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Archive for maio \31\UTC 2012

Semeador

  

Encontrei-te

às margens de um rio

daquele onde guardas tua alma

 

Na quietude do instante

pressenti que conversavas

com o tempo

 

Depois, mais atenta

vi que choravas

como a correnteza

e o vento

 

Quis aproximar-me

sorrir-te

acalentar-te

com um carinho de luz

 

Pensei até em beijar-te

mas estanquei bruscamente

quando vi em tuas mãos

um punhal

 

Desesperei-me, corri

e só então vi

que plantavas mais uma árvore

aos pés de outra

 

No brilho de teus olhos

na emoção de tuas lágrimas

senti que ali permanecerias

até o primeiro fruto

 

 

 

 

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Ultimamente tenho pensado muito na servidão humana.

Em 13 de maio pensei em relembrar, com algum texto, essa data.

Não consegui.

A idéia de que é apenas uma data, vem sendo reforçada, a cada dia, pelos fatos que vêm ocorrendo no tempo.

À época da escravidão nada era possível pensar, idealizar e muito menos realizar.

A palavra de ordem era Executar.

À época da libertação, parecia possível respirar, enfim, novas perspectivas, novos rumos.

Mas a palavra de ordem passou a ser Preconceito.

Na época atual, a da tecnologia de ponta, da informação globalizada, do poder aquisitivo mais estável (?), são necessárias leis para que estudantes negros possam cursar universidades; são necessárias leis para que subalternos sejam protegidos do assédio moral dos patrões; são necessárias leis para que as donas de casa não precisem se submeter ao jugo desvairado dos maridos violentos e viciados; são necessárias leis penais para as mães que abandonam seus filhos recém nascidos em latas de lixo; são necessárias leis para que pessoas possam ser respeitadas por suas opções sexuais e crenças religiosas.

Não sei qual palavra de ordem utilizar para estes tempos.

Se o Brasil foi colonizado em 1.500 trazendo escravos em sua bagagem, hoje, 2012, portanto 512 anos após, em que segmento é possível encaixar a palavra Evolução.

Nossos grilhões, hoje, são a inveja, o egoísmo, o orgulho, o desrespeito, a calúnia, a prepotência que não causam mais feridas no corpo, mas na alma.

Somos cegos perambulando na escuridão da nossa pequenez, marcando passo como soldados de chumbo que fazem muito barulho ao marcharem mas que não saem do lugar, com um monstruoso comandante em exercício que está sempre a ordenar, Ordinário! recuar, recuar, recuar…

Por isso me calei nessa data, com um sentimento profundo de pena de nós mesmos.

 

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Luz é Vida

Era seu pensamento.

A todo instante, a cada respirar.

Os olhos brilhavam como fagulhas de intensas esperanças, contando nos dedos os dias que passariam céleres, a liberdade que finalmente chegaria.

E no transcorrer do tempo fazia planos, falava alto, movia-se agitado de um lado para outro, parava, pensava, lembrava, relembrava.

Traçava, passo a passo, uma estratégia para que nada e ninguém ficassem sem um devido lugar em sua vida.

Luz é vida, luz é vida! repetia incessantemente.

Eufórico, planejava seus passos, seus reencontros, suas alegrias, sua vontade de plenamente viver.

Mas ali, preso naquela cela escura e úmida, naquele momento só podia mesmo era contar com a luz de sua alma.

Nada mais.

Principalmente quando, na calada da noite, vinham zombar e maltratar seu corpo, tentando roubar seus sonhos, como se fossem competentes para isso.

Mesmo assim, não parava de repetir para a amargura que se instalara em seu rosto, Luz é vida, luz é vida!

Uma noite que não sei quando, em meio a um silêncio mortal, arrastaram-no pelos corredores que sangravam gemidos e desesperanças e jogaram-no em uma rua escura e fétida.

E foi nessas condições que se levantou, avançou pela avenida repleta de luzes, atirando-se debaixo do primeiro carro que passava, voando pelos ares como um anjo a procurar seu trajeto.

E foi sem vida que o encontraram tres dias depois.

O que não entendiam é por que aquele homem sorria.


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Depois

 

Deitada a teu lado no silêncio escuro da noite forrada de estrelas, invado teu travesseiro, a roçar teus ouvidos com a mesma frase que me invade a alma, desde o primeiro instante que te vi.

 

O que foi que te prometi para não conseguir libertar-me dessa dor que me sufoca a cada andar dos ponteiros do tempo.

Em que lugar estávamos nesse tempo em que eu era tua e tu eras meu.

O que aconteceu para que esse sonho fosse interrompido, me fazendo jurar às pressas algo que não sei, mas que ainda me mantém impregnada por tuas palavras, tua luz pura e real.

 

Abraço com suavidade este travesseiro como se teu peito fosse e, num acesso de delírio, penso ouvir o pulsar do teu coração.

Depois insisto nas dúvidas, interrogando-o.

Depois choro um pouco.

Depois, meio cansada, meio vazia, adormeço.

E não sonho mais.

 

 

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Sinto saudade de minha mãe.

Sua voz, seu sorriso, suas brincadeiras, seus acenos.

Às vezes falava alto, gritava mesmo, perdendo sua santa paciência, mas tudo porque queria o bem de todos.

Por puro amor.

 

Sinto saudade das vezes sem fim que me chamava a um canto, a contar-me pensamentos colhidos em sua vida.

Sim, compartilhava suas descobertas, suas alegrias, suas surpresas e desalentos comigo, dando a mim uma parte do seu coração, aquela parte de angústias, mais tarde confirmada pela sua doença.

Lembro-me do final do ano último, seus olhos buscando nos meus um raio de esperança de mais um ano a viver.

Mas não aconteceu.

 

Hoje continuamos a nos encontrar.

Confesso que para mim de uma forma mais difícil, mas não mais distante.

Compartilho com ela, eu desta vez, os medos, alegrias e tristezas e sustos que vêm acontecendo com certa frequência.

Mas quando me sorri aquele sorriso luminoso, espelho de sua alma, a sensação de que tudo torna-se mais brando me invade, como a calmaria depois da tormenta.

E mais amena, consigo contar-lhe das pequenas coisas que fazem meus dias especiais.

Consigo até contar-lhe dos meus sonhos.

E ela me ouve e sorri.

Às vezes balança a cabeça, chega mais perto, procura uma palavra, um olhar.

 

Pressinto, neste momento, sua presença e peço baixinho que me afague mais uma vez os cabelos, que cante canções de ninar, que me embale e me faça dormir.

Entre uma lágrima e outra, peço por sua proteção, sua força, sua determinação e crença que tudo vale à pena, como tudo sempre fez para aquietar meu desassossego.

Assim adormeço com a certeza de que ela me segura em seus braços de amor.

 

Perdoe-me minha mãe, talvez eu não tenha crescido a contento de seus esforços, por não ter conseguido enfrentar de frente esta vida sem você, sem os seus conselhos, sua alegria, seu carinho…

Há tantas passagens boas e alegres que vivemos e que eu poderia contar, mas é que ando bastante assustada com a vida e tenho medo de ferir-me mais.

 

Saudade, minha mãe, saudade.

Pediria apenas mais uma coisa: passar um dia inteirinho a seu lado.

Não precisa ser hoje.

Pode ser para sempre.

 

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Sonho III


Sinto-me acalentada por tuas palavras como se fosse eu a estar sendo levada por esse sentimento de busca interior, onde não existe o medo do indesejado, a não ser uma melancólica saudade que está por ser.

 

Minha alma sorri porque é incrível… aí está teu rosto, tua palavra, toda essa poesia que me faz flutuar.

 

Guarda no bolso do teu casaco de navegante uma porção do meu carinho e um pouco do perfume de alguma rosa para suavizar teu caminho, para amenizar os temporais, para alegrar o teu sol.

 

Tudo, para prevenir uma possível fome de sonhos, durante tua viagem.

 

Quando voltares, não te esqueças de trazer-me teus olhos brilhantes de esperanças e tuas mãos com o perfume dos olivais.

 

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