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Archive for abril \30\UTC 2013

cara_fantasma11

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Fugi para o sítio.

Queria ficar longe desta lama que cada vez mais se avoluma debaixo de nossos pés.

Pensei que se lá eu passasse alguns dias, conseguiria ouvir meu coração falando sentimentos que, no meio desta borbulhante loucura, não consigo mais ouvir.

Mas foi pura ilusão, ingenuidade, bobagens da minha cabeça.

A lama também foi grudada nos pneus do carro, nos sapatos, nos assombros, na pele.

Na primeira noite desmaiei quando me deitei, de tão estressada que estava.

Da segunda noite em diante, não dormi mais.

Como me entregar ao voo dos pássaros, ao som da mata, à serenidade do rio, ao namoro dos sapos à noite na beira da lagoa repleta de pirilampos, ao encantamento de um céu estrelado como sorrisos de mil anjos, ao perfume das flores… como?

O que invade minha mente é o cheiro da lama, são as faces de gestos corruptos que constroem esta fétida podridão.

Os fantasmas me assaltam, são mais fortes que a própria Natureza que me cerca.

O fantasma blindado de Rosemary Noronha, que mostra em seu sorriso o orgulho desavergonhado de ter sido o que nunca será: uma rainha de verdadeira classe, educação, delicadeza e dignidade.

O fantasma em prisão domiciliar de Sérgio Gadelha, pego em flagrante pelo assassinato brutal de Hiromi Sato.

O fantasma do homem de Goiás, que deu dois tiros (um na cabeça e outro na perna) de uma menina de onze anos que correu em defesa do pai (ambos com passagens na polícia) e que, depois de ter alegado legítima defesa, foi posto em liberdade.

Os fantasmas dos delinquentes, vândalos que atearam fogo à dentista Cinthya Magaly Moutinho de Souza, só porque essa mulher batalhadora tinha apenas trinta reais em sua conta bancária.

Os fantasmas dos réus e componentes (não posso escrever o substantivo que acho cabível) do PT, querendo passar por cima da Constituição, pretendendo um poder maior que o do Supremo Tribunal da Justiça; acho que desconhecem o significado de tudo o que diz respeito à ética, moral e honra.

Penso que, se convocado, nem Odin daria conta de tanta prepotência divinizada, sim, pelos fanáticos que ainda não conseguiram enxergar um palmo à frente de seus narizes.

O fantasma do imposto de renda que nunca vemos sua aplicabilidade, como com todos os outros impostos.

Meu afilhadinho convidou-me para assistir O Home de Ferro 3, em 3D, mas fiquei com medo de identificar algumas figuras blindadas vindo em minha direção, como acontece todos os dias, todos os dias, todos os dias, sem falhar um.

Assim encerramos o mês de abril, um mês que guardo como especial para mim, em que me sinto em completa comunhão com a Natureza.

E me pergunto, O que nos aguarda o mês de maio?

Faço apenas um apelo, Por favor, encarcerem-me em algum lugar possível; não quero mais ficar chafurdando nesta lama.

Preciso de sol e alguns sonhos, senão sei que meu coração vai desistir.

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Me encontravas, mãe querida, quando ainda pequena, de joelhos aos pés de minha cama a rezar.

Achavas bonito e terno, eu sei, e corrias a chamar e a pegar meu pai pelas mãos, para que ele visse também.

E juntos, à entrada do quarto, abraçavam-se enternecidos pelo meu gesto.

Quem sabe até agradeciam por aquele momento sublime, intimista, de elevação espiritual.

 

Mas o que não sabias, minha mãe, é que todas as noites eu pedia a Deus para morrer antes da senhora e meu pai, porque eu não suportaria, não suportaria tanta ausência.

 

Um dia, agoniada com essa possibilidade, fui me aconchegando ao vovô e contei-lhe da minha aflição, Estou errada, vovô, estou?

Ele olhou-me nos olhos com olhos de doçura e, com serenidade na voz e nos gestos, falou-me, O que você acha que é pior, um filho perder seus pais que já viveram uma parte de suas vidas,  ou os pais perderem esse filho que mamãe sentiu no ventre e que, junto, papai viu nascer e crescer a cada momento de sua vidinha?

A partir desse dia, minha mãe, não fiz mais meu pedido a Deus, embora deixasse claro a minha incapacidade de sobreviver.

 

Hoje, para mim, continua sendo a data de teu aniversário e com certeza, minha mãe, aonde eu estivesse, correria para teus braços, teu calor, teu beijo doce, teu riso contagiante, tua voz a dizer meu nome com carinho (ainda guardo em mim o timbre de tua voz…), para entregar-te esta flor da cor que tanto gostavas.

Com a mesma certeza, escreveria um cartão repleto de palavras de eterno amor, colocando dentro dele, mais uma vez, o que já era tua: minha razão de viver!

 

Deus não me ouviu, eu sei.

Talvez, enquanto eu ainda pedia, naquele horário já estivesse dormindo ou contando histórias para os anjos.

Sei também que hoje és um de seus anjos a me proteger e a todos os seus filhos, mas… o que faço, minha mãe, assim de mãos vazias, sentindo essa insuportável e insustentável saudade?

 

 

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Tenho um fato na infância relacionado a um carneiro.

Passado tanto tempo, não consegui até hoje escrever sobre ele.

Mora dentro de mim, como um carinho inacabado, uma saudade eterna, um amor rompido.

Todo o seu desenrolar, suas imagens, permanecem trancadas em mim.

Talvez seja o único trauma que carrego desta vida.

Gostaria de libertar-me um pouco dessa dor, mas não há caminho.

Além de meus irmãos, são pouquíssimas as pessoas que a conhecem e muito superficialmente.

Procurando fotos antigas, a história despertou em minha mente.

E meu coração apertou-se mais uma vez.

 

Rabisquei, antes de morrer novamente, algumas linhas para meu pequeno e inesquecível carneirinho.

Ele merece mais, eu sei, muito mais, mas é maior do que eu.

 

  

  

Por que sangram carneiros

criaturas de imensa doçura

e fragilidades

 

De suas lãs, o calor

de seus balidos, o murmúrio poente

de seus olhos marejados, só amor

 

Por que sangram carneiros

se apenas o que pedem

é um pouco de carinho…

 

 

 

 

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Trapos

 

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Se as dores miúdas da vida

vão sendo costuradas pelo tempo

é por isso que se morre toda enrugada?

 

E a falta de movimentos

quando falta

a falta de dentes

quando falta

e a falta de brilho nos olhos

quando falta

significam cortes

impossíveis de cerzimento?

 

E o que é um último aceno

senão a provocação da pequena brisa

espantando sombras desamores

e filhos inexistentes

que te rondaram por toda uma vida?

 

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