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Archive for julho \30\UTC 2012

Esperança

Outrora

no campo onde a criança brincava brinquedos

com a chuva torrencial

brotaram do solo cacos de vidro

resolutos

 

Onde se ouvia sua gargalhada

atirar-se-ia à enxurrada

se neste instante fosse

agora lágrimas silenciosas

gemidos que sangram

dor

 

 

Chapinhando em soluços insólitos

fere-se no fio fino e frio

de cada caco opaco

como se ódio fosse

suas seivas

 

Sôfrega quer

os cacos a submergir na terra

fundo, muito fundo

a encontrarem seu solo próprio

junto aos minerais

repouso

 

Na escuridão sem fim

agoniza

de aflição e esperança

ainda que lacerada

por tardias lembranças

da criança que mesmo morta

ainda arde em mim

 

 

Apenas o sol a nascer poderá

com seus dedos possíveis trazer

a alegria pura e infantil

a vida

aquela doce e intensa

a este lugar

coração

 

 

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Recado

Já pela manhã, Helena providenciara todo o necessário para que a festa se tornasse inesquecível.

Cuidou de detalhes que antes não houvera notado, mas que lhe davam prazer.

E entre flores raras e taças de cristal confirmou, mais uma vez, que toda aquela expectativa resumia-se em um único nome: Alexandre.

Amava-o, é verdade.

Amava-o com tanto querer que até doía.

Sentiu, logo que  despertou em uma longa espreguiçada, que aquele dia seria muito especial.

Correu para o espelho e viu em seus lábios um meio sorriso, outra meia surpresa no olhar, onde repousado estava um brilho estranho.

O coração apertou-se-lhe e não compreendeu a razão, mas não deu tanta importância, voltada que estava às tarefas ainda por cumprir.

Já noite, linda, parecendo uma fada levitando ao luar, dirigiu-se ao grande salão com uma vontade louca de rodopiar com seu amado, até que o sol raiasse por detrás daquela serra.

Por certo trocariam juras de amor, carícias, sussurros, desejos.

Enquanto subia os degraus da escada principal, um rouxinol repentino pousou em seu ombro e disse-lhe baixinho no ouvido que trazia um recado muito importante, Se abraçar Alexandre, ele será petrificado para sempre.

Soluçando e morrendo aos poucos, entrou escondida no salão, com a intenção de ver, pela última vez, seu amor.

Mesmo que de longe.

Mesmo que despercebida, escondida por detrás dos pilares, das cortinas, do medo.

Apenas para vê-lo sorrindo e guardar essa imagem em seu trêmulo  coração.

Depois partiria imperceptível, para que ele pudesse viver.

Enquanto assim pensava e com a visão turvada o procurava, não se apercebeu de alguém que chegava de mansinho e, num ímpeto, puxou-a para o meio do salão.

Vamos dançar minha bela Helena? foi o que teve tempo de ouvir seu Alexandre dizer.

Antes que ficassem petrificados, um nos braços do outro.

Para sempre.

 

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Por Inteira

Procuro

no brilho da runa

na ponta da pluma

na bruma

teu sonho

no lago invisível

no olhar intangível

golpe infalível

teu gesto

Procuro

no caminho solitário

no espaço imaginário

o calvário

tua verdade

Mas só ouço

o rouco trotar da vida

o voar do tempo

a ferida

da lança ungida

a penetrar lentamente

minha garganta

 

Por inteira

 

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Majestade

Chamam-te de Princesa.

Eu, de Majestade.

Enquanto corres em círculos, gosto da tua pele suada brilhando ao sol.

Teu trote compassado.

Teu dorso.

Teu pelo cor de mel tão bem escovado.

Tua crina branca acariciada pelo vento.

És bela, Majestade, és tão bela que ficaria horas a te admirar, tantas são as coisas que preciso contigo aprender.

Mas o que mais gosto é que, mesmo do alto de tua imponência, tens uma doçura no olhar como se me invadisse a alma e descobrisse meus segredos, meus medos, meus silêncios…

Depois bates a pata direita no chão, abaixas a cabeça por alguns instantes, como se a princesa fosse eu.

Vens comer em minhas mãos, enquanto afago teu pescoço e converso baixinho contigo sobre as flores que vês nas ravinas  e os pássaros no céu.

Enquanto mastigas, olhas-me novamente na alma, faz meu coração pulsar bem mais forte.

Beijo-te demoradamente, como se assim pudesse prolongar este momento de ternura.

Não consigo cavalgá-la, Majestade, já te falei, não mereço, mas podemos passear pela relva.

Tu a comer as graminhas novas da pastagem e eu a cantar alguma canção que fale de amor.

Depois vais dormir junto com o último raio do sol, deixando-me aqui cada vez mais apaixonada pelo teu olhar.

Boa noite, Majestade.

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