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Archive for outubro \31\UTC 2011

Desde o primeiro dia que se entendeu como um dos milhões de fragmentos do Universo, Azura começou a olhar mais para o céu que para a terra.

Passou a conhecer todas as fases da lua e todas as rotas do sol no decorrer das estações.

Sentia as mudanças na pele quando fechava os olhos… o movimento dos ventos, os aromas que eram trazidos, os ruídos quase que inaudíveis…

À noite fixava seus olhos nas constelações que via e o pensamento nas que não via, estudando-as com uma tenacidade que ela mesma não sabia explicar.

Depois de alguns outonos concluiu sua busca e só então escolheu uma delas para sua morada de origem; escolheu a menor estrela da constelação de Bezu.

Pelo simples prazer de poder olhar para ela e dizer Eu vim de lá!

 

Azura sentia-se feliz com pequenos sonhos, imagens, pensamentos noturnos como os voos luminosos e silenciosos dos anjos.

Não que se achasse também uma estrela, mas sentia-se diferente, visitante.

 

E por assim ser, Azura vivia quase que em conflito constante com seu ambiente; se não fosse seus sonhos, o elo se romperia, acordaria em outro espelho, sabia.

Refugiava-se então no estábulo, para buscar nas alturas sua pequena Bezu que brilhava magnífica, principalmente quando Azura a envolvia com seus olhos serenos, profundos, molhados.

 

Querendo entender um pouco mais de si mesma, um dia Azura resolveu visitar uma eremita que vivia no alto de uma montanha, a mais afastada da cidade.

E pediu a ela que fizesse seu mapa astral.

 

A velha senhora, em silêncio, traçou coordenadas, acrescentou datas e diagnosticou quase que de imediato, uma viagem para Azura.

Só não entendia a presença daquele tridente de Netuno no mapa, alí,  solto, sem sentido algum.

Pediu a Azura que voltasse no dia seguinte; assim poderia estudar com mais cautela e precisão o traçado astral daquela frágil criatura.

 

Azura, mesmo sem voltar com seu mapa nas mãos, sentiu-se subitamente mais leve, quase feliz, enquanto descia aquele caminho ora florido, ora pedregoso, lembrando-se de que, quando aprendeu a ouvir seu anjo guardião, aprendeu também a conversar com as pedras…

 

Naquela tarde Azura sentiu-se atraída para o estábulo sem entender bem a razão, visto que gostava de lá ficar mais à noite, junto ao silêncio.

Então escovou sua égua Prateada e a ela também deu de beber e comer, quando lá de cima, de súbito e do nada, despencou em sua direção aquele forcado imenso e pesado de pegar feno, como o tridente de Netuno.

 

Cravou-se em seu coração.

Seus olhos ainda puderam vislumbrar a noite que lá fora já acontecia.

Sua alma sorrindo, liberta, repetia baixinho Bezu pequena, és minha casa! Estou voltando… estou voltando…

 

No dia seguinte a velha senhora sabia que Azura não viria.

 

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A Menina

 

 

menina pula corda

desce a ladeira em carrinho de rolimã

anda de perna de pau

pula dentro de uma rede

lá de cima de uma árvore

brinca desses brinquedos

mas é menina

 

menina pula amarelinha

embora goste do lilás

pensa que é princesa

mesmo sem coroa

mas de princesa

só carrega o nome

 

menina pula poças passíveis

de água

pisa pedras

levita pensamentos

onde tudo é possível

 

menina chora

o espelho confidenciou

que está crescendo

perdeu as fitas

perdeu o riso

perdeu as roupas

 

menina brinca

que é gente grande

que entende das coisas

no fundo sabe

que é apenas menina

doce

 

 

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Anoitecer

Quando amanhece

esqueço-me

no travesseiro morno

e silencioso

 

Quando chove

não me encontro

confundida que sou

com a enxurrada que corre a esmo

 

Quando faz sol

ignoro-me

não há luz própria em minhas palavras

nem nas de amor

 

Quando anoitece

despeço-me

e adormeço em teus braços de nuvem

em teus olhos de vento

 

Nada mais que resta

existe

 

 

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Quando é que o amor machuca…

Sim, o amor que sempre dá sinais, deixa marcas, projeta sonhos inacabados

 

Paralisa porque não ultrapassa o possível

 

Rouba porque a aflição inútil toma conta das noites, esparramando-se toda no travesseiro até o amanhecer

 

Pesa porque oculta-se atrás de sorrisos, encontros, medos, abraços, meias palavras, silêncios

 

Machuca porque é irreal para quem é amado, mas é tudo para quem ama

  

Se sua alma, ainda que ferida, consegue sussurrar segredos ao seu ouvido é um bom sinal de que você ainda respira

 

Ferida sim, mas viva

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Marcas

 

Marcas,dores

Que não nos deixam virar algumas páginas da vida

enquanto as dores não passarem e as feridas cicatrizarem

 

O marcador está marcado na alma

o tempo não consegue apagar as palavras

os sentimentos

ainda está viva a lucidez do momento

 

Nessa aflição imposta e dolorida

quantas vezes tenta-se rasgar essa página

arrancá-la com força

definitiva do peito

 

Enquanto ela não se vai

o que pode ser feito senão um carinho

nessa triste lembrança

 

Talvez ela adormeça…

 

 

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