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Archive for agosto \31\UTC 2012

Sempre que leio livros como se minha alma fossem, e os leio sempre, uso um marcador imantado com a imagem do Pequeno Príncipe.

Quando interrompo a leitura, marco a página e vejo com o livro já fechado,  o rosto dessa criança que sempre habitou meus sonhos.

E ela, nesse instante, me faz pensar em um semblante que me olha de um quadro silencioso, mas que não me vê.

 

Pequeno Príncipe… o garoto que cresceu mexendo em plantas e flores e assim escolheu prosseguir por esse jardim imenso a cultivar girassóis, margaridas, rosas.

Às vezes ainda fere seus dedos em espinhos, pedras, cacos de vidro, mas nunca desiste.

Pensa em fazê-lo quando tudo se adensa ao seu redor, mas segue em frente porque sabe que a semeadura é necessária para depois poder contemplar a paz do realizado, com lucidez e amor.

 

Não desiste nunca.

Se necessário for,  o príncipe transforma-se no Cavaleiro Andante, o homem que crescido busca caminhos que o conduzam a portos em cais distantes, onde sensações verdadeiras povoam seu corpo, seus gestos, suas palavras, seus sentimentos, suas lembranças.

Depois tornar-se novamente a criança doce e silenciosa, a cultivar a vida nos canteiros de esperanças.

 

É tudo o que penso enquanto me vem à lembrança a expressão desse príncipe que me aponta trechos poéticos de incrível beleza no livro que trago sempre nas mãos.

Tudo, não. Descubro a cada palavra, a cada soluço, a cada sensação, o quanto impregnada em mim essa criança está.

 

 

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Gosto de livros novos.

Claro é que se os tenho, foram escolhidos e adquiridos depois de muita observância e prazer.

Gosto de livros novos.

Executo um ritual toda vez que tenho um em minhas mãos.

E, interessante, percebi que esse ritual não acontece em livrarias, somente quando estamos eu e a obra; já tentei, chego até o meio do caminho, mas não existe intimidade suficiente no ambiente para que possamos nos apresentar.

Aprecio a arte gráfica da capa, cores, imagens, título, altos e baixos relevos.

Leio as orelhas do livro para saber do que se trata, a biografia do autor e em seguida, a contra capa.

Aí então chega o momento que mais gosto (antes de ler, é claro).

Abro o livro em qualquer página e cheiro-o profundamente.

Profundamente… como se assim pudesse colher em mim todo o seu conteúdo e, quando o estiver lendo, apenas estarei tomando conhecimento do que dentro de mim já está; é a tinta, o papel e também um pouco do perfume da alma de seu  autor o que me embriagam tanto.

Assim permaneço por alguns instantes, olhos fechados, deixando-me invadir pelas sensações para depois, com lucidez, saborear as palavras.

Sorrio com elas, choro com elas, me emociono com elas, durmo com elas.

Às vezes sonho, às vezes me assusto com elas.

Mas é certo que, novo ou velho, quando estou lendo um livro, abraço-o como se a um grande amor.

Talvez, um dia, alguém possa ler as anotações que costumo fazer nas margens desses livros e assim saiba que aquelas palavras foram importantes para alguém que redescobriu emoções adormecidas através das emoções de outras pessoas humanamente sensíveis e inspiradoras.

Livros, meus mestres silenciosos, mas que me falam tanto à alma.

 

 

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Vermelho

 

A porta se abre

ruidosa

 

A moça entra

silenciosa

 

Masca chicletes

consulta a Internet

 

Ninguém no metrô se incomoda

com seus cabelos vermelhos

 

Apenas eu caminho sobressaltos

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Mel

para minha amiga e poeta Isabel Campos

Palavras presentes

seiva

a escorrerem pelo canto da boca

sorriso

carinho enxugando tristezas

mel

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Papai do Céu, bom dia.

Gostaria de fazer um pedido que me vai pelo coração.

Não acredito em comemorações dessas datas marcadas no calendário, quando o que acontece no comércio é maior que o valor que representam.

Mas mesmo hoje sendo uma data assim, quero fazer um pedido.

Sei que és benevolente, amigo, compreensivo… sei de todo o Teu infinito amor, mas quero pedir que cuide com muito carinho do meu papai da terra.

Vês quanta saudade tenho dele, mas consigo ficar em paz ao senti-lo nos passarinhos que vêm cantar no meu terraço, tal como ele fazia nas tardes perfumadas que ainda acontecem nas cidades do interior.

Vejo-o nas plantas, nas flores e também nos frutos, do jeitinho que ele os cultivava quando eu era pequenininha e morávamos naquela casa grande, ensolarada, com aquele flamboyant a enfeitar sua fachada.

Sabe, papai do céu, o meu papai da terra foi muito bom para mim; ensinou-me tantas coisas que guardo como preciosas, e tudo transbordou daquele coração de poeta que ele tinha.

É verdade que de vez em quando eu levava umas palmadas merecidas.

Uma vez ficamos um mês sem falar um como outro, mas não brigue com ele, está bem? fui eu quem quis assim, porque me senti muito magoada.

Depois ele reconheceu, deixou seu orgulho de lado e pediu-me desculpas, lembra-se? acho que isso também conta a seu favor.

Papai do céu, meu papai da terra gosta muito de bichos e também do mar. Por isso, quando puder, leve-o a passear pela Natureza, onde ele possa se sentir feliz, em comunhão com toda a Tua criação.

Outra coisa, meu pai gosta muito de ler,  repousar no balançar da rede, tocar violão, recitar poemas, cantar e dançar valsas; foi com ele que aprendi…

Às vezes gosta de pegar sua caixa de ferramentas para restaurar alguma coisa danificada.

Por favor, papai do céu, cuide de meu papai da terra com muito carinho; ele foi muito reprimido, maltratado e humilhado por pessoas que se achavam tão mais importantes  e inteligentes que ele e que só reconheceram seus valores quando ele já não mais estava aqui.

Na verdade, acho que poucos, poucos mesmo descobriram o porquê do meu pai ter sido por vezes tão radical.

Menos ainda conseguiram se exorcizar e perdoar suas falhas, seus erros como ser humano que foi, esquecendo-se de quantos acertos importantes e quanta riqueza de caráter, disciplina e amor proporcionou a todos a seu redor.

Na verdade, papai do céu, meu papai da terra era um menino eu diria até que ingênuo, a se debater, debater, debater entre o que buscava em seus sonhos e o que realmente vivia.

E como se não bastasse, Tu levaste para as estrelas seu grande amor. Por favor, não estou recriminado-O, apenas lembrando do quanto ele ficou sozinho…

Toda noitinha olho para o céu e vejo uma estrela muito brilhante e então meu coração me diz, Lá está o seu papai!

E quando chove e o céu fica coberto de nuvens, escuro, escuro mesmo, meu coração também me diz, Não se aflija, seu papai continua lá no mesmo lugar, embora você não consiga vê-lo.

Papai do céu cuida do meu papai da terra porque, mesmo diante da minha humana pequenez, tenho certeza de que ele merece.

Assim, sabendo-o feliz e em tão boa companhia, sentirei um tiquinho a menos de saudade, mas só um tiquinho. Quando estiver com ele, leve meu beijo.

Boa noite, Papai do céu!

Ah!… depois que eu me cobrir e fechar os olhos, por favor, abençoe meu sono, mas não apague aquela luzinha verde lá no canto, porque eu tenho medo do escuro.

Obrigada.

 

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Súplica

Por favor, Senhor, abra Tua porta para mim.

Apesar de não ter roubado quem quer que seja, não sei se mereço, mas peço.

Apesar de não ter matado nem física, mental ou moralmente alguém, mesmo assim não sei se mereço, mas peço.

Apesar de ter judiado uma vez de algumas avezinhas quando pequena e disso nunca vou me esquecer e nem me perdoar e de ter comido formigas porque minhas amiguinhas do jardim da infância diziam ser bom para a vista, alegando que nunca tinham visto uma formiga de óculos, sei que não mereço, mas peço.

Apesar de continuar cometendo pecados diversos e adversos, nunca caluniei ou difamei ninguém; não sei se por assim ser, isso possa contar como ponto a meu favor; por isso, peço.

Apesar de ter deixado dois companheiros à margem de minha vida antes que nos apunhalássemos , infeliz que fui morrendo um pouco a cada dia, e assim infelicidade causando a eles, não sei se mereço, mas peço.

Apesar de meus pais terem partido na flor da minha idade; de meu irmão, totalmente contra sua vontade, ter me deixado a falar sozinha; de meu avô continuar semeando saudade nos meus dias e nas noites também; apesar de todas essas perdas, Senhor, nunca blasfemei achando que não merecia; por isso, peço.

Apesar de tentar ser uma boa irmã, uma amiga verdadeira, uma aprendiz atenta, uma mulher silenciosa porém vívida, não sei se o sou, mas mesmo assim, peço.

Apesar de escrever fielmente o que sinto, de ser perdidamente apaixonada por livros e músicas, não sei se mereço, mas peço.

Apesar de amar o irremediável, talvez não mereça, mas peço.

Por favor, Senhor, abra a porta e deixe que eu saia.

Não consigo mais ficar trancafiada aqui neste corpo, tamanha é minha aflição.

Ou talvez eu não mereça mesmo, talvez esteja tudo de acordo com o que deve ser.

Mesmo assim, peço.

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