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Archive for março \31\UTC 2011

Encontro II

 

 

Perdi meu senso crítico.

  

Saí cantando pelas ruas, mais alto que o habitual, gesticulando uma canção de amor.

 

E como sou romântica e por isso só vejo o que quero ver, assim cheguei naquela praça ainda florida, ensaiando alguns passos mais ousados.

 

E dancei com as pequenas rosas que me acenavam nos canteiros.

 

Mas quando cheguei ao museu esqueci de tudo, esqueci do sol que fazia lá fora, esqueci do trânsito alucinado das ruas, esqueci do frescor lá de dentro, esqueci dos quadros que vi, esqueci de mim.

E  ajoelhei-me diante da bailarina de Degas, que costumo chamar de minha bailarina, minha imagem menina, minha expressão e sentimento.

 

 E não me importando com as pessoas que olhavam meio assustadas, meio surpresas, chorei.

 

Por algum tempo ali fiquei silenciosa, emocionada, como sempre faço quando sou tocada na alma, até um segurança se aproximar, perguntando se eu não estava me sentindo bem. Disse a ele que apenas chorava de saudade, ao que ele nada entendeu e se afastou.

 

Por que conto esse fato, alguém pode estar se interrogando e respondo eu que hoje em dia é tão raro encontrar alguém.

O que dizer então diante do que ocorrera, pois naquele momento   consegui me encontrar com uma parte adormecida do que fui.

 

E pela primeira vez me senti exorcizada por ter perdido de vez meu senso crítico.

 

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Desencontro

 

 

 

ah… pobre coração

o dos apaixonados

   

quantas voltas é preciso que o tempo dê

para que os que se amam

possam se encontrar…

  

mas será que vai ser sempre assim

como uma dor dentro de mim

que nunca acaba?

 

 

 

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Aqui estou.

Na casa dos meus sonhos.

Vejo esta escadaria e sinto-me como quando pequena, descendo pelo corrimão, a voar dias, ouvindo minha tia cheia de cuidados.

A passar horas de alegria até o relógio se cansar de marcar tantos risos.

  

Aqui estou.

Outrora onde houvera o quadro de meu avô, agora me sorri um homem de semblante centrado a fitar-me diretamente nos olhos, como o fazem somente criaturas especiais.

Austero como convém à moldura, porém com uma ponta de tristeza no olho esquerdo.

  

Esta sala… o vitral ao fundo, sem luz natural.

Quantas tardes sentei-me neste mesmo lugar, aonde havia um grande e macio sofá, só para ficar olhando o sol se por nesses mil pedacinhos de vidros coloridos, alegrias diversas, flores raras, murmúrios de fontes, pássaros a desvendarem o espaço…

  

No teto desta sala onde muitas vezes deixei meus olhos se perderem, depositei em cada canto, em cada devaneio, minhas ilusões, meus anseios e alguns medos.

Mas foi no sótão que escondi meus segredos, a esperar meu príncipe na sacada, nas noites de luar.

  

E minha mãe a tricotar mais sapatinhos de bebê.

E meu pai a fumar seu cachimbo com cheiro de chocolate, lendo as últimas notícias estampadas no jornal.

E meu avô ao telefone, aquele antigo, de manivela, a trocar idéias com Ramos de Azevedo.

Meu irmão caçula a pintar um quadro de escravos libertos, enquanto minha irmã mais velha lia algo interessante sobre Haroldo de Campos, este de olhar emoldurado!

  

Aqui estou.

Na casa de meus sonhos que hoje chamam de Casa das Rosas, onde outrora foram plantadas em seus imensos canteiros e cultivadas pelas mãos de minha mãe, inúmeras rosas, de várias nuances, que marcavam sempre uma data especial.

  

Aqui estou.

Em outro tempo, em outra pele, com o sentimento impregnado de lembranças, como se de um perfume de nome saudades…

 

 

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Adormeci em você.

 

Quando acordei estava em outro século.

 

Que não aquele em que eu sorria sempre, só porque você dizia que assim tudo se iluminava.

 

Que não aquele em que meu corpo fremia diante do seu mais simples olhar, só porque você dizia que meu gesto desenhava sons na sua pele.

 

Que não aquele em que, de mãos dadas, passeava meu vestido comprido entre as folhas do outono, enquanto você lia poemas de amor.

 

Que não aquele em que você me deitou no jardim da minha infância e ali, num plenilúnio de verão, me fez mulher.

 

Foi quando, entre sussurros e carícias, adormeci em você.

 

Hoje você não me reconhece, não ilumino seus olhos, não provoco seu corpo, sequer me deseja.

 

Procuro desesperadamente libertar-me deste século de pesadelos, mas quanto mais me debato mais me perco.

 

E assim vou morrendo em minha própria sombra, sem saber ao certo qual delas sou.

 

 

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De todas as que te amam

sou a mais insegura, a mais inconstante, a mais confusa

 

Em mim

sei que nunca encontrarás um porto seguro

uma praia

um caminho ao entardecer

 

Nunca adoecerei pela ausência de um sorriso teu

 

Não passarei noites insones

tentado afastar rostos e gestos que te atormentam

não tenho dúvida de nenhum

 

Não quero que o meu seja mais um

a te assombrar

como a um sentimento que nunca se concretizará

 

De todas as que te amam

sou a que menos ama

 

Sou a perversa criatura

que se soma ao cordão das insensatas

aquelas que impiedosamente invadem

o sono e os sentidos dos sensíveis

 

De todas as que te amam

não sei se sou a única de plástico, robótica

inflável, inflamável

 

De todas as que te amam

sou a que mente mais e melhor

 

 

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Lendo notas escondidas no canto de uma página de um jornal, tomei conhecimento de que 14 de Março é o Dia Internacional da Poesia.

Recorri a compêndios para certificar-me desta informação, o que confirmei um pouco surpresa.

Olhando a mesma data em anos e até em séculos passados, procurei uma razão para tal, envergonhada comigo mesma por não me lembrar desta homenagem.

 

O fruto de minha pesquisa para esta data:

1.492 –  A rainha Isabel de Castela ordenou a seus súditos que se convertessem ao cristianismo, sob pena de serem banidos do país

1.653 – Ocorreu a Primeira Guerra Anglo-Holandesa

1.939 – As tropas nazistas ocuparam totalmente as províncias tchecoslovacas da Boêmia e da Morávia

1.978 – As forças de defesa de Israel invadiram e ocuparam o sul do Líbano, na Operação Litani

 

Fiquei me perguntando por que comemorar dia 14 de março como o Dia Internacional da Poesia.

Onde há poesia em toda essa miséria humana, em todas essas atitudes dantescas para com seus próprios semelhantes?

Nessa data deveria ser comemorado o dia da estupidez humana, isto sim, mas depois me lembrei que essa comemoração é feita todos os dias, a cada gesto corrupto e traiçoeiro que se registra nos anais da história mundial.

 

Indignada, continuei minha pesquisa e meu coração se aquietou um pouco à medida que fui descobrindo que também essa data é o marco do nascimento de pessoas incríveis, ligadas não só à poesia, mas à arte em geral, à inteligência aplicada e expandida em função da evolução real e sensível do ser humano.

Dentre eles destaco alguns como Johann Strauss (1804), José Maria do Amaral (1.812), Théodore de Banville (1.823), Alexandre Braga (1.829), Castro Alves (1.847), Clodomiro Amazonas e Karl Marx (1.883) Benedito Lacerda (1.903),  Synval Silva (1.911),  Geraldo de Aquino (1.912),  Celeste Rodrigues ( 1.923), Ismael Silva (1.978).

 

Também nesta data é comemorado no Japão o White Day, um feriado semelhante ao nosso dia dos namorados.

Feriado… em meio a escombros, mortes, miséria, desolação.

Mas talvez exista um casal, pelo menos um, que esteja de mãos dadas celebrando a vida, a vida que lhes restou após a passagem desse tsunami avassalador.

Da mesma forma que pode haver uma pessoa, pelo menos uma, sentada confortavelmente com um livro de poesias nas mãos, imaginando o que o seu poeta predileto de fato sentiu quando escreveu esse seu poema de amor e dor.

 

O resto é esquecimento.

 

 

 

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Sinto morrer-me quando te calas

Ouço o grito do silêncio teu

 

Tua mão fria me alcança e meu coração, em pedra e gelo, envelhece da aurora ao anoitecer

Meu corpo, chama viva, não mais reconhece o teu

 

Se sentisse vida em teus olhos talvez esperasse o gesto de rever o amanhã, o orvalho, a grama, as flores, os pinheirais, o sol embalando esperanças

 

Mas teu olhar ausente, disperso, incerto, ao certo já está aonde existe vida

A vida que procuras, que não a minha

 

 

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