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Archive for setembro \27\UTC 2011

Ao Tio Rivaldo

 

 

A vida vai perdendo-se nas perdas, a cada tempo.

Fica como que vazia, oca.

O sorriso perde-se nos rostos, os acenos perdem-se nas mãos.

O sentido de existir parece que perdido em gavetas silenciosas e vazias.

 

Desfilam-se momentos da infância, onde tua presença marcante mostrava, meu tio, caminhos para sonhos efêmeros de criança.

Foi quando ouvi pela primeira vez a história da Moura Torta na companhia de minhas primas, ingenuamente achando, à época, que Moura era o nome da mulher torta.

Ou quando fomos passear no aeroporto e vi um belo e enorme avião da cor de teu carro,  carro este que voava pela estrada quando fomos ao casamento de teu primo Joaquim em outra cidade.

 

Momentos adolescentes em festas familiares, onde compartilhávamos tudo, inclusive alegrias como as dos almoços de final de ano, ocasião em que meu pai colocava aquele avental branco, para preparar “O” cabrito.

 

Momentos da maturidade, momentos intermináveis de tua solidariedade e carinho quando meus pais se foram, como que tentando amenizar tristezas, ausências inevitáveis.

 

Momentos de reflexão como o mais rescente, nítido e intenso que vivi a teu lado, quando descobrimos ter a mesma concepção de Deus, o que de início muito me surpreendeu.

E é com Ele que agora estás, meu tio; fazes parte novamente da grande energia, da intensa luz.

 

Hoje pela manhã, através de um sonho, entrando na sala da casa da minha infância, vi a família reunida em grande festa, para te dar boas vindas e abraços que dissiparam por completo a saudade que sentiam.

Ao contrário dos que aqui ficaram, suas lágrimas eram de alegria!

 

Quando estiveres a conversar com eles, em algum momento sereno conta da falta que habita cada um de nós e entrega nossos beijos de amor e saudade.

 

Contigo, guarda o pedaço amoroso e agradecido do nosso coração.

Segue em paz, querido, com a mesma paz que nos ensinaste que nobreza não existe somente em príncipes de contos infantis.

 

O mês passado não é hoje.

A saudade já é enorme.

 

 

 

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No Primeiro Dia

 

Quando os poemas me tocam profundamente, quando tornam-se poesias a correrem em minhas veias, costumo apossar-me do poeta, dizendo que ele é meu.

Hoje, 23 de setembro, deixo aqui minha homenagem a um de meus poetas de alma, transcrevendo abaixo não um de seus imortalizados poemas, mas desta vez, um poema dedicado a ele, escrito por um outro poeta.

 

Pablo Neruda, tua voz é inconfundível na poesia, teu jeito tão próprio de dizer do amor, da melancolia a jorrar pelas palavras como se lágrimas fossem.

 

Sinto meu corpo se agitar quando falas do fogo que arde no coração dos amantes…

 

Sinto vida, vibração e luz em tuas palavras, que sei brotarem de tua alma, de tua maneira de ver e sentir a poesia em cada momento em que a natureza se mostra aliada a cada ser pulsante.

 

Sinto solidão profunda naquele até breve que transmutou-se em adeus…

 

Amo-te, poeta, e à tua magia que me leva pelo espaço e pelo tempo, como uma ave a piar e a planar intensos sentimentos.

 

Só uma coisa não entendo, meu poeta… porque foste embora justamente no primeiro dia da primavera…

 

 

Boa noite, Pablo Neruda. Neste instante

Ouvi cantar o primeiro pássaro da primavera

E pensei em ti. O primeiro pássaro da primavera

Cantou, parece incrível. Mas ainda existem pássaros

Que cantam em noites de primavera.

 

Estou sozinho e tudo é silencio. Meus filhos

Foram dormir. Minha revolta, provisoriamente

Também foi dormir. A verdade, poeta

É que te tenho presente, a cerveja está bem gelada

E o pior ainda está por vir.

 

Hoje pensei em Lorca. Vi-o nitidamente

Caminhando entre soldados. Seus olhos

Me olhavam entre dois canos de fuzis, desfigurados.

Hoje soube que teve medo, teve medo de morrer

Teve medo, mas não dizia nada.

Agora, no entanto, a noite, amigo

Se estende sobre nós, plantada de lírios

Faiscantes. Lorca morreu. Outros morrerão

Talvez tu, talvez eu. O inimigo

Possui fuzis, o que não impede a primavera

ser saudada pelos pássaros.

Hoje mais do que nunca o mundo avança

Para uma Aurora ainda aprisionada.

Tentemos resgatá-la com poesia

Cada poema valendo uma granada

Como disseste imortalmente um dia

                                              Vinicius de Moraes (1948)

 

 

 

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Ontem à noite Ruth convidou-o a dormir em sua cama.

Enquanto lia Vargas Llosa, ele assistia ao noticiário, tomando nota de algumas coisas com certeza para seu texto do dia seguinte.

 

Já bem tarde Ruth largou do livro e quando se virou em direção a ele, surpreendeu-se com seu olhar; não pelo fato dele olhar para ela, mas, sim, da forma com que o fazia.

Parecia que sua boca sorria, seus olhos divertiam-se com coisas que só ele via, sua fisionomia suave indagava e respondia.

Quando seus olhos se cruzaram com os dele … não conseguiu se concentrar em mais nada.

Olhos de avelã… gemeu baixinho.

 

Abraçaram-se, sentindo seus corpos, seus contornos e entornos…

Beijaram-se beijos de eternidade.

E tiveram uma noite de carinhos, de afagos, de carícias e arrepios.

De risadas baixinhas, de palavras sussurradas aos ouvidos, nos olhos.

E assim, como duas crianças adultas adormeceram.

 

Pela manhã, quando Ruth tomou consciência do quarto, dos móveis e da luz entrando pela janela, o primeiro pensamento que lhe veio foi… olhos de avelã.

Espreguiçou-se e procurou-o no outro travesseiro.

Ele dormia profundamente.

Ruth ficou a observá-lo, querendo adivinhar em que estrela estaria, com quem conversaria, se alguém amaria como a amou na noite que passou…

 

Ontem Ruth o convidou.

Hoje, quando no quarto entrou, ele já estava deitado, assistindo a um programa sobre Picasso, o pintor.

Estava tomando seu chocolate e a chamou para deitar-se.

Em cima do travesseiro havia um botão de rosa rubro como seus lábios, ao lado de seu livro, que não sabia se iria ler.

Ah! olhos de avelã… suspirou Ruth, beijando-o antes de adormecer.

Mas Ruth só adormeceu depois das três horas da manhã.

 

 

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Estações II

 

Na primavera

todas as manhãs perfumam-se

 

No verão

todas as tardes menstruam

 

No outono

todas as noites se despem

 

No inverno

todas as madrugadas choram

e depois adormecem

 

O tempo é uma mulher

sutil e amorosa

sensual e silenciosa

 

 

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