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Archive for março \31\UTC 2013

Renovação

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Passa-me diante dos olhos as aulas de artes manuais do colégio em época de páscoa.

Desenhávamos nossos coelhinhos, recortávamos e pintávamos; às vezes colocávamos bigodes de gato, de rato, menos de coelho.

E por falar em rato, ríamos muito de minha irmã Rosa quando pegava na tesoura; parecia que sua mão tinha dedos a mais, pois segurava tudo tão torto, fazendo caminho de rato nos recortes, nos tecidos, nos papéis.

Voltando às aulas.

Coelhos desenhados, recortados e pintados.

Fazíamos então seus dois cestinhos, um para cada mão, onde colocaríamos os ovinhos.

Bem, os ovos eram primeiro cozidos, depois mergulhados e água fria e descansavam alguns minutos no congelador (àquela época não havia freezer).

Depois pintávamos um por um, com cores fortes em desenhos feitos por minha mãe; ficava uma verdadeira obra de arte… de criança.

Justamente nesse ponto é que dava um nó na minha cabeça.

Primeiro, por que os coelhos usavam roupas como gente?

Segundo, por que pegavam cestos nas mãos se, na verdade, tinham patas?

Terceiro, por que ovos de galinha?

Quarto, por que ovos se coelho não bota?

Quinto, por que ovos de chocolate?

Sexto, sétimo, por que, oitavo, por que, por que…

As freiras não ligavam para minhas dúvidas infantis e assim, toda páscoa, eu fazia enfeites que não entendia.

Perguntava a meu pai que, muito católico, me explicava somente o sentido religioso e eu continuava não sabendo sobre coelhos e ovos.

Ia atrás de minha mãe que interrompia sua história a cada um que entrava na sala.

Minhas irmãs diziam simplesmente que eram ovos deliciosos e isso era muito bom!

Vovô pegou-me pelas mãos, levou-me para seu quarto e contou-me a historia dos coelhos e dos ovos, que gosto tanto de recordar, desse dia e da mulher que tinha muitos filhos e não podia presenteá-los por ocasião dessa festa.

Quando as crianças foram dormir e ela preparava sua marmita para o dia seguinte, a idéia veio num estalar de dedos, ou melhor, no estalar do ovo na frigideira.

Era isso mesmo! Cozinharia os ovos e depois de frios, os pintaria com cores vivas, atraentes.

Pegou uma cesta e forrou-a com um tecido bonito, depositando lá os ovos.

Mas… aonde os guardaria para que as crianças não vissem antes da hora… Já sei, pensou ela, Vou deixar no jardim entre as flores que nascem perto da cerca.

Quando os filhos acordaram, a mãe disse haver um presente escondido para cada um deles, ao que saíram em busca imediatamente.

Quando já haviam vasculhado toda a casa, saíram para quintal e depois para o jardim.

Pois justo nesse instante dois coelhinhos que estavam perto da cesta, saltaram e correram assustados.

E as crianças, olhos brilhando e cesta nas mãos, correram contar para a mãe, mostrando-lhe os ovos coloridos que os coelhinhos haviam trazido para eles de presente.

Por que conto essa história?

Prefiro-a a dizer palavras de renascimento e esperanças de vida… palavras que não fazem mais sentido no contexto grotesco em que estamos vivendo, sentimentos que não existem mais.

Para o adulto basta ver a criança com a boca lambuzada de chocolate.

Para a criança basta ver o adulto comprando.

Vovô querido, obrigada por me ajudar a manter essa criança em mim e por esse lindo momento que ficará sempre gravado com muito amor no meu coração; relembrá-lo me faz renascer.

E para você que me lê e que, apesar de tudo, acredita em renovação, desejo Feliz Páscoa e que cada momento seja de descoberta, reconhecimento, luz.

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Acompanhei Aurora até sua igreja de devoção.

Enquanto ela se recolhia interiormente eu olhava os vitrais, os mosaicos, os fiéis, os altares.

Gosto de igrejas, gosto do silêncio das igrejas, da igreja incensada, da igreja iluminada pela luz sutil que costumo chamar de paz.

 

Desejei bom dia a Jesus e fiquei observando as imagens.

Todas cobertas com tecidos roxo.

Perguntei-me qual seria a razão.

Sei que cobrem os santos da quaresma à ressurreição, mas me esqueci a razão.

Nem parece que estudou em colégio de freiras, diriam minhas irmãs, mas aposto que elas não se lembram também.

Olhei cada imagem, uma por uma, grandes, pequenas, largas, estreitas; aquela que foi coberta às pressas com o tecido por um fio para cair; a outra tão bem coberta que me deu até falta de ar.

Todas as Nossas Senhoras e Jesus também estavam cobertos.

 

Pensamentos assaltaram-me.

Será que as imagens estão dormindo debaixo dos tecidos?

Será que estão se escondendo das pessoas que só se lastimam de suas dores do corpo e da alma, principalmente do corpo?

Será que se cansaram de esperar um agradecimento, um Bom dia Santo Antonio, ao invés de ficarem pedindo marido, pedindo, pedindo, para depois voltarem ali para reclamarem dos mesmos?

Parece que estou vendo São Camilo falar a São José, por debaixo dos panos, Arre, José, que a quaresma enfim chegou! poderemos descansar um pouco, que alívio! Precisam aprender a agradecer mais, que pedir tanto! revida São Camilo.

Será que à noite, com a igreja vazia e silenciosa, retiram os tecidos para poderem se sentar, tirar suas sandálias, trocar impressões e respirar melhor?

Ou será que anseiam por uma esponja molhada em um delicioso sabonete, a tirar-lhes a poeira?

 

Foi quando novamente olhei para o altar principal.

Os anjos que o ladeavam eram as únicas imagens que não estavam cobertas.

Que interessante… os dos outros altares laterais também não.

Os anjos não dormem.

Os anjos permanecem de olhos e corações atentos.

Os anjos têm uma espada na mão e na outra, um carinho.

 

Faça uma prece por aqueles que repetem e repetem e repetem orações sem senti-las, sem prestar a atenção no que falam, disse-me Jesus.

E como fiquei meio assustada por ele me enxergar mesmo coberto, para amenizar acrescentou, Seu anjo estará sempre com você.

Que sorte a minha! disse eu em voz alta, escapando-me pela boca o pensamento.

 

Aurora que já se benzia para sair, perguntou-me a razão daquelas palavras, ao que respondi, Tivemos muita sorte de nossos anjos de guarda não estarem dormindo.

Ela me olhou pelo canto dos olhos, por certo achando que eu havia tomado muito sol na cabeça.

Mas como ela é muito discreta, calou-se.

E assim seguimos, cada qual protegida por seu anjo guardião.

Sorte a  nossa!

Mas… Jesus, ainda não consegui me lembrar porque é que se cobre os santos…

 

 

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Incomoda-me demais

crianças que sofrem física e emocionalmente

Incomoda-me demais

animais que são maltratados

Incomoda-me demais

idosos que são agredidos

Incomoda-me demais

jovens que são mortos à revelia

Incomoda-me demais

meninas que se vendem nas esquinas

Incomoda-me demais

gangues, torcidas, traficantes

Incomoda-me demais

corrupção social, política, religiosa

Incomoda-me demais

músicas e letras medíocres

Incomoda-me demais

gritos, brigas, discussões infindas

Incomoda-me demais

ver um livro estraçalhado rolando pela rua

 

O que me faz concluir

que estou fora de lugar porque

o que não me incomoda

são encantamentos que não existem mais

 

 

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