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Archive for maio \30\UTC 2011

 

Tenho em mãos o livro “Os Caminhos de Mandela – Lições de Vida, Amor e Coragem” de Richard Stengel.

Não sei se este é um bom jornalista, nunca li nada sobre ele ou dele; só sei que este livro traz trechos inéditos do Diário de Mandela.

 

Tenho feito essa leitura logo pela manhã, na minha parada obrigatória no parque, em meio aos animais silvestres e domésticos, junto a pessoas que, como eu, usufruem do que resta de bom e belo na natureza.

 

De manhã estou completamente lúcida, nada ainda interfere na minha linha de raciocínio; por isso absorvo o livro em sua totalidade, o que me faz admirar a inteligência, reflexão e vivência dessa criatura que tanto sofreu torturas físicas, mentais e psicológicas e que, mesmo assim, conseguiu sobreviver e oferecer ao seu povo a parte melhor de sua existência.

 

Do capítulo 13 – Desistir também é liderar – quero destacar dois trechos que acho dignos de serem mencionados, porque de súbito e irremediavelmente me fizeram compará-los com situações que estão ocorrendo no meu (ainda) amado país.

 

“Quando lhe perguntaram se concorreria para um segundo mandato, respondeu que “definitivamente não”.

E não concorreu.

Foi um ato definidor de liderança.”

 

Levantei os olhos do livro e meu pensamento foi de profunda admiração por um homem que sempre teve a noção exata do momento de prosseguir e do momento de parar.

De superar a vaidade e não dar margem à arrogância de se achar maior e melhor que todos os outros; de ceder a outro a oportunidade de exercer a cidadania, como podemos sentir no pensamento “Nós nos tornamos melhores por meio da interação altruísta com os outros.” 

Impossível não me lembrar das promessas dos políticos que congestionam e poluem este país.

E de como mais uma vez estava certo quando já dizia “que o Ocidente é o bastião da ambição pessoal, onde as pessoas lutam para seguir à frente e deixar as demais para trás.”

E nós somos uma grande fração do Ocidente e essa frase traz intrínseca, para mim, a carruagem da corrupção.

 

Mais adiante, no mesmo capítulo, é contado que quando deixou a presidência, acreditava que deveria realmente se aposentar e fazer como o líder romano Cincinato que voltou para sua fazenda e viveu uma vida tranquila.

Ele estava longe de querer uma vida tranquila, mas para que ficasse transparente e que todos entendessem que ele realmente não mais desejava a presidência, deixou claro que “Quando você sai do palco, não pode ficar enfiando a cabeça pela cortina”.

 

Levantei novamente os olhos do livro e já não sabia se meu rosto estava molhado pelos respingos da fonte de água à minha frente ou se eu suava sufocada pela tristeza, ao lembrar que o ex-presidente deste país não só enfia a cara, como o corpo todo pela cortina e, como se não bastasse, ataca de primeiro ministro (como disse a minha xará), dando palpites e impondo idéias partidárias, numa opressão ostensiva sob seus “companheiros” e aliados.

Sem condições de continuar minha leitura ou minha tortura interior, no papel que me cabe como cidadã deste país, coloquei o marcador (que realmente marca a dor) naquela página e, fechando o livro, fui até as barras fazer os exercícios costumeiros.

 

 Mas o semblante de Mandela não me abandonava.

Seu sorriso persistia diante de meus olhos, aquele sorriso cristalino do homem que nunca corrompeu o ideal do seu partido, nunca teve dois pesos e duas medidas perante seus pares e principalmente diante de seu povo e, por isso, quase perdeu a vida em uma forca.

Um homem que diz que “a coragem não é a ausência de medo; é aprender a superá-lo”.

 

Encontro em outra de suas colocações, um homem que nunca disse sim querendo dizer não. “Se você está demorando ou evitando dizer “não” porque é desagradável, melhor dizê-lo na hora e claramente. Você evitará vários problemas a longo prazo”.

 

Um homem verdadeiro, porque digno.

“Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião.

Para odiar, as pessoas precisam aprender; e, se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar.”

 

Um revolucionário.

“Unam-se! Mobilizem-se! Lutem! Entre a bigorna que é a ação da massa unida e o martelo que é a luta armada devemos esmagar o apartheid!”

 

Desejamos ter heróis, mas verdadeiros, existem muito poucos.

 Ainda.

 

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Presença

Daqui te vejo.

Embora tua figura pareça estática porque esquadrinhada pela moldura, teus olhos não sorriem mas são penetrantes, profundos.

Intensos.

E mesmo estando a alguns metros de mim, sinto que me perturbam.

Embora estejas sério, diria até que meio apreensivo, teu semblante é sereno, teus olhos são ternos.

E por tanta doçura, todas as manhãs passei a praticar um pequeno ritual, simples porém mágico: tiro o pó do  quadro, vagarosamente a te contemplar,porque fazendo assim  tenho a sensação de que estou  acariciando-te e a tudo que representas em mim…

À noite beijo-te,  com o desejo de que possas fugir desse quadro para invadir algum sonho meu.

 

 

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Palavras que o vento traz com as folhas de outono

incessantes

 

Sussurram invernos em meus cabelos

e saudades de acenos

que lamentam lembranças

 

Contam segredos de silêncios

de abraços inacabados

de beijos invisíveis

 

Cravam lágrimas no olhar

que se atira distante

como pedra no lago

 

Vibram na água do tempo

como carícias

depois submergem

e se esquecem

 murmúrios…

 

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 “Mas mais triste que a demora é saber que não vens mais…”

 

E por não haver mais como contar da tua ternura, desespero-me como a tarde desespera-se em perder o sol para a noite.

Sinto-me louca, inútil e invisível.

Mãos vazias, olhos opacos, lágrimas em vão.

Permaneço assim por horas, por dias, por tanto tempo, sem coragem de perguntar o porquê ao meu coração.

Temo que, em um sobressalto, ele pare de uma vez.

Temor infundado porque, pensando bem, qual seria a diferença…

Procuro no escuro de mim alguma luz que me reste, que me faça buscar, mesmo que na face fria do espelho onde me escondo, um carinho que console e faça adormecer minha alma, como se criança fosse.

Mas tudo o que escuto são soluços profundos e longos como abismos.

Já é noite alta e meu corpo continua lá, caído no meio da sala; não mais espera teus olhos de ternura, aquele olhar molhado e profundo, olhando para os meus.

 

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Lei nº 3.353  de 13 de Maio de 1888

Declara extinta a escravidão no Brasil

Brasil sem escravos

O que machuca mais, o chicote de um feitor ou a instituição de cotas nas universidades, senão de outra forma os negros nunca conseguiriam, em pleno século XXI, cursar um nível superior.

O que é que faz mal, comer angu (componente da lavagem de porcos) ou consumir drogas, descriminalizadas ou não.

O que é mais desconfortável, dormir no chão duro e frio, correndo o risco de pegar pneumonia e até morrer ou deitar à sombra dos corruptos poderosos defendendo somente o seu.

 

Brasil sem escravos

O que pensar dos que se intitulam deuses, esses que querem invadir os lares vomitando (perdão da palavra) regras de bem educar os filhos, se não conseguem sequer levar a julgamento crimes passionais hediondos, fazendo valer a justiça.

Uma dúvida: a lei da palmada vale para os que consomem drogas em casa?

 

Brasil sem escravos

Onde a imprensa vive ameaçada por um cala a boca dos demagogos que se dizem democráticos, livres pensadores.

 

Se alguém souber, por favor me diga aonde fica esse Brasil que zela pela  liberdade dos negros, dos homens honestos,das mulheres,dos  trabalhadores identificados e valorizados por seus trabalhos e não simplesmente por sigla partidária.

 Onde fica esse tal de Brasil liberto, esse reino encantado onde é possível se sair a pé ou de vidros do carro abaixados, a qualquer hora do dia ou da noite, sem risco algum de ser assaltado, baleado e morto?

Onde fica esse país que não aprisiona seus cidadãos em seus próprios lares, onde ninguém é espancado e queimado nas ruas mal iluminadas e sem policiamento, em completo abandono?

 

E tantas outras indagações que poderiam figurar neste texto…

 

Estendendo a extinção da escravidão ao âmbito mundial, vivo me questionando em que momento a humanidade perdeu sua liberdade, no sentido mais elevado de sua expressão, ceifando o rumo da sua própria história; em que século, em que milênio.

Em que momento perdeu sua excelência, tornando-se um anjo caído a querer resolver tudo na ponta de uma lança de fogo?

Será que foi na purificação da raça ariana executada por Hitler e seus pares?

Será que foi no dia 13 de maio de 1981 quando o papa João Paulo II comemorava a visão de Nossa Senhora pelos três pastorinhos na Cova da Iria, perto de Fátima-Portugal (13 de maio de 1917) e sofreu aquele atentado na Praça de São Pedro, no Vaticano?

Será que foi no momento em que prenderam e torturaram Mandela?

Será que foi no momento em que detonaram as torres gêmeas?

Ou será que nós humanos, ditos racionais, sucumbimos lá bem atrás e estamos apenas brincando de sobreviventes quando, na dura e fria verdade, estamos mais enterrados e apodrecidos do que fósseis pré-históricos?

Apesar do documento ilustrativo acima ser a prova cabal da sanção da abolição no Brasil, prefiro não comemorar nada, ou melhor, não há razão para esta comemoração.

Como um náufrago querendo  apoiar-se em alguma tábua para não sucumbir, guardo como lembrança nesta data apenas o nascimento do poeta Raimundo Corrêa, nada mais.

Prefiro ignorar o resto, porque esse país que se mostra agrilhoado a mazelas e perversidades morais não é o país que eu amo; esse que se vê está moldado em uma máscara de horror, fazendo com que sua imagem seja a de um pobre, mesquinho, mentiroso, vil e escravo Brasil.

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“Já demos um ao outro tantos sinais de ternura…”

                                                   Eurípedes (Medeia)

E por não haver mais o que fazer

decidi arrancá-lo para sempre

de dentro de mim

 

Prendi a respiração

mas você resistiu

 

Pulei do penhasco

mas você me amparou

 

Tomei veneno

mas você me depurou

 

Cortei os pulsos

mas você a vida me estancou

 

E me fez lembrar

entre um carinho e outro

que nada, absolutamente nada

é definitivo

 

 

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Um dia, depois da chuva, encontrei você no meu jardim.

A princípio olhamo-nos desconfiados, você com medo de mim, eu com medo de você.

Fiz menção em me aproximar e você recuou.

Eu tinha certeza que a qualquer momento você pularia em mim.

Por isso, entrei correndo para dentro de casa.

Fiquei espiando você da janela, atrás do vidro.

Você, imóvel, só me olhava com aqueles olhos de jabuticaba.

Tomei coragem e voltei para o jardim.

Desta vez você não se afastou.

Abaixei-me e continuamos a nos olhar.

Abaixei-me ainda mais e coloquei minha mão esquerda estendida à sua frente, com a palma para cima, para mostrar-lhe que não trazia nada que pudesse feri-lo.

E você entendeu que eu estava completamente desarmada.

Então você pulou na minha mão e eu pude trazê-lo bem perto do meu rosto.

Mostrando que na outra mão também não havia nada de ameaçador, ousei um carinho.

E você gostou.

Olhei para um lado, olhei para outro.

Ninguém à vista.

Dei-lhe um beijo.

Não foi tão rápido, mas também não muito molhado.

Foi um toque sutil, um toque que traz memória.

Você continuou sapo.

Eu continuei menina.

E hoje somos o que somos.

Até aprendi a coaxar.

 

 

Fiz esta redação escolar aos 14 anos de idade, deixando as freiras do colégio preocupadas, ao mesmo tempo que surpresas.

Relendo-a constato que já àquela época sentia-me desiludida por não encontrar o príncipe dos meus devaneios.

Depois de tanto tempo ele deve ter passado pelo meu caminho, mas não pelos meus olhos porque, com receio de me despertar, seguiu para as suas lutas e conquistas.

Talvez tenha preferido permanecer apenas como um sonho em minha vida.

Se alguém encontrá-lo diga-lhe que continuo completamente desarmada e ainda adormecida, esperando por um beijo doce e demorado.

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