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Archive for janeiro \30\UTC 2012

Chacais

 

Encarcera-me em tua jaula

enterra tuas garras em meu corpo

dilacera meus sentidos

 

Abra-me o peito

e sirva-se da minha carne

 

O que achares que não mais te serve

joga aos chacais

aqueles que, a qualquer oportunidade,

rondam-me sempre com olhos vidrados

de inveja e mediocridade

 

Talvez divirtam-se,

mas pela última vez

 

E com as alvas penas

que arrancaste de minha alma

faça um travesseiro macio

para teu sono possível

 

Por que

mesmo pertencendo a essa matilha de chacais

mesmo assim

conseguirás profundamente dormir

como se nada houvera

 

 

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Laços

 

 

 

Silêncio

Soluço

Lenço lento nos olhos

Lágrimas, rios

Mar revolto

 

Há laços que não podem ser

Desfeitos

 

 

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Não há muito que dizer.

Tenho receio de faltar-me palavras.

Sobrar-me o pranto.

Mas quero agradecer a você, querido Raul, a inspiração que teve daquele momento de perdas irreparáveis, um dos mais dolorosos de nossas vidas.

 

Como disse a você, morro a cada palavra.

Mas meu irmão, nosso querido João, e nosso querido Eduardo, hão de nos querer sempre vivos, pulsantes, mesmo que varados de saudades.

 

Infelizmente perdi o contato com a Heloísa, mas guardo na memória e nos sentimentos tudo o que de tão terno e importante fez.

 

Com sua permissão, deixo aqui registrado seu poema, sua sensibilidade e magia que foram tecidas cuidadosamente, como traços de uma planta de arquitetura que você executa com tanta propriedade, eternizando aquele momento de profundo amor e de dilacerante e silencioso aprendizado.

 

 

Las Quatro Mujeres

 

 Houve um tempo, sem tempo para quatro mulheres

minutos seculares de lua trocando o sol

rapidamente, sem diferença de tom

 

Suas vidas não existiram nessas noites claras

zelavam decididas, plantadas todo tempo

com as mãos no tempo que ainda restava

aos dois meninos alegres de overdose

 

Nem o menor ruído passou batido

sussurro algum passou despercebido

entre sopas, lençóis, afagos e poesias,

misteriosas, na mágica alquimia,

faziam dos tufões, ventos macios,

de pesadelos, sonhos de ninar

 

Ai dos maus fluidos que ousassem perturbar,

mesmo distraídos, o sono dos meninos!

mais que depressa elas filtravam sonhos,

Elis, Caetano, Bach e violinos

 

Implacáveis, insurgem contra o tempo,

atrasando os ponteiros insistentes,

num tic tac tenso e incessante,

até parar o tempo por instante

 

Zelavam os lentos pingos transparentes,

que gota a gota desciam correndo,

avidamente, para sumir nos braços,

na rápida esperança de criar mais dias.

 

Se entregaram as quatro sem piscar

ao mais bruto dar e sem nuances

e eles beberam tanto dessa fonte

que impossível foi dar o último trago

 

Um dia os dois travessos decidiram ir

para um lugar que só eles conheciam

e o tempo todo guardaram em segredo

 

Buenos Aires, França ou Maresias?

onde seria esse lugar distante?

de malas prontas, passagens marcadas,

piscando um olho, foram de mansinho

 

Mas indecisos, param de repente,

descem a bagagem e pensam num instante:

como sair do ninho dessas deusas

quatro mutantes, lindas, todas suas

e que ainda trocaram suas vidas pelas deles?

 

Debruçadas no leito a doze mãos,

tocaram um barulhento tango, louco de ternura

Tu me Acostumbraste a afagos e docinhos

e Bel, Marga, Rosa e Helô eles beijaram

 

Embriagados em delírios mil e gargalhadas,

os seis deitaram roucos e exaustos

mas só os dois de fato adormeceram

e delicadamente foram mergulhando

num mar de travesseiros brancos e cambraias

 

Superlotados de mãos, enternecidos

do privilégio de ir em mãos macias

devagarinho, nem sequer deixaram

o som das pálpebras quebrar a luz do dia

 

E sorrindo os dois meninos acenaram

com as mãos brincando leves e macias

mas de verdade mesmo, não se foram,

trapaceando toda despedida

 

Como é possível ir de vez embora

se o tempo todo tinham em suas mãos

quatro mulheres que com seus encantos

tinham o dom de amanhecer a noite escura?

 

                                             Raul Isidoro Pereira

                      Março de 1992

 

 

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O Arquiteto

 

No tempo quando ainda era jovem, Deus começou a andar pela praia, rabiscando ora o chão, ora o ar, com um galho seco que encontrou.

Desenhou um caramujo na areia, um pássaro no céu, uma conchinha no mar, labaredas no sol.

 

Sua túnica batia em suas pernas como uma bandeira ao vento fazendo seu manto dançar o movimento do universo, acompanhando seus cabelos da cor do mel que se atiravam ao ar como pernas longas de bailarinas felizes.

 

Trazia em seu rosto sereno um sorriso sereno.

Ora assobiava, ora cantarolava.

 

Nesse dia seus olhos estavam limpidamente azuis; na verdade, brilhavam tanto quanto toda aquela paz.

Deus estava assim, perdidamente apaixonado, rindo de um nadinha, sorrindo para tudo!

 

No ponto mais bonito da paisagem, parou e sentou-se.

E fitou o mar, o ir e vir das águas caindo na areia, como se fosse uma renda sem fim a enfeitar a praia.

Ao mesmo tempo em que sentiu a leveza da espuma sussurrando, sentiu a profundeza e mistério do silêncio do alto do oceano e a força e altivez das ondas poderosas, arrasadoras, trazendo consigo tudo o que encontravam.

 

Estava diante do ciclo vital: o ir e vir, ir e vir, ir e vir …

 

Foi nesse exato momento que Deus sentiu-se mais alegre, imaginativo, capaz de sua melhor criação!

Rapidamente juntou um pouco de areia, como fazem os meninos quando vão  construir castelos e, simulou uma forma.

Seus olhos brilhavam, seus dedos trabalhavam ansiosamente porque sentia que o momento que se fazia era o supremo.

 

Levantou-se, distanciou-se um pouco e olhou.

Não gostou da forma que via.

Desmanchou-a.

Pensou por um momento.

  

Com a fisionomia contrita, porém feliz, sentia seu coração bater e bater palmas, quase a sair pela boca.

Juntou novamente um pouco de areia e assim a forma tinha melhor aspecto, mas precisava de água; havia necessidade de coesão para que a areia não se esparramasse.

Correu ao mar, pulando e correndo como criança e, com uma concha cor-de-rosa nas mãos, trouxe água para que a forma se mantivesse.

 

Havia propósito em realizar o melhor e assim seria!

 

O sol estava a pino.

O suor escorria em sua fronte, seus cabelos estavam molhados, sua túnica e pés também, seus olhos brilhavam, sua boca cantarolava, suas mãos agitadas trabalhando, afilando, modelando…

 

E nesse instante houve um lampejo em seus olhos, igual a um fecho de luz penetrando um diamante.

 

E todo o Universo se calou.

 

Deus fechou os olhos, ouviu sua voz interior e entendeu que acabara de criar o que vinha buscando já há algum tempo nas outras coisas que havia criado.

Respirou fundo, não conseguindo ficar por mais tempo com os olhos fechados; queria contemplar sua criação.

Quando os abriu surpreendeu-se, bateu palmas, deu cambalhotas na areia, pensou em chamar todos os outros seres para darem uma olhadela, mas não o fez.

Olhou com mais vagar, com cuidado, pois o queria o mais perfeito possível.

 

Olhou em volta e sentiu que a Natureza era sua cúmplice; sentiu que a forma era o que de mais belo havia criado até então.

 

E por assim sentir, resolveu acabar com a solidão.

Até então conversava com os pássaros, os animais, a terra, a água; brincava de correr com o fogo e o ar.

Mas não era o bastante.

Precisava ouvir palavras, pensamentos de um igual.

 

Deus então resolveu dar à forma o poder do livre pensar, seguido do poder do livre expressar.

 

Com carinho e cuidado, como se temesse acordar uma criança, insuflou em suas narinas o sopro da vida.

A forma pela primeira vez respirou e o sopro dentro de seu corpo circulou e tudo o que tocava ganhava vida, movimento, expressão.

 

Quando começou a despertar, Deus mais que correndo ajoelhou-se a seu lado, colocou a cabeça daquela forma, que agora era um ser, em seu colo, alisou-lhe os cabelos, o rosto e a fronte.

 

Quando abriu os olhos, a primeira visão daquele ser foi a de Deus debruçado sobre ele, sorrindo, transbordando de alegria.

 

A gaivota piou ao longe, a brisa embalou as ondas e o sol a tudo iluminou.

 

Deus tomou o rosto daquela criatura entre suas mãos, beijou suas faces e disse “Bom dia, meu amigo!”

Então o Homem sorriu.

 

Abraçados saíram a caminhar, Deus mostrando-lhe todas as coisas.

O Homem extasiado com a Natureza e Deus com sua criação.

 

                                           (primeira publicação, em 1975, no jornal da empresa em que trabalhei, na época intitulada O Dia da Criação)

 

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Vem

 

 

Vem correndo, meu amor

Corre para no meu sonho entrar

e entrando

traga junto com teu riso

um afago, um afeto

traga teus balões

carrinhos

 

Tua gargalhada doce

teu olhar de certezas

hoje és a criança

a desvendar meus anseios

no vento veloz do teu patinete

 

Mesmo que eu acorde, meu amor

continue brincando

me inebriando

com tua boca macia

de veludo e luz

 

 

Á noite, meu amor

faça eu dormir novamente

conte-me tuas travessuras

teus desenhos na areia

teu olhar acompanhando os barcos

em movimento

 

Vem correndo, meu amor

eu só faço te esperar

 

 

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Levei um puxão de orelhas do meu amigo José Henrique.

Pô, Isabel, pensei encontrar um texto sobre os dois anos de seu blog e nada!?!

Querido amigo, respondi, não fique zangado; é que cheguei ontem de viagem e até “levantar” a casa novamente leva um tempo.

Além disso, estou meio desanimada e completamente sem voz.

Ao que ele retrucou, Está sem voz, mas não está sem palavras!

Fiquei sem graça e prometi deixar meus sentimentos sobre esta data.

Não a data do segundo aniversário do blog, mas a do Dia de Reis.

 

Fui até a janela ver a noite chegar.

Até aonde minha vista alcança, não há mais luzinhas acesas, com exceção de três apartamentos defronte ao meu e o meu.

Os jardins dos prédios anteriormente iluminados com renas, árvores, bolas coloridas e lagos já estão apagados.

 

Meu presépio brilha, todo iluminado e colorido, na minha sala de luzes apagadas.

Ajoelho-me diante dele.

Lá está uma Criança a me sorrir.

E eu, meio sem jeito, quase que pedindo desculpas pela falta de carinho das pessoas que nem sequer sabem do simbolismo desta data, também sorrio para ela.

Seu riso é doce, é calmo, é leve, é suave… seus bracinhos estendidos me convidam para um abraço…

Anjos cantam, tocam suas flautas e harpas, incensam o berço.

Os casais de corujinhas, coelhinhos e cachorrinhos se aconchegam mais para escutar os sons que vão se espalhando por toda a minha casa.

 

Ouvindo esta canção de Natal, vou fazendo chegar perto do Menino os Sábios e seus presentes, estes que a maioria sequer sabe seus significados.

Até que se aproximam com dignidade e respeito, o suficiente para depositá-los a seus pés,num instante de reflexão e reconhecimento, divindade, fé e imortalidade.

 

Lembro-me novamente de meus pais.

Lembro-me novamente desta data, quando a passei num cerimonial executado na praia.

Lembro-me de meu avô firmando em meu pensamento as dádivas que preciso, a qualquer custo, guardar em meu coração, como diamantes que retêm a luz verdadeira.

 

Meio acanhada, peço desculpas ao Menino pelas lágrimas que teimam em se fazer visíveis.

Digo a Ele que não entendo mais das coisas e pessoas, que tudo me assusta e que já não sei se sou capaz de promover o bem.

 

Em um aceno, Ele pede que eu espere os Reis se retirarem.

Abrindo novamente seus bracinhos, convida-me a sentar a seu lado, Vou contar uma historinha para você dormir, me diz.

E passando suas mãozinhas em meus cabelos, joga em meus olhos o pozinho mágico da serenidade para que eu durma em paz.

 

Há vários motivos pelos quais escolhi esta data para iniciar meu blog.

Este passou a ser mais um.

 

Que os Reis se façam presentes em seus dias, através das dádivas que a vida sempre está a oferecer a todos nós.

 

 

 

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