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Archive for 15 de janeiro de 2012

O Arquiteto

 

No tempo quando ainda era jovem, Deus começou a andar pela praia, rabiscando ora o chão, ora o ar, com um galho seco que encontrou.

Desenhou um caramujo na areia, um pássaro no céu, uma conchinha no mar, labaredas no sol.

 

Sua túnica batia em suas pernas como uma bandeira ao vento fazendo seu manto dançar o movimento do universo, acompanhando seus cabelos da cor do mel que se atiravam ao ar como pernas longas de bailarinas felizes.

 

Trazia em seu rosto sereno um sorriso sereno.

Ora assobiava, ora cantarolava.

 

Nesse dia seus olhos estavam limpidamente azuis; na verdade, brilhavam tanto quanto toda aquela paz.

Deus estava assim, perdidamente apaixonado, rindo de um nadinha, sorrindo para tudo!

 

No ponto mais bonito da paisagem, parou e sentou-se.

E fitou o mar, o ir e vir das águas caindo na areia, como se fosse uma renda sem fim a enfeitar a praia.

Ao mesmo tempo em que sentiu a leveza da espuma sussurrando, sentiu a profundeza e mistério do silêncio do alto do oceano e a força e altivez das ondas poderosas, arrasadoras, trazendo consigo tudo o que encontravam.

 

Estava diante do ciclo vital: o ir e vir, ir e vir, ir e vir …

 

Foi nesse exato momento que Deus sentiu-se mais alegre, imaginativo, capaz de sua melhor criação!

Rapidamente juntou um pouco de areia, como fazem os meninos quando vão  construir castelos e, simulou uma forma.

Seus olhos brilhavam, seus dedos trabalhavam ansiosamente porque sentia que o momento que se fazia era o supremo.

 

Levantou-se, distanciou-se um pouco e olhou.

Não gostou da forma que via.

Desmanchou-a.

Pensou por um momento.

  

Com a fisionomia contrita, porém feliz, sentia seu coração bater e bater palmas, quase a sair pela boca.

Juntou novamente um pouco de areia e assim a forma tinha melhor aspecto, mas precisava de água; havia necessidade de coesão para que a areia não se esparramasse.

Correu ao mar, pulando e correndo como criança e, com uma concha cor-de-rosa nas mãos, trouxe água para que a forma se mantivesse.

 

Havia propósito em realizar o melhor e assim seria!

 

O sol estava a pino.

O suor escorria em sua fronte, seus cabelos estavam molhados, sua túnica e pés também, seus olhos brilhavam, sua boca cantarolava, suas mãos agitadas trabalhando, afilando, modelando…

 

E nesse instante houve um lampejo em seus olhos, igual a um fecho de luz penetrando um diamante.

 

E todo o Universo se calou.

 

Deus fechou os olhos, ouviu sua voz interior e entendeu que acabara de criar o que vinha buscando já há algum tempo nas outras coisas que havia criado.

Respirou fundo, não conseguindo ficar por mais tempo com os olhos fechados; queria contemplar sua criação.

Quando os abriu surpreendeu-se, bateu palmas, deu cambalhotas na areia, pensou em chamar todos os outros seres para darem uma olhadela, mas não o fez.

Olhou com mais vagar, com cuidado, pois o queria o mais perfeito possível.

 

Olhou em volta e sentiu que a Natureza era sua cúmplice; sentiu que a forma era o que de mais belo havia criado até então.

 

E por assim sentir, resolveu acabar com a solidão.

Até então conversava com os pássaros, os animais, a terra, a água; brincava de correr com o fogo e o ar.

Mas não era o bastante.

Precisava ouvir palavras, pensamentos de um igual.

 

Deus então resolveu dar à forma o poder do livre pensar, seguido do poder do livre expressar.

 

Com carinho e cuidado, como se temesse acordar uma criança, insuflou em suas narinas o sopro da vida.

A forma pela primeira vez respirou e o sopro dentro de seu corpo circulou e tudo o que tocava ganhava vida, movimento, expressão.

 

Quando começou a despertar, Deus mais que correndo ajoelhou-se a seu lado, colocou a cabeça daquela forma, que agora era um ser, em seu colo, alisou-lhe os cabelos, o rosto e a fronte.

 

Quando abriu os olhos, a primeira visão daquele ser foi a de Deus debruçado sobre ele, sorrindo, transbordando de alegria.

 

A gaivota piou ao longe, a brisa embalou as ondas e o sol a tudo iluminou.

 

Deus tomou o rosto daquela criatura entre suas mãos, beijou suas faces e disse “Bom dia, meu amigo!”

Então o Homem sorriu.

 

Abraçados saíram a caminhar, Deus mostrando-lhe todas as coisas.

O Homem extasiado com a Natureza e Deus com sua criação.

 

                                           (primeira publicação, em 1975, no jornal da empresa em que trabalhei, na época intitulada O Dia da Criação)

 

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