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Archive for agosto \31\UTC 2011

Estações

 

Por que no outono

meu coração dói mais

mais que no inverno

quando morre

em busca de uma primavera

que um dia

não acontecerá

 

 

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Havia na cidade um homem muito rico mas muito estranho, meio homem, meio lobisomem, o que obrigava os pais de família trancarem suas filhas em casa depois das dez horas, horário este em que  Lobi (como era carinhosamente chamado) aproveitava-se da situação da maioria dos habitantes estarem entretidos diante da televisão, assistindo à novela.

Diga-se de passagem, também trancafiavam seus filhos, pois se assim não fosse, quando as meninas crescessem não teriam com quem se casar.

 

Pois foi que um dia o Lobi morreu.

E como era um personagem muito conhecido na cidade (até demais por algumas raparigas fugidias), sua mulher resolveu fazer um pomposo funeral, contratando músicos, encomendando flores, bebidas e comidinhas que agradassem a todo paladar.

Em um determinado horário, já noite, quando havia menos convivas no local, aconteceu, de repente, do Lobi dar uma tremenda espreguiçada com os braços ao léu e, mal se ajeitando no estreito caixão, virou-se para o lado direito, colocando as mãos debaixo do pequeno travesseiro que lhe sustentava a cabeça.

E dormiu.

Dormiu?

Vá lá, morreu novamente.

Novamente?

 

Foi um alarde geral!

A notícia correu de porta em porta e todos voltaram ao velório.

Houve até aqueles que, de tanta curiosidade, nem a roupa de dormir trocaram.

Foi necessária a formação de uma fila (que se perdia de vista) e até de cordão de isolamento, para que não se aproximassem tanto.

E Lobi lá, mortinho da silva!

 

A uma certa altura da madrugada, as pessoas (fora os familiares, parentes e os amigos mais chegados) desanimaram-se de tal forma que foram voltando para suas casas, decepcionadas por não terem visto qualquer coisa que fosse, mas que fosse inusitada.

Alguns até acharam que era mentira, que a notícia se espalhara apenas para que Lobi, da onde estivesse, visse aquela multidão e pensasse que era muito querido, à parte do que fizera em vida.

 

Logo que o sol surgiu, foi servido um vasto café da manhã para os presentes, por um bufett contratado na véspera, lá da capital.

As pessoas ali estavam sorvendo um cheiroso café, trocando impressões sobre a vida tão conturbada que fora a do Lobi, além do ocorrido na noite anterior.

Mas como ele continuasse sendo o prefeito da cidade (até que o enterrassem), os comentários eram feitos com uma certa reserva, ou seja, não falavam tudo o que pensavam.

 

Foi então que todos ouviram um sonoro e longo… pum, que mais parecia o lamento de um trompete triste e desafinado.

Espantados e incrédulos, os presentes entreolharam-se, imaginando quem fora capaz de tal flatulência.

Passados alguns suspensos segundos, todos dirigiram seus olhares para o caixão e disseram em uníssono, Foi o Lobi!!!

O médico logo se prontificou a esclarecer que Isso é normal acontecer, minha gente; o corpo, mesmo inerte, ainda apresenta algumas reações.

Ao que o vigário acrescentou, São os gases, meus filhos, que querem se libertar do corpo, tal como a alma!

Largaram de suas xícaras e brioches com geléias de pimenta, biscoitos com manteiguinha da fazenda, atropelando-se em correria, indo em direção ao Lobi.

Qual não foi a surpresa quando o viram de olhos abertos, com um meio sorriso sarcástico no canto esquerdo da boca e, com as mãos entrecruzadas, girando os polegares, um ao redor do outro;  ah! … outro detalhe, assoprava o veuzinho que lhe cobria o rosto, pois este irritava-o muito, muito mesmo.

 

Ninguém sabia o que fazer…

A primeira dama chegou perto, bem perto e disse baixinho, com a vóz entrecortada, Lobi… você está bem?… Está com fome?… quer uma xícara de café? foi passado agorinha! Lobi… fala alguma coisa, fala com a sua… vampirinha.

 

Foi a conta!

Todo aquele alvoroço começou novamente, além da cidade inteira passar a saber que, entre  quatro paredes, Lobi chamava a senhora sua esposa de… Vampirinha!

Precisaram reforçar a guarda municipal e os cordões de isolamento.

Eis que no exato momento em que o salão foi aberto à visitação pública, Lobi parou de assoprar o veuzinho, de rodopiar seus polegares e…fechou os olhos, voltando à fisionomia anterior.

Ficou ali quietinho, mortinho!

 

Desta vez, muitas pessoas não arredaram o pé de lá, ou melhor, o presidente da câmara dos vereadores organizou um revezamento (4 por 4) para, a qualquer momento, darem a assistência devida ao Lobi.

Vai que ele acordasse de vez e não encontrasse ninguém ali; na certa morreria de tristeza…

Mas as pessoas foram escolhidas a dedo para que, no término de seus devidos turnos, não saíssem pela cidade inventando “causos” por puro sensacionalismo.

Por conta desses acorda-dorme, dorme-acorda, a vampirinha (desculpem-me), a 1ª dama não queria marcar um horário, muito menos um dia para sepultar o marido.

 

Dias se passaram.

Os vereadores da cidade não podiam trabalhar, porque o velório acontecia justamente no recinto da câmara onde se reuniam para discutir os problemas e dificuldades da cidade.

De mais a mais, não podiam fazer eleição para novo prefeito por três grandes motivos: um já sabemos, o de que o morto ainda estava entre os vivos (e ele não cheira mal, não é? dizia um cego que por ali passava); outro, que o vice-prefeito escafedeu-se, com medo de receber junto com o cargo, a herança mental e moral do Lobi e, terceiro, o povo não dava a mínima para os comícios, propagandas e promessas e tudo o mais que se fazia necessário para ganhar seus votos.

Chegaram até a marcar uma data para a eleição, mas no dia ninguém compareceu, nem a mãe do candidato.

 

A escala de revezamento continuava e sortudo daquele que estivesse presente durante alguma manifestação do Lobi; teria histórias para contar para os filhos, netos e bisnetos, sim, porque com a morte do Lobi, as moças puderam passear, namorar, casar e ter filhos (algumas de forma meio rápida até).

 

E a vigília transcorreu por muito tempo, sem muitos contratempos.

Ora ouviam uma tosse; de outras, outro pum, agora com características de um saxofone ou de uma tuba; às vezes o veuzinho voando para cima e para baixo, uma vela que se apagava com um sopro (do Lobi, claro!)

E a conta da floricultura já estava enorme, mas seria paga com o orçamento da prefeitura.

E por falar em flor, às vezes uma florzinha saltava do caixão e quem estivesse de plantão, corria colocá-la de volta ao devido lugar, deparando-se algumas vezes com o Lobi de olhos abertos, Oi Lobi… você quer um cobertor nos pés?…quer que vire o travesseiro?…

 

E assim foi o velório do Lobi.

Ora acordado, ora dormindo.

Ora vivendo, ora morrendo.

Ad eternum.

 

 

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– Bom dia, amor!

diz baixinho, espreguiçando-se e sorrindo, mesmo que não haja sol, vente, chova e faça muito frio lá fora.

Às vezes falam-se por cartas, bilhetes, recados sutis; acostumaram-se a cuidar um do outro assim, à distância.

Às vezes encontram-se.

Raramente.

Quando acontece, ela quase não fala, tem medo de perder o pouco que tem.

Às vezes um breve aceno e separam-se suas vidas.

Seus medos, suas alegrias, suas angústias, seus sonhos em universos diversos.

Quando Esther se deita, seu último pensamento é somente para ele.

Com um sorriso, às vezes triste, a contagiar-lhe o semblante, sentindo o travesseiro sempre tão aconchegante, seus olhos vão se fechando lentamente, não antes de balbuciar

– Boa noite, amor!

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Simplesmente

 

Sufocava-me em vazios

Morria-me em pedras

Esforçava-me em dores

Mas me perdia em sonhos com um simples sorriso teu

 

 

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Saudade eterna.

Faz vinte e nove invernos que moramos em planos diferentes e meu coração por vezes se consola sentindo-o bem.

Guardo muitas lembranças que afloram na memória logo nas primeiras horas da manhã, em muitas manhãs, manhãs sempre mágicas porque desfilam á minha frente as pessoas que tanto amo.

E desfiando-as uma por uma, entre uma espreguiçada e um bocejo, revejo quase toda a minha vida feita de momentos felizes, outros difíceis e outros insuportáveis, pelas perdas prematuras, envolvidas em muito sofrimento.

Mas meu coração decide, neste instante, pelas lembranças da infância.

Sempre que a vida se mostra quase que insustentável, procuro reavivar a criança que, apesar de tudo, ainda me habita.

O balanço feito no quintal (caí de costas, lembra-se?), as frutas tão bem cuidadas do pomar, as jabuticabas ainda em flor (desce daí, menina! se as florzinhas caírem, não haverá o que saborear!), minha primeira valsa, meu primeiro acorde no violão, sua letra rebuscada na escrita de um poema, a implicância com os gatos mas que sempre os acariciava escondido, o conversar com as plantas, as histórias que arrepiavam nossos cabelos, sua voz embargada ao lembrar de seus pais, o amar a Natureza, o louvar a Deus.

Lembro-me também quando o senhor nos aparava as unhas com aquela faquinha especial, antes de irmos para o colégio e, quando voltávamos, apontando nossos lápis para que pudéssemos fazer nossas lições.

Naquela época eu gostava muito de matemática, mas já era incentivada pela professora de português a escrever cada vez mais e tudo que eu sentisse de importante, inclusive meus sonhos.

Não sei em que momento de minha vida passei a entendê-lo, senti-lo, conhecê-lo melhor, papai.

Sei que ainda era menina e, por saber conversar melhor com o senhor, meus irmãos quando queriam alguma coisa, pediam para que eu pedisse, por ter mais jeito no falar.

E por conta disso fui rotulada de “a filhinha do papai”.

Mas isso não me fazia sentir diferente deles e não me incomodava em nada porque, atendendo a meus irmãos, hoje tenho a lembrança de chegar de mansinho perto do senhor, Paapaiiii… Miiiau,  respondia o senhor, Por que “miau”, papai? Porque sempre que você vem pedir alguma coisa, você não fala, você mia!

Embora com medo de me enganar, penso que a mais doce e terna lembrança que tenho é de quando, ainda muito pequenos meus irmãos e eu, éramos embalados em seus braços, ouvindo suas canções de amor.

Um por um, nos embalava andando lentamente ao redor da mesa da sala de jantar, cantando músicas sentidas, verdadeiras poesias de um tempo em que ser romântico não envergonhava a ninguém.

E o senhor, meu pai, além de cantar tão afinado, era um verdadeiro poeta no seu interpretar, um poeta que via amor em tudo e, por isso, muitas vezes incompreendido e magoado.

Cada um que adormecia, o senhor colocava na cama e cobria de mansinho, apagando a luz.

Todas as noites.

Eu sempre pedia para ser a última, lembra-se?

Gostava de ouvir sua voz, de ver aquela expressão de ternura a se expandir em seu rosto e em seus olhos; aquele carinho manso, suave como a presença de um anjo.

Sentia-me tão segura em seus braços…

Então fechava os olhos e o senhor me levava para dormir.

Mas quando ia colocar-me na cama, eis que eu abria os olhos e esticando os bracinhos e sorrindo… Papai, ainda não dormi; cante mais um pouquinho para mim, só mais um pouquinho..

E o senhor não resistia ao meu pedido, não é?

Carregava-me novamente e novamente retomava seu cantar, suave, baixinho.

Por esta razão eu queria ser sempre a última.

Quantas lembranças de sua vida deveriam aflorar naqueles momentos… e quanta paciência e dedicação, depois de um dia talvez exaustivo de trabalho…

Lembrando-me de nossas travessuras, que foram muitas e bastante criativas, a sua forma rígida de nos educar foi para nós uma fase de rebeldia, descontentamentos e proibições.

Hoje vejo pelo prisma da formação de caráter de cada um de nós e da preocupação e grau de importância que o senhor tinha em nos preparar para a vida.

Tenho certeza que esse rigor também vinha de lembranças de perdas já ocorridas em sua vida das quais não havíamos participado e, por isso, não tínhamos noção do tamanho de sua dor, sua saudade, sua vontade de rever e reviver momentos junto a seus pais e irmãos, guardados em seu coração.

Assim como no meu existem estes.

Dizem que amor não se agradece, mas… Obrigada, meu pai, pelo seu carinho e dedicação.

Por certo, nesses cantares o senhor despertou em minha alma o lado sensível, terno e profundo da vida.

Talvez seja essa a principal razão pela qual hoje, através de palavras consigo expressar, mesmo que aos tropeços, um pouco do que me vai pela alma.

Obrigada, papai.

Da filha que te amará eternamente,

                                                          Isabel

 

 

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Senhor,

 

Domingo passado a TCM apresentou o início do seriado Os Bórgias.

A chamada para o filme calou-se no mais profundo do meu inferno existencial, onde habita a ira que sinto quando as imagens brotam em minha mente, imagens de toda a miséria, fome, doença e morte que assolam este planeta.

E em especial esta pátria generosa e rica, porém sempre nas mãos da impunidade, representada por figuras que nunca queremos colecionar, mas que todos os dias somos obrigados a colar num álbum cujo título não preciso mencionar.

Tentando me conter, não me contendo, prostrando-me diante da minha insignificância e sabendo que sou mais um ninguém, transcrevo aqui a chamada do filme, mesmo se indigna de tal pedido:

“Senhor, não os perdoe. Eles sabem exatamente o que fazem”

 

 

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Marcas IV

  

Partiste, bem sei

Deixaste em tua passagem rastros de luz

                                        o aroma das romãs maduras

                                        o gesto dos príncipes

 

Apenas a palavra inacabada

                            pairou por um segundo no ar

                            para depois

                                                     c

                                                     a

                                                     i

                                                     r

                                                         sob tuas pegadas

                                                         marcadas, por fim,

                                                         nos Tempos

 

 

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