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Archive for novembro \28\UTC 2012

Lá vai ele atravessando a praça

de impecável preto

colarinho branco

sapatos usados a ranger caminhos

 

Entrando no templo abençoa a todos

e a mim, Miriam, em particular

quando conto-lhe os pecados que não tenho

 

Ouço sua voz profunda e pausada

dando-me por penitência

20 pai-nossos e 30 ave-marias

mas como dizer-lhe

que não sei mais rezar…

 

Eu, Miriam, que dizem ter semblante de anjo

voz de veludo, gestos singelos

ajoelho-me neste canto da igreja

em falsa humildade

aos pés deste homem filho de Deus

 

Só para admirar seu perfil

desejar sua boca

fitar seus olhos molhados

seu aceno em cruz

suas palavras de paz

que nunca consigo ouvir…

 

Deixo-me benzer por essas mãos

que tanto queria tocando meu corpo

e quando o martírio termina

e nossos olhos se cruzam

sinto o fogo do inferno incendiar-me

como a implorar-lhe que este instante seja eterno

 

Mas eu, Miriam, que dizem ter semblante de anjo

voz de veludo, gestos singelos

levanto-me e saio quase que correndo

e de imediato entro em outro templo

para confessar quatro pecados

que antes de conhecê-lo não tinha

o de mentir

o de fingir

o de desejar

e o de sonhar

 

Amém

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Liberto-os

nas ondas límpidas

assustadoramente calmas

da vida,

tu e ele

navegador e nau

 

Vendo-te partir feliz

a flutuar em águas silenciosas,

acaricio tua imagem

com minha partida

mas consciente razão

 

A vê-lo preso em torturas

e pranto

em minhas mãos

em meus beijos ardentes e irreais,

prefiro senti-lo livre

maravilhando-se com o mar

pássaros, peixes e céu sem fim

 

Liberto-te

de qualquer dor

inclusive das dores vãs

por nada haver

entre meu desejo e o teu

para que possas escolher

e não ser escolhido

por tudo e pelo nada

que nos cerca

 

Não hás de naufragar, eu sei

porque a ti acompanha meu coração

a protegê-lo mesmo à distância

em fracos pulsares

sem não mais detê-lo

 

Já não suporto a idéia

de senti-lo a se debater

entre meus dedos

 

Quero-te livre, pássaro do amor

 

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Além de guardá-lo em mim, trago-te neste instante entre minhas mãos.

As palavras correm ligeiras pelas minhas retinas e os sentimentos afloram, as lembranças voltam tão claras e nítidas como se o trem da memória estivesse passando pelas estações, pelas paisagens campestres, sob as mesmas nuvens de um dia de uma viagem interior.

Tu estás comigo e me sorris e eu te agradeço aquele momento exato em que decidiste compartilhar tua alma com a humanidade.

 

Observando tua expressão, teu meigo sorriso, tua personalidade  presente nas curvas de tuas sobrancelhas, o aceno desenhado no ar por tuas mãos, sinto-o ao mesmo tempo que frágil, um gigante a se identificar, sem temor algum, em cada vírgula ausente, em cada aspereza necessária, em cada palavra repleta de verdade.

Sinto o homem coerente e preciso e, logo em outro instante, alguns parágrafos à frente, o menino… aquele a correr pelas ruas de Azinhaga, até chegar a alguma figueira e em sua sombra descansar, sorrindo das imagens desenhadas nas nuvens, a sentir o cheiro do mato misturado ao da saudade.

 

Trago-te em minhas mãos (e sempre estou mais perto de ti  quando se aproxima a data de teu aniversário – tu me atrais) e, em uma página de número qualquer, identifico-me tanto com tuas palavras, essas que fazem meu coração se agitar, como se minhas fossem (perdoe-me a ousadia…)

 

“Sou um camponês que se disfarça suficientemente bem para poder viver na cidade sem olharem muito para mim”.

 

Faz-me lembrar daquela que fui quando um dia da cidade do interior aqui cheguei e da que agora sou, vivendo em um mundo que nunca pensei.

 

Hoje, na véspera de teu aniversário, arrumo minhas malas para resgatar em mim, mais uma vez, essa que encontrei em tuas palavras… mas antes de ir quero aqui deixar a teus pés, aquela parte do meu coração, da minha razão e do meu amor, aquela parte que pulsa somente por aqueles que, como tu, dão sentido à minha vida.

Tu que trazes no nome, o nome de uma planta que serve de alimento para os pobres em tempos difíceis; tal como vivemos agora, digo eu, pobres da verdadeira cultura em tempos de valores distorcidos.

Aqueles poucos, como tu, eternos.

De tua aprendiz,

Isabel

 

 

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Debruçada na janela

sinto o tempo

voa o vento

 

No coração

amor incessante

como flor amarela, constante

 

Nos lábios quase selados

teu nome, meu pecado

só meu anjo pôde ouvir

 

Nas asas do tempo

esse amor é assim

sem destino

 

Por isso

saudade

invento

 

 

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