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Archive for julho \22\UTC 2011

Adeus

 

Mas mesmo assim, encontrei-o escondido atrás das árvores.

Quando me viu através do espelho d’água, pelo mesmo espelho vi que se escondia mais e mais, na ilusão de que eu não o notasse.

Continuei lavando minhas mãos, olhos baixos, contrita, pensando que atitude tomar.

Passei levemente a mão na superfície das águas como uma libélula a matar sua sede, rio onde tantas e tantas vezes  juntos nadamos, desfazendo momentaneamente aquele espelho que se apresentara tão nítido.

Enxuguei-as lentamente naquele tecido amarelo e macio como pétalas de girassol, dedo por dedo, as duas mãos.

Quando não tinha mais como prolongar aquele instante, fui levantando os olhos da forma mais singela e delicada que eu poderia lhe dedicar   e, sem me virar, através do espelho já estático no tempo, lhe sorri.

Apesar de estar levemente trêmulo, levemente assustado, olhou-me fixamente, com decisão nos olhos e silêncios nos gestos.

Ficou paralisado, logo percebi sua infinita aflição.

Sentei-me no chão, a seus pés, ali mesmo na terra, no exato tempo em que ele, de súbito, também se sentou e nos abraçamos com profundo carinho, demoradamente, como se último fosse.

Depois tomou-me as mãos em suas mãos, olhando-me na alma como nunca fizera.

Inesperadamente, entre soluços contou-me com que frequência tem se escondido do tempo e das coisas perversas dos homens.

E temendo que eu também causasse algum mal maior pediu, quase que num sussurro inaudível,  para que eu me afastasse para sempre da sua vida.

Beijando-lhe as mãos, os olhos, a boca, aconchegando-o em meu peito para que sentisse o calor da vida a pulsar, pensei que poderia, sim, ter razão, que mais tarde eu o magoaria de alguma forma, em alguma atitude e, o pior, com alguma palavra afiada como cacos de vidro amanhecidos.

Mesmo assim persisti, insisti, tentando mostrar-lhe que, se necessário, poderia permanecer em silêncio ao seu lado, permanência invisível, compartilhando com ele apenas a minha alma por vezes embargada de emoção, quando seus olhos estivessem mergulhados no orvalho denso da madrugada.

Mostrei-lhe também que poderíamos, juntos, aprender a sorrir novamente, como sorriem as árvores quando a brisa as visita no final da tarde.

Ele permitiu então que eu permanecesse por mais algum tempo em sua vida.

Apenas por mais algum tempo.

Nada mais que um tempo.

 

 

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Marcamos um encontro, apesar da nevasca.

Cheguei primeiro ao moinho.

O ambiente pareceu-me frio e abandonado.

A mó, inerte, tecida com teias de aranha, mais parecia uma mesa vazia.

Fiquei com vontade de girá-la, um pouco que fosse, só para ouvir o som da eternidade.

Fiquei tentada também em movê-la ao contrário; quem sabe, assim, eu me encontrasse com você, novamente no tempo em que sabíamos sorrir.

Subi ao palheiro e atirei-me naquela cama natural, querendo que ali você já estivesse, para sonharmos em voz alta algum momento de nossa infância.

Sozinha contemplei aquelas vigas de carvalho sustentando todo o moinho, vigas pelas quais o tempo apenas passa e que perdurarão quando muitas coisas já não mais existirem.

A idéia assustou-me, fazendo-me descer rápido do palheiro, para subir por uma escada lateral que eu não sabia aonde iria dar.

No último degrau vislumbrei um quarto em penumbra, quase vazio, mas com cortinas na janela e um breve perfume no ar.

Resolvi não adentrá-lo porque a sensação de deixar algo para ser desvendado mais tarde me agradava, sugerindo descobertas, talvez surpresas, quem sabe confirmações.

Retardei então o instante.

Deixei-o pairando no ar, como uma pena alvíssima que nunca atingiria o solo.

Somente quando se tornasse um momento real e  você estivesse presente e eu me sentisse segura por isso.

A lareira, agora inativa, ocupada por entulhos que outrora foram objetos úteis ou valiosos para alguém.

Faltava o calor da madeira a crepitar suas labaredas, até que se tornasse brasa coberta por cinzas, tal como um espelho meu.

O vento gélido e forte me abraçou e os flocos de neve, centenas, acarinharam meu rosto, meus cabelos, minhas mãos.

Alguns colaram-se em meu casaco de lã e em minhas botas pesadas, pegadas que testemunharam minha presença.

Enrolei-me melhor no xale verde que emoldurava uma possível e ainda esperança em meus olhos e tomei o rumo da estrada.

 

Até hoje continuo procurando o caminho.

O caminho que me leve à sua alma, para que eu possa parar um pouco, tomar fôlego e água, respirar o ar que me falta e me debruçar na centelha de luz do seu olhar.

E caso você não me queira mesmo, ave de voo tardio que sou mesmo em meio a temporais, poder continuar ou regressar.

Ao moinho.

À espera da primavera.

 

 

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Tudo que vejo à distância parece-me bonito.

Mágico.

Como agora.

Vejo o dia findar nesse tempo marcado por relógios silenciosos.

O sol a despedir-se deste lado do planeta, o das pessoas que não se acham mais, deixa no espaço seu rastro rosa, suave de início, mais forte à medida que se esconde atrás de meus olhos.

E a cidade aos poucos vai se iluminando como se fosse uma imensa árvore de estrelas, como se uma porção delas tivesse caído do céu de uma só vez.

Uma torre se acende, como um indicador divino apontando para coisas do tempo que ainda não sou capaz de enxergar.

Os holofotes do helicóptero que voa sua urgência parecem-me anjos de luz a procurar pelo espaço anjos perdidos.

Entrego-me às sensações, ao perfume que a noite vem trazendo na ponta de seus dedos, distribuindo-o entre as flores do meu pequeno jardim.

Em cada estrela dessa imensa árvore, por trás de cada luz existe pelo menos uma vida, diz meu coração num pulsar esperançoso.

Quem sabe um sonho.

Quem sabe uma brincadeira de criança.

Quem sabe um sono de sonhos.

Quem sabe o aconchego de um abraço.

Quem sabe um doce e ardente beijo.

Quem sabe um poema de amor.

Quem sabe alguém que desesperadamente acredite como eu que, apesar de tantos desatinos irracionais disseminados milimetricamente entre seres racionais,  ainda haja uma chance para recomeçar.

Como o sol que amanhecerá.

Ele sempre retorna.

Somos nós que em dias amargos não conseguimos enxergá-lo, mas ele está lá, sempre estará.

Majestoso e vivo!

 

Quando o devaneio devolve-me à Terra, a noite já se mostra profunda e estranhamente quieta.

Vejo então, acima de minha cabeça, uma lua linda a me sorrir, invadindo e acalentando  esta minha alma.

Cheia e luminosa.

Mágica!

Como agora.

 

 

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Fui visitar minha amiga Donata e logo que saí do elevador senti aquele cheirinho gostoso de amendoim recém torrado.

Conversamos um pouco e quando saí o cheiro estava mais acentuado ainda.

Vim andando pela rua, ou melhor, meu corpo veio caminhando porque a mente estava lá atrás, em um momento da minha infância, quando eu deveria ter, não sei ao certo, uns oito, nove anos.

Mamãe assava amendoins no forno para fazer alguma guloseima, quando entrei intempestiva pela cozinha, Mamãe, mamãe, quero dois amendoins, Mas para quê, minha filha? Para comer, mamãe!

Como mamãe estava atarefada com outras coisas, pegou uma porção deles e colocou na minha mão, Só quero dois, mamãe, e saí correndo, deixando o restante em cima da mesa.

Como já havia planejado, fui ao lugar mais isolado da casa naquele horário, a sala de visitas.

Fechando a porta de mansinho, sentei-me no cantinho do sofá, tirei as casquinhas dos amendoins e… pronto! estavam prontos para a minha experiência.

Peguei um, o menor, enfiei na narina esquerda e disse em voz alta, não muito alta, Anotar no caderno a conclusão da 1ª fase do teste: ainda consigo respirar.

Peguei o outro amendoim e o enfiei na narina direita, ordenando a mim, mas mentalmente, com medo de ser ouvida, Anotar no caderno a conclusão da 2ª fase: ainda consigo respirar, mesmo quando estou de boca fechada.

E, satisfeita, ordenei para mim finalmente, Anotar última fase: 100%de sucesso na experiência!

Agora era só tirar os amendoins, jogá-los fora, anotar as informações, guardar meu caderno de experiências e contar a todos o resultado da minha curiosidade.

Foi aí que o desastre aconteceu: os amendoins, lisinhos, subiram narinas acima quando, acho eu, respirei um pouco mais profundo.

Tentei puxá-los.

Enterraram-se mais.

Saí correndo e chorando, Mamãe, enfiei dois amendoins no nariz e não consigo respirar! Tire para mim, por favor!

Mamãe, aflita, tentou tirá-los, mas os danadinhos entraram ainda mais.

Trocou minha roupa, trocou-se, ligou para meu pai e para meu padrinho e fomos parar, todos, no hospital.

Lembro-me do médico indagando meu pai, Por que essa menina, com essa feição de anjo, resolveu fazer isso? Ninguém viu?

Já liberta dos amendoins, contei a ele da minha experiência.

Fiquei brava por ele querer culpar meus pais e acrescentei ingenuamente que Embora eu esteja ainda bastante assustada, quero chegar logo em casa para anotar tudo no meu caderno. Doutor, como é mesmo o seu nome?

No meu íntimo estava contente em ter podido satisfazer minha curiosidade.

No dia seguinte, quando mamãe dava orientações à cozinheira que escolhia feijão, entrei toda alegrinha, Lurdes, posso pegar dois feijões?

Mamãe, suspendendo a respiração, olhou-me incrédula.

Mas sentiu um grande alívio quando dei uma gostosa risada, contente com a nova brincadeira que havia inventado, ou seja, tudo que eu pedisse a alguém, seria sempre apenas dois.

Gostava de observar a reação das pessoas quando eram pegas desprevenidamente.

Foi sorrindo daquela lembrança, que coloquei a chave na fechadura de minha porta.

E aí fui eu quem teve uma reação assustadora porque não me lembrava de ter atravessado a rua, entrado no prédio, apertado o botão do elevador, saído no corredor…

Meu anjo já me alertou para eu não sonhar em trânsito e agora só me resta pedir que me perdoe pelo trabalho que devo ter dado, e também recomendar à você que me lê, Não sonhe em trânsito, mesmo e principalmente se você for um adulto criança como eu.

 

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