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Archive for janeiro \31\UTC 2011

 

Trazia a pequena urna nas mãos.

Com muito cuidado, delicadeza e com um sentimento de profunda ternura por aquela que houvera sido.

Entrou no elevador sem deixar que a porta se fechasse.

Acionou um botão e a porta de aço, no fundo falso do elevador, se abriu fazendo um ruído de séculos, mostrando atrás de si um depósito de grandes proporções.

Com algumas teias de aranha, uma claridade tênue que brotava de algum lugar, cheiro de antigo, guarda relíquias preservadas, preciosas.

Com seu vestido antigo azul noite, cabelos presos no alto da cabeça por uma fivela dourada, gestos precisos, porém suaves, ela entrou no recinto.

Abaixou-se, colocou a pequena urna talhada, conforme havia pedido, entre outros pertences.

Foi quando ouviu o barulho de alguém tirando o objeto com o qual havia prendido a porta.

E, pesada, se fechou, aquela do fundo falso, encerrando-a junto aos símbolos que cultivara anos a fio, décadas, séculos…

No corredor apenas um papel amarelo voada de um lado para outro.

Com uma caligrafia acentuada de mulher mostrava a quem quisesse ler Cuidado, não fechar a porta em hipótese alguma.

E por descuido foi fechada.

Achou um canto para si entre as relíquias, segurando a si mesma naquela urna.

Sentiu-se então, uma parte a mais daquele depósito, daquele tempo onde cada peça foi palpitante, essencial, foi vida.

Hoje estão sufocadas pela poeira da solidão.

São apenas peças mortas.

E o papel voava de lá para cá.

No chão, sem rumo.

Agora já sem qualquer serventia.

 

 

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Segundo Dia

 

Deitada entre lençóis macios que seu tato diz serem de linho, alvíssimos, olha para o teto e vê estrelas.

As que estão no teto de seu quarto.

Sabe que pode trazê-las pela mente.

Sabe que pode fazê-las brilhar.

Sabe, porque traz em si a criança que foi e que neste momento aflora, cresce plena.

Um ambiente de aflições, nada próprio a uma criança, principalmente sensível como sempre foi.

Mas ela está ali, maior que qualquer decisão e qualquer incerteza.

 

Entre sua cabeça e as estrelas gira um ventilador tão devagar que parece acabar de despertar, espreguiçando-se.

Poderia até dizer que seu ruído baixinho e intermitente parece um bocejo…

 

Sente-se bem.

Neste horário da madrugada, que dizem ser quando os anjos estão mais próximos dos mortais, os sonhos fluem.

Vêm, voltam.

Escondem-se atrás de outras imagens que povoam o inconsciente.

Depois, revoltam-se e voltam e surgem novamente.

E sua mente vai desfiando-os como se fossem fios enrolados de uma teia.

Vai pacientemente desfiando-os, até que possa entendê-los para contá-los.

Até que possam mostrar realmente a que vieram.

 

É o momento da inspiração plena, tudo acontecendo na mente.

Olhos cerrados, escuta apenas o ruído quase que inaudível do ventilador.

Sente que a teia de fios tão finos e brilhantes, como se estivesse exposta ao luar, mostra-se por inteira.

 

Então respira profundamente e abrindo devagar os olhos pode observar que a seu lado a criança brinca, fala sozinha, ri para alguém que ela não pode enxergar.

 

E assim, contemplando a si mesma, sorri.

E adormece.

 

 

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E da onde tiravas os pés

eu colocava os meus

segura de não imergir

sem perceber que

assim sugava tua alma

passo a passo

sem nunca ter me oferecido

para seguir à tua frente

 

Só assim

poderia ter proporcionado

que descansasse teu coração

um pouco que fosse

na serenidade de um aceno

que não deixei existir

 

 

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Dia 6 é Dia de Reis.

Lembro-me de um ano em que me encontrava no litoral, não me recordo exatamente onde, que pude presenciar uma cerimônia no mar.

Em uma pequena barca, à frente de todas, seguiam tres potes medianos de madeira simbolizando o incenso, a mirra e o ouro; todos adornados com flores.

Logo atrás seguia outra barca transportando os Reis Magos devidamente paramentados e mantendo uma respeitosa postura, como convinha ao momento.

E finalmente um cortejo de pequenas embarcações, onde pessoas entoavam hinos exaltando a sabedoria, a fé e o amor.

 

Da praia pude ver que a uma determinada altura, no mar, para lá da onde as ondas quebram, as duas primeiras barcas se emparelharam e ao badalar de um pequeno sino, cada Rei Mago tomava de seu pote, erguia-o aos céus fazendo uma invocação ao divino, em favor da humanidade, espargindo seu conteúdo nas águas do mar.

 

Quando vi que as barcas faziam o caminho de volta, fiquei pacientemente aguardando e admirando aquele movimento de pessoas, desejos e cânticos misturados ao perfume do sol e à brisa do mar.

 

Os curiosos como eu, além do cortejo, formaram um corredor para que os Reis Magos, já em terra, passassem.

Quando aquele mago alto e negro como o ébano, em sua túnica bege esvoaçando como a brisa do deserto, aproximou-se da onde eu me encontrava, senti um arrepio pelo corpo.

Foi quando meus olhos encontraram-se com aquele profundo, úmido, vibrante e negro olhar.

Eis que ele estancou à minha frente, me sorriu e através de gestos pediu que eu estendesse uma das mãos.

Acanhada, estendi a mão direita e ele sorrindo disse Muito bom… a mão direita… a que vai sempre ao coração.

E nela depositou uma porção de um pó fininho, como areia mas dourado, e uma lasca pequenina de madeira.

Olhou-me novamente, agora com mais suavidade, dizendo Para tua edificação.

E se foi.

 

Nesta data é comemorado o Dia de Reis.

Dia que, por um significado muito íntimo, escolhi para inaugurar o meu blog.

Ele está completando seu primeiro aniversário.

Como uma criança pequena, ainda não sabe caminhar, apenas engatinhar.

Mas desde o primeiro momento de nascida, e muitas vezes em meio ao pranto,  já sabia balbuciar e sentir a palavra  AMOR.

 

 

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