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Archive for novembro \28\UTC 2011

Amor,

Sento neste canto do mundo, com a brisa a conduzir minha escrita.

Meu corpo flutua em outra dimensão, embora meus pés descansem na areia úmida da praia, como úmidos são teus olhos quando fitam minha alma.

 

Sorrio porque tudo é incrível, porque depois de tantos ventos, tanto tempo, novamente pude encontrá-lo, o que seria impossível há alguns anos atrás, porque perdi teu rumo e tu nunca soubeste do meu.

 

E neste momento em que estou em outro universo, o dos sonhos, geograficamente distante do teu hálito, teu perfume, teu carinho, morro mais um pouco e a cada vez, de saudades de ti.

Uma saudade que não sei; ela simplesmente existe, me agita, me faz pensar, às vezes a sorrir para nada que se possa ver ou tocar.

Apenas sorrir como que em cumplicidade com meus sonhos.

 

Recolho uma conchinha rosa que saiu do mar para me enfeitar.

Mas devolvo-a às águas, porque vivemos em mundos diversos, como diversas são as profundidades que nos habitam.

 

Sorrio para tua imagem que lentamente vai se desenhando à minha frente, enquanto rabisco teu nome na areia.

 

E sinto uma vontade louca de escrever uma carta a ti meu amor desconhecido, para contar da tua eterna presença, do teu carinho infinito que habita a parte mais amorosa de minha alma.

Depois, mandá-la perfumada e beijada e guardada em um pequeno frasco mágico de vidro.

 

Como não sei teu endereço, rogo ao mar que o carregue em seus braços, depositando-o a teus pés.

Somente a teus pés.

 

 

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Lembranças II

 

Olhando por esta janela, com o olhar antes perdido no horizonte, de repente descubro três crianças luminosas brincando de roda num terraço de uma casa antiga, que traz em sua fachada um brasão por certo da família.

O sol reflete em seus risos, em seus vestidos rodados e leves e soltos, de dia de festa, nos laços que usam em seus cabelos, que mais parecem borboletas dançarinas.

As palavras começaram a brotar no papel com a mesma velocidade da emoção que, aflorada, vertia de minha alma em meus olhos.

Emoção que senti ao ver essas meninas que me fizeram lembrar de minhas irmãs e eu brincando nas calçadas de nossas infâncias, num tempo em que eu sentia sempre o carinho de minha mãe, quando tão delicadamente amarrava um laço de fita lilás nos cabelos de sua Isabel.

E aqui estou novamente a relembrar fatos que me fazem quase que senti-la presente.

Se na fachada daquela casa existe um brasão da família, dentro de mim há o carinho abrasador da infância que vivi, de nossas travessuras andando pelos muros, subindo no telhado, abrigando animais no quintal escondido de meu pai, colhendo frutas sem estarem maduras.

Nossas bonecas, nossos jogos, nossas cantigas de roda…

Nossa mãe.

É um momento mágico, sinto o voltar do tempo… enquanto as crianças continuam a cantar, a rodar, a rir, vejo minhas irmãs a brincar como borboletas em festa!

Ao meu lado, minha mãe.

A criança que ainda guardo em mim continua sentindo suas mãos, que me afaga os cabelos já não mais compridos como antes, mas que ainda guardam em si seu carinho, sua luz, sua energia.

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Está lá, marcada em meu calendário, a data do teu aniversário.

Não fico mais surpresa por procurar teus livros perto desta data.

O que faço agora é tentar reter o maior tempo possível tua imagem que se reflete nas palavras que vou lendo, nos pensamentos que vou detendo, nas reflexões, nas constatações.

 

Não há o que falar de ti que já não tenha sido dito, mas quero externar a falta que a tua dignidade faz ao mundo, mesmo polêmico, pouco entendido ou mal querido que foste.

Sinto falta da tua voz, da tua vibração e da tua coragem de ter sido o que foste, sem se valer de máscaras para simplesmente agradar a outros.

 

E sentindo tanto tua falta, comemoro hoje, com carinho e saudade, teu aniversário.

Obrigada, Saramago, pelo legado que deixaste; meu coração se consola nos pensamentos e nas descobertas que tenho feito a partir dos teus pensamentos.

 

Deixo aqui um trecho do que venho lendo no livro organizado por Fernando Gómez Aguilera – “As Palavras de Saramago”

 

“Existe nele (no Quixote) uma expressão que, para mim, é a chave, embora não pareça nada de especial.

Quando o Dom Quixote sai para começar as suas andantes cavalarias, o Cervantes diz isto de maneira tão simples que qualquer de nós poderia tê-lo dito:”E começou a caminhar”.

Há dois Quixotes: um com a sua vida sem importância e o outro que nasce no momento em que começa a caminhar.

É ele o Dom Quixote, o homem que fará aquilo que não estava nas previsões. Não era fatal, nem na sua loucura nem a sua vida anterior, que ele fosse fazer tudo o que fez depois.

Não há um destino: há um momento em que começamos a caminhar. Começamos a caminhar e caminhamos noutra direção.

Não é, de fato, a direção que parecia fatal, irrecusável… até podemos falar de predestinação, se se quiser, mas o momento em que começamos a caminhar é uma metáfora do movimento e não só do movimento pessoal, também o movimento da sociedade”

 

(“A Facilidade de Ser Ibérico” – Expresso, Lisboa)

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A primeira vez que te vi

tinhas estrelas nas mãos

esperanças nos olhos

mel nos lábios

traçados nos passos

 

Teu coração não batia compassado

quando senti o calor de tuas mãos

em minhas mãos

 

Na estiagem do tempo

perdíamos tempo

mas não os momentos

nos procurando

entre o sorriso e a palavra

ouvindo todos os silêncios

até os impossíveis

 

Não importa se depois

corremos em paralelo na vida

como as chuvas nos jardins

 

O que marcou

marca eterna

foram as estrelas

que perduram ainda

depois de tantas outras vezes

que te vi

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VI

 

 Teu riso

ferida aberta

grito lacerado

raiva incendiária

 

Minha agonia

mordaça crua

sombra profunda

poços mútiplos

 

Amor morto

gélido júbilo teu

 

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