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Archive for junho \30\UTC 2012

Cena I

No mês passado revi um filme que, com o decorrer do tempo, muito me faz pensar. Sempre.

E por se tratar de um filme americano, surpreende-me pelo seu conteúdo, parecendo na verdade um daqueles filmes ingleses que muita gente não tem paciência de assistir.

Não que eu tenha alguma coisa contra filmes americanos; até que existem alguns bons mesmo.

 

São diálogos (às vezes monólogos) que parecem ter saído de minha boca, de minha alma, de meu estado de espírito que teima em aparentar-se sereno.

Em cada trecho do filme vem-me à mente o sentimento que teço por pessoas queridas, visíveis ou invisíveis; às vezes as duas.

 

O que deixo hoje aqui transcrito é para aquele que desde a minha adolescência deixei entrar por minha porta, tão especial já era, e que até hoje peço para que não saia, simplesmente porque o amo.

“Você me faz pensar na vida.

Você me faz lembrar o que perdemos.

Não é comum ver pessoas sorrindo, só quando sonham e é isso que você faz: pessoas sonharem com o que distante se encontra, levado pelas asas de um tempo que não voltará.

O momento, este sim voltará e se não estiveres presente, tornarei a perdê-lo na escuridão dos tempos.

E a consciência deste instante virá no exato momento em que for tarde demais.”

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Cabocla

Alzira, moça bonita, de olhos verdes penetrantes, cabelos negros e sorriso radiante, foi um anjo de guarda que apareceu em minha vida e de minhas irmãs, quando pequenas.

Acompanhava-nos em viagens, ajudando minha mãe a cuidar de nós com tanto carinho.

Lembro-me de Alzira cantando canções antigas, enquanto escovava nossos cabelos com tanto esmero e paciência.

Todos os domingos, depois de nos arrumar, verificava se estávamos prontas e bonitas para irmos à missa das dez horas com nossos pais.

Alzira, moça prendada, que cozinhava alimentos cheirosos e gostosos, encantou o coração de Chiquinho, o leiteiro que morava na mesma fazenda que ela, a do avô de minhas primas.

Ele, que tinha um coração italiano apaixonado, desde o primeiro dia que a viu nunca mais conseguiu viver sem ter ao lado sua Alzira.

Toda manhã Chiquinho levava leite em casa e, mal entrando pela porta do fundo, quando não a via, ia logo tirando seu chapéu e perguntando, Cadê minha cabocla?

Se ela não o ouvia por estar longe, alguém corria chamá-la e, vindo rápido, lhe sorria como o sol em dia pleno de festa no campo, Meu amor, quer uma xícara de café?

Enquanto ele a bebia, embriagava-se nos olhos de Alzira, trocando sorrisos, silêncios e pequenos carinhos.

Depois ele beijava sua testa, colocava seu chapéu e se ia e Alzira suspirava.

Todo dia era assim, um cafezinho, uma troca de olhares e um suspiro, daquele amor que não se vê mais.

Este pensamento me veio depois de remexer em minha caixa de lembranças, onde encontrei uma foto de mamãe e Alzira com minha irmã Rosa no colo, sentadas em um banco de madeira, no meio de árvores frondosas, por certo em um daqueles passeios gostosos de domingo.

Seu sorriso ali eternizado é lindo, é forte, ao mesmo tempo que terno, repleto de doçura e luz.

Onde andará essa cabocla e seu amor…

Será que hoje já se encontram a visitar minha mãe, fazendo piquenique em alguma estrela?

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Preciso de paz, minha mãe

para fitar tua imagem

na moldura dourada do tempo

 

Só assim

ao entardecer nas teclas deste piano

conseguirei fitar tua doçura

 

O sorriso leve

na tua boca vermelha e desenhada

delineando os desejos de meu pai

 

Teu uniforme de normalista

tuas iniciais bordadas na blusa

a mocidade apaixonada brilhando nos olhos teus

 

Olhavas para quem, minha mãe

quem roubava teu olhar

fazendo-a mostrar apenas teu delicado perfil

 

Preciso de serenidade, minha mãe

para encontrar-te nesta noite de outono

mas consigo apenas morrer de saudade

 

 

 

 

 

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Sempre me perguntava o porquê de gostar tanto de pérolas.

Hoje, mais que nunca, sinto-me atraída, fascinada por elas, como se remexendo dentro de minhas entranhas se concha fosse.

Depois de um tempo encontrei o motivo, enquanto olhava o colar de pérolas de minha mãe, a escorrerrem entre meus dedos como lágrimas do mar.

Perdida naquela contemplação veio-me à mente a formação de tão delicada pedra, apesar desse assunto já ter sido abordado quando reunidos estávamos na sala de jantar por ocasião de meu aniversário, data em que ganhei um anel de pérola de minha irmã.

Mas como que hipnotizada por elas, em plena e assustadora identificação, fui repetindo para mim mesma, Algo penetra na ostra e esta se incomoda com o invasor; a dor é tanta que, a tal ponto, para se proteger, vai envolvendo-o com o nácar resultante dessa agressão, até que esteja totalmente coberto a ponto de não feri-la mais.

E o que era dor transforma-se em pérola.

Soou-me na mente as palavras de alguém ali presente, já não me lembro quem, Pérolas são feridas curadas, são feridas cicatrizadas, ao que minha mãe completou, Tudo que é valioso vem de dentro!

Há guardada dentro de uma concha, em algum lugar do tempo, uma pérola cultivada, essa que agora sou.

Quizera poder depositá-la a seus pés no dia de hoje, mas não sei em que estrela do mar você está adormecido.

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