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Archive for junho \30\UTC 2011

I

 

 

Não quero dormir

porque não sei

se

quando

inconsciente

deixo de te amar

 

 

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Naquela tarde de outono Sofia resolveu escrever uma carta de amor para ninguém.

Escolheu um envelope de cor suave.

Fechou-o com um decalque, uma pequena borboleta azul.

Saiu à rua segurando-a nas pontas dos dedos e, num descuido proposital, soltou-a a revelia do vento que começava a soprar.

Quando a ouviu bater no chão sentiu sua alma angustiada, mas também sentiu  esperanças.

Correu para casa, postou-se à janela para observar se alguém a recolhia.

Sofia viu sua carta de amor voar de lá para cá, sujar-se, molhar-se.

Aquela dor lancinante no peito persistia enquanto passantes desatentos a pisavam, rasgando-a, tornando-a pedaços de papel a rolar pela rua.

Sua carta de amor reduzida, cruel verdade, a palavras dilaceradas.

Mas não desistiu.

Na tarde seguinte, ainda outono, Sofia reescreveu sua carta de amor para ninguém.

Na mesma cor suave, fechou o envelope com um decalque, desta vez um delicado e pequeno girassol.

E novamente soltou-a na rua e voltou à janela mais uma vez.

A noite veio, fria, enevoada.

Sua carta, silenciosa.

O dia chegou aos raios de um sol tímido, branco.

A carta, em aflita solidão, ali permanecia.

Sofia, na janela, a confirmar sua desesperança.

Foi quando ele surgiu.

Vinha cabisbaixo, triste, falando sozinho ou cantando, não sei.

Parou de repente e, com um brilho diferente no olhar, ficou por um tempo estagnado como se houvesse encontrado um tesouro.

Com o envelope a brincar entre os dedos, meio surpreso, meio intrigado, sentou-se no meio fio da calçada, abriu-o e leu, primeiro de um fôlego só e depois lentamente, aquela carta de amor.

E chorou.

Chorou por um tempo sem fim, sem que algum passante se importasse com seus soluços e seus gestos tardios.

Ainda com os olhos marejados, tirou um lápis de cor de seu bolso esquerdo e escreveu alguma coisa no envelope, junto ao girassol.

E se foi.

Com a carta de amor em seu bolso, junto ao coração e a outros lápis que costumava carregar sem saber ao certo porquê.

Sofia desceu em desabalada carreira pelas escadas, pegou o envelope do chão, leu-o e, com o coração a sair-lhe pela boca, procurou-o com os olhos em meio à multidão.

Mas ele já havia sumido, com a mesma maestria com que havia aparecido.

O certo é que depois daquela tarde Sofia nunca mais conseguiu permitir a entrada de outro em seu coração.

Tentou, mas aquele momento foi profundo e mágico, foi mais forte que sua simples vontade de querer outro alguém.

Muitos outonos passaram.

Outro inverno chegou.

E o envelope continua, com aquela caligrafia firme e terna, guardado em sua caixa de lembranças, adormecido em seu coração.

Para sempre.

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“Quando eu morrer… se pusessem uma lápide no lugar onde ficarei, poderia ser algo assim: “Aqui jaz, indignado, fulano de tal”. Indignado, claro, por duas razões: a primeira, por já não estar vivo, o que é um motivo bastante forte para indignar-se; e a segunda, mais séria, indignado por ter entrado num mundo injusto e ter saído de um mundo injusto.”  

                                                                            José Saramago

 

 

Nestes dias em que permaneci em completa incapacidade física, o que me restou de prazeroso, além de pouco me alimentar e muito repousar, foi ler bastante.

É verdade que dormi muitas vezes no meio das leituras, com palavras embalando minha alma em devaneios e só acordava quando o livro me caia das mãos.

Consigo ver o lado bom dessa quase inércia física, além da minha total vulnerabilidade; é que a febre traz consigo a alucinação e assim, meus pensamentos se apossam de meus sentidos; é quando me entrego toda aos sonhos mais impossíveis, aos desejos mais incontroláveis, a presenças eternamente invisíveis, a esperanças que se foram a cada final de estação.

Mas essa é outra história.

 

Nos meus momentos de lucidez, comecei a reler José Saramago e lembrei-me da data em que se foi para outras esferas, onde por certo continua com sua obra mágica, magnífica e instigante.

Sempre.

Deixo aqui a minha mais profunda saudade e uma pequena homenagem ainda que tardia.

Fui à minha micro-biblioteca e aleatoriamente peguei um livro dele, ou melhor, caiu-me às mãos o livro “As Palavras de Saramago” organizado e selecionado por Fernando Gómez Aguilera.

Lembrei-me do pensamento de Harold Bloom, crítico norte-americano, que diz  que “Saramago é um dos últimos titãs de um gênero literário que se está a desvanecer”.

Serve-me de consolo que, como a alma, as palavras também são eternas.

Efêmero é o corpo físico, mas a reflexão através de sábias palavras fortifica ainda mais o espírito, a mente, o caráter; diga-se de passagem, caráter este raro num tempo em que todas as virtudes morais estão, estas sim, se desvanecendo.

Sempre atento às injustiças da era moderna, vigilante das mais diversas causas sociais, Saramago não se cansava de investir, usando a arma que lhe coube usar: a palavra.

Gostaria de comentar uma citação que penso cair como luva à nossa realidade, neste exato ponto a que chegaram a dignidade e o respeito exercidos neste país de nome Brasil.

Na realidade, não quero comentar; as palavras falam por si mesmas.

Quero sim, convidar você para um reencontro com a inteligência e discernimento desse valiosíssimo ser humano e escritor, muitas vezes e por muitos, tão mal interpretado.

E mesmo que muitos continuem rezando o contrário, isso já não tem a menor relevância, porque a reflexão nos mostra como seus pensamentos continuam sendo atuais, vivos, verdadeiros, dignos e eternos.

Quisera poder dizer que o trecho que cito sirva apenas para este momento ruim pelo qual estamos passando, mas infelizmente ele se estende a perder de vista, de mãos dadas com nossos desencantos.

 

“Quando nós dizemos o bem, ou o mal… há uma série de pequenos satélites desses grandes planetas, e que são a pequena bondade, a pequena maldade, a pequena inveja, a pequena dedicação… No fundo é disso que se faz a vida das pessoas, ou seja, de fraquezas, de debilidades… Por outro lado, para as pessoas para quem isto tem alguma importância, é importante ter como regra fundamental de vida não fazer mal a outrem. A partir do momento em que tenhamos a preocupação de respeitar essa simples regra de convivência humana, não vale a pena perdermo-nos em grandes filosofias sobre o bem e sobre o mal. “Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti” parece um ponto de vista egoísta, mas é o único do gênero por onde se chega não ao egoísmo, mas à relação humana.

Sustento que, quando descobrirmos o outro, nesse mesmo instante descobrimos a nós mesmos, algumas vezes no melhor, outras no pior, quando tentamos dominá-lo. Se chegarmos a uma relação com o outro em que a condição principal seja respeitar suas diferenças e não tentar sufocá-las para fazê-lo como a gente, então aparecerá em nós o positivo. Todos têm o direito a um lugar na Terra, não há motivo para que eu, pelo fato de ser branco, católico, louro, índio, negro, amarelo, seja superior. Não podemos nos dar ao luxo de ignorar que o respeito humano é a primeira condição de “convivialidade”.

Cada vez se torna mais claro, para mim, que a ética deve dominar a razão.

Se a ética não governar a razão, a razão desprezará a ética.”

 

 

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Beu Abor

Acordei pensando em você, cobo acontece em todas as banhãs.

E, diferente dos outros dias, não be levantei ibediatabente.

Fiquei quietinha sentindo o calor das cobertas, lembrando das possibilidades de cobeborarmos o Dia dos Daborados, como conversabos ontem.

Brimeiro você falou em alboçarmos com sua bãe, bas ela resolveu fazer um basseio de barco em Barra Bonita com beu irbão.

Então bensei em irbos dar uma volta no parque, tobar um pouco de sol, deitar na graba, observar as forbigas e as borboletas e, quem sabe, até tobar um sorvete.

Bor causa do frio, achei belhor irbos bara um cinema borque, se o filbe for chato, até poderíabos daborar mais um bouquinho.

 

Bas, pensando belhor, achei que deveríabos tobar um lanche e debois dorbirbos um pouco, porque estabos cobeborando desde ontem à noite e, belo menos eu, estou bastante cansada.

Acho que ontem fizebos um bouco de extravagância depois que jantabos naquele quiosque na braia e caíbos na água, nós e toda a nossa turba.

Também todo bundo tinha tobado buito uísque, cerveja e caibirinha e ainda resolvebos tobar um banho de bar, besbo porque o bar estava bastante calbo.

 

E não é que fiquei gribada?

Beu nariz está completabente entubido e beus olhos estão combletamente verbelhos,  escorrendo lágribas.

Então, beu abor, pensei em telefonar bara você, bas nem consigo falar direito; binha garganta está doendo.

Bor isso estou bandando este e-bail bara pedir desculpas bara você e também bara combinarbos outro dia bara terbinar a nossa cobeboração; afinal de contas nos conhecebos nessa data, não é aborzinho?

Dão fique triste e nem aborrecido cobigo; sei que vou sarar rabidinho.

Vou bensar em você o dia inteirinho e à noite já vou estar bem belhor; se quiser vir be ver à noite, bode vir, tá?

Sonha cobigo, abor.

Beijos, te abo buito, buito besbo!

Da sua sempre,

Bargarida

 

Amo a criança que me habita.

Quando me chama para brincar deixo tudo de lado e corro ao seu encontro; principalmente quando a vida me oferece tantos motivos para silenciar.

 

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Por puro desespero e solidão, pintou-se cuidadosamente, mas sem prestar muita atenção à sua máscara refletida no espelho.

Colocou uma rosa de tecido já meio desbotado nos cabelos, a saia mais justa e mais curta que nunca parava dependurada em seu guarda roupa, um sapato extravagante, uma bolsa, um batom.

E entregou-se a outros homens.

Permitiu outras mãos que não as dele, ouviu sussurros e indecências, mas que de uma certa forma faziam-na sentir-se viva.

Paciente esperava a satisfação alheia, nunca a sua, e ria de todos ao sentir-se desejada sem nada oferecer.

Beijaram-na, abusaram-na e só quando foi abandonada em algum travesseiro frio é que voltou a pensar naquele que sempre amou.

Suas lágrimas de vidro brotaram sem soluços e mais uma vez rasgaram-lhe os olhos, retalharam-lhe o rosto, corroeram-lhe a  alma.

Não se sentia no direito de fazê-lo enxergar sua terna existência, que invisível era diante de tantos desencontros.

E ele, inteligente, profundo, sensível, brilhava até mesmo quando o tempo fechava-se em tempestades.

E não conseguindo alcançá-lo, deixava-se alcançar.

Até que eles a matassem lentamente.

De uma vez.

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Ao Luar

 

 

Um dia um anjo levou-me a conhecer a lua.

Não pude esboçar uma palavra sequer; aquela luz branca como leite e luminosa como um sorriso roubou-me a fala.

Em êxtase, meus olhos queriam ver tudo de uma só vez.

De uma só vez todos os meus sentidos explodiram em luz.

Depois o anjo trouxe-me de volta, depositou-me na grama orvalhada de meus sonhos.

Ainda ouço seu sussurro e sinto seu terno toque antes de partir.

Desde então só faço escrever, tentando transcrever o encantamento que me foi revelado ao luar.

 

 

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Final de tarde.

Sol de outono.

Escuto músicas do passado tão presentes na minha pele.

É como se o teu olhar ainda pairasse no ar, diante do meu olhar, embora não saibas que já me olhou dessa maneira…

Mergulhando no invisível, toco teu rosto.

Como a retribuir o carinho, de uma forma doce sinto tua boca a beijar minha boca, embora também não saibas que um dia me beijou assim…

Não sabes tantas coisas que sonho…

E as palavras da canção vão entrando por meus poros, meus nervos e nos sonhos que só acontecem em mim.

E vou me lembrando de como eu era quando a ouvia há tempos atrás.

O que mudou, pergunto a mim.

Mudaram algumas marcas no rosto, alguns sinais onde havia um riso largo na boca, mudou a intensidade da luz que ainda me habita.

Mas os sentimentos são os mesmos.

E o inatingível continua sendo atingido apenas em sonho.

A canção te trouxe mais uma vez em suas asas de sons e, sentindo-o tão presente, é necessário que eu me tranque em meus sonhos para te sentir mais perto, bem perto, bem mais perto, para ouvir tua respiração, sentir teu calor, habitar o teu silêncio.

Quando acordo já é noite.

Está frio, preciso entrar.

Mas… como preciso entrar se até agora estava caminhando dentro de mim mesma?

E Joanna canta “aonde foi que eu perdi o teu sorriso e trouxe pros meus dias a saudade… o que será que posso mas não faço e deixo me morrer em agonia…” 

Em um derradeiro aceno, olho para as poucas estrelas visíveis no céu e confio um segredo ao meu coração: os sentimentos ainda são os mesmos.

Amo-te!

 

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