse livro.

Seu coração de poeta, eternizado em cada verso.

 

Nossos natais eram momentos preciosos, ocasião em que você conseguia fazer com que esquecêssemos um pouco do mundo lá fora, com seu riso farto e sua voz forte, para nos divertirmos um pouco.

Parece que escuto sua voz a dizer Sentem juntas aqui, irmãs Nepomuceno, vamos registrar esta lembrança; afinal não sabemos quando este momento se repetirá.

 

As lembranças se esvaem, um vazio muito grande me invade.

 

E você vai embora assim, de repente, a 20 dias do Natal, sem um aviso, nos deixando tantas dúvidas do que possa ter ocorrido naquela estrada, de madrugada, sozinho.

 

Mas já não importam as perguntas que ficaram soltas no ar, a levitarem sem respostas.

O que importa é ter nítido na mente que naquele exato ponto da estrada um portal se abriu e por ele você passou.

E hoje você habita a outra dimensão.

Dizem que o momento em que você se foi, é exatamente o horário em que os anjos estão mais perto de nós.

 Na certa você ficou encantado com tanta leveza e magia, que seus olhos fotográficos não conseguiram desvencilhar-se de tanta luz!

Correu atrás delas, para elas e por isso transpuseste o portal.

Com os anjos você está, clicando com sua máquina as imagens, os movimentos e tantas outras coisas que a nossa limitada visão não é capaz de enxergar.

 

Um dia encontrarei meu portal.

Não sei de que forma, mas gostaria que você fosse uma das pessoas a me esperar do outro lado, a me sorrir esse riso cristalino e espontâneo, a me estender as mãos.

Por isso não digo adeus, querido amigo, mas sim, Até Breve.

 

 

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Hoje armei meu presépio.

Um pouco tardio com relação ao ano passado.

Mas como no ano passado, já sabia que recordações iriam aflorar à medida que desembrulhasse cada peça, cada imagem.

Também me recordei de vários natais, principalmente os da infância.

E os da infância da infância.

Daqueles que levantávamos pé ante pé, logo de manhãzinha, para espiar o que Papai Noel havia deixado aos pés da árvore de Natal.

Faço questão de escrever com maiúsculas, pois naquela época acreditávamos em tudo o que nos contassem a respeito dessa data mágica.

 

Éramos felizes e sabíamos!

E nossos pais irradiavam carinho e muita alegria ao nos verem felizes assim.

A primeira boneca de louça, maior que eu e que chamei de Lila, em homenagem à minha mãe.

A primeira bola de vidro que quebrei, ao tentar ajudar meu pai a enfeitar o alto do pinheiro, um pinheiro alto e natural.

 

A primeira vez que vi o amigo de meu pai vestido de Papai Noel a nos entregar os presentes; não posso me esquecer do momento que o vi subindo as escadas, tocando sininhos e dando sua risada… não consegui balbuciar uma palavra sequer; apenas olhava-o e sorria, fascinada por ele estar justo à meia noite em minha casa e não, na de outras crianças, milhares de crianças pelo mundo!

Quando estava de partida, não me deixaram ir ao terraço para acenar para ele, na hora em que seu trenó levitasse no ar; disseram-me que as renas se assustariam e não seria bom que isso acontecesse…

A primeira vez que fiquei sabendo quem era realmente aquele homem vestido de Papai Noel.

 

A primeira vez que pude comprar presentes para todos; foi quando descobri e senti a profunda alegria que externavam meus pais!

 

A primeira vez que passei o Natal sem meus pais e meu avozinho.

A primeira vez que passei o Natal sem meu irmão caçula.

A primeira vez que passei o Natal sozinha.

 

Tudo tem a primeira vez.

O riso, a dor.

A união, a separação.

Ganhar, perder.

Ganhar achando que perdeu, mas que ganhou.

Perder definitivamente.

 

A cada imagem, a lembrança de uma pessoa marcante, mesmo que silenciosa, sensível e quieta, porém marcante.

 

Este ano não chorei, meus olhos apenas lacrimejaram.

Talvez esgotou-se a fonte durante os dias deste ano que termina, por algumas injustiças a que fui submetida e ainda o sou.

Ou talvez, neste dia, minha criança estivesse dormindo ou saído a passear.

Talvez por ser esta a primeira vez que armei meu presépio pressentindo que, depois de muitos anos, não estava sozinha.

Por isso, pela primeira vez, apaguei todas as luzes da casa, deixando acesas só as do presépio e, tomada pela emoção da companhia tão sutil, quase que imperceptível, cantei baixinho aquela música antiga de Natal, vezes seguidas.

 

Depois adormeci em paz.

 

 

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Encontro

 

E de repente

num virar de esquina

encontro teus olhos

a me alcançar

 

Procuras nos meus

um pote de mel

que sabes existir

pois já ouviste a voz

que trago dentro de mim

 

Procuras em minha boca

o sorriso de anjo

o gesto delicado

a carícia suspensa

em teu rosto

 

Procuras tudo

que minhas palavras

silenciosas

já contaram

 

No entanto

abaixo meus olhos

fito tuas mãos irrequietas

não sei exatamente

o que confirmar

se te amo

se te desejo

se te sonho

como sempre foi

 

 

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