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Archive for fevereiro \28\UTC 2012

 

      Perdi o controle

dos dias que passam como pássaros

sem volta

das manhãs que terminam

sem antes começar

do sentimento abortado

sem atingir o estado de borboleta

da palavra ouvida como um golpe surdo

de um machado cego

em madeira molhada de soluços

      Perdi o controle

dos passos que passaram

a se descompassar

do riso que se tornou

risada estéril de verdades

do aceno enterrado junto ao corpo

em uma tarde de outono

      Perdi o controle

do pensamento que agora corre vagabundo

pelo crânio, pelos olhos

pela língua morta

em um latim decadente, sem nexo

      Não sei em que momento ele existiu

e se existiu

em que compasso eu o perdi

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Estou chocada (ou será que não deveria estar?)

Minha mente nega-se em acreditar no que meus olhos viram.

Vândalos, predadores, destruindo a festa mais bonita e mais popular do país.

O susto ainda não havia passado quando o incêndio começou.

Material inflamável.

Aliás, o incêndio já havia começado naquela reunião de última hora.

Quando os dirigentes das escolas começaram a dar entrevistas para TVs e rádios, falei comigo mesma, Vai dar complicação! (para não dizer outra coisa)

Senti nas palavras de muitos deles a confusão anunciada, a politicagem podre que proliferou em absolutamente todos os segmentos deste país (do mundo?); por que o carnaval ficaria de fora, não é?

Material altamente inflamável.

Não me refiro aos carros alegóricos em chamas, mas à mente insana dessa massa oportunista que não sabe (nunca soube) o que é civilidade.

Não vou enumerar aqui os vandalismos praticados por verdadeiras gangues, decorrentes do primeiro sinal de violência dado; todos nós vimos.

Praça de guerra, todo o policiamento nas ruas e no ar.

Tropas de choque, cavalaria, bombeiros.

Para esclarecer: existe um regulamento da Liga com normas/regras a serem cumpridas pelos carnavalescos, ou isso também é outra de minhas alucinações?

Material inflamável corroído.

Lamentável o retrocesso do ser humano.

Lamentável a falta de conhecimento e maturidade, onde tudo é absolutamente resolvido na porrada, Ou eu ganho ou eu te dou porrada, meu!

Atos… eu ia dizer animalescos, mas peço mil perdões aos animais.

Atos dantescos? não, são amenos demais para serem comparados aos do momento.

Fico me perguntando a razão de ter nascido nesta época; sinto-me uma ET que, dormindo, caiu da cama e numa queda vertiginosa parou aqui, com todos os sonhos sendo pisados de forma cruelmente lenta, até que nada sobre.

Sinceramente, amedronto-me com tudo, com qualquer barulho ou um movimento mais brusco; acho que fiquei neurótica.

Tranco-me em casa e quando preciso sair, nunca sei se voltarei, ou melhor, nunca sei se chegarei até a esquina, enquanto que os vândalos e politiqueiros passam uma noite tranquila e segura entre as grades para, no dia seguinte, verem o sol nascer como todas as demais pessoas de bem.

Essa massa de altíssima combustão deixou sua marca, marca vergonhosa e inacreditável, na história do carnaval de São Paulo.

Quando este for mencionado, não se lembrarão dos sambas enredos, dos casais de mestre sala e porta bandeiras, das fantasias e alegorias e muito menos dos fundadores e compositores das escolas.

Será lembrado somente o carnaval de 2012, onde o vandalismo explícito e a politicagem enrustida correram de mãos dadas, em devastação, pela avenida do samba.

E pensávamos que já havíamos visto tudo…

Com certeza, essa foi a mais adequada forma que São Paulo utilizou para mostrar ao mundo de como está preparada para receber jogadores e turistas do mundo inteiro.

Será que a escola vencedora terá coragem de fazer seu desfile apoteótico no sábado?

Será que haverá segurança policial adequada para essa apresentação?

Quantos “serás” ainda precisaremos dizer até que sejam tomadas medidas sérias, respeitosas e íntegras para que se possa sentir um pouco de tranquilidade nesta cidade?

Meus pêsames São Paulo, pela sua comprovada desestrutura.

Meus pêsames São Paulo, por esses delinquentes, aliás os mesmos que no final do ano estarão elegendo seus representantes; os mesmos que daqui vinte anos estarão administrando este país.

Deus me ajude que eu já não esteja mais aqui.

 

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Sempre que podia, Lia gostava de observá-los.

Não por mera curiosidade, mas com profunda admiração, posto que toda e a cada vez sempre se mostravam como se primeiro encontro fosse.

 

Trocavam algumas palavras, breves sorrisos, respiração  suspensa, olhares intensos, silêncios intermináveis.

Seus espíritos irrequietos, ansiosos, não se espelhavam nunca em seus gestos.

 

Lia sentia em ambos um comedimento tenso, como se algum descuido pudesse atirá-los um nos braços do outro, nas palavras a borbulharem em suas bocas, ou no calor de seus corpos sentido naquele simples toque de mãos, vindo a desmoronar a tentativa explícita de submissão.

Submissão aos fatos incontornáveis que se apresentavam, mas não o suficiente para sufocar o que sentiam.

 

Lia sentia que as pessoas ao redor, quase sempre as mesmas,  nada viam porque não compreendiam mesmo,  não sabiam ler os sinais.

 

Mas Lia sabia que eles se amavam, cada vez mais.

Não se diziam, mas se amavam.

Por isso admirava profundamente esse encontro silencioso.

Em silêncio.

 

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Vulto

 

Sempre em saltos

e soluços

silhuetas de sílfides

em sílex invisíveis

trazem teu vulto

à margem de meu abismo

como sílabas

silenciosas

 

No justo momento

em que salamandras

semeiam suores noturnos

 

 

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Liberdade

… e um dia, de tão encantada que ficou, pegou escondido na cozinha um lindo vidro e, já à noitinha, resolveu pegar alguns vaga lumes para observá-los.

Entrou sorrateiramente pela porta dos fundos, subiu aquela imensa escada sem fazer um ruído sequer e trancou-se no quarto.

 

Pronto! não morreria mais de medo das sombras que se projetavam e cresciam naquelas paredes tão antigas.

Os móveis austeros e enormes não mais roubariam seu sono.

Não mais ouviria sussurros aterradores vindos por detrás dos quadros.

 

Pegou um fio de seda e passou-o pela tampa do vidro, pendurando-o no lustre.

Depois deitou-se naquela cama antiga, de reis e rainhas que não mais existiam.

Sentiu-se feliz com o quarto todo iluminado pelos vaga lumes.

E os bichinhos, acendendo e apagando seus lumes, esvoaçavam dentro do vidro, como pequenas lanternas, a tudo iluminando e colorindo.

 

Na manhã seguinte, antes do café no jardim junto aos pais e avós, a pequena Sara armou perto de sua janela também enorme, uma tela quadrada de trama bem fechada e lá soltou seus vaga lumes, para que pudessem respirar e voar melhor.

 

Quando a noite novamente chegou e quando conseguiu livrar-se de todos aqueles talheres, copos, mesuras e recomendações de todos os adultos, desabalou escada acima, sob o olhar reprovador da babá.

 

Deitada e coberta,  já não se sentia apenas um minúsculo objeto a compor a imensidão que a cercava.

Agora tinha amiguinhos que traziam alegrias para seus olhos.

Mas… reparou que a luz já não era tão intensa como a da noite anterior.

Mesmo assim adormeceu.

 

Quando acordou decidida a executar seu novo ritual antes do café da manhã, encontrou os vaga lumes no fundo do vidro, desfalecidos.

Um deles, articulando as patinhas dianteiras com muita dificuldade, pediu para que Sara se aproximasse e ouvisse seu apelo.

Penalizou-se então dos bichinhos, sentindo-se muito envergonhada pelo seu egoísmo quando ouviu-o dizer, Por favor, abra a tampa do vidro; precisamos de liberdade para viver.

 

Sara então passou a dormir novamente na escuridão daquele quarto antigo.

Sem medo.

Com a janela aberta.

 

 

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