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Archive for maio \27\UTC 2013

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Às vezes ouço ruídos que outrora ouvia na casa da minha infância.

Ruídos sutis que por tantos anos ouvi, como se fizessem parte da estrutura da casa, dos móveis, das pessoas, das plantas e dos pássaros.

  

Às vezes  admiro-me de senti-los e, de imediato, ser levada por eles àquela casa que não existe mais.

Apenas dentro de mim.

Apenas como sensação, mas tão vívida que consigo, em segundos, estar no meio da sala, naquela tênue luz de fim de tarde a tocar-me suavemente a face.

O silêncio da noite chegando, os quadros me acompanhando com os olhos quando lentamente movia-me entre eles.

A sensação provocada pelo riso ao longe de minha mãe, pela voz de meu pai a cantar…

 

Como é possível sentir as mesmas sensações após tantos anos?

Cerro os olhos e sinto no ar, no silêncio… pequenos ruídos que vão aflorando na pele, com uma carícia, mais que uma lembrança, quase como um toque…

 

Fico pensando se isso ocorre também com outras pessoas de forma tão nítida ou sou eu que, fugindo constantemente do presente, refugio-me naquela que fui.

 

Acabei de ouvir um outro ruído e já não sei se estou aqui ou estou lá.

Já não sei qual de nós duas está a escrever e qual está a sentir.

 

 

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Ser II


buraco_negro1

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Ando

pela casa escura

como se cega fosse

do corpo e da alma

 

Tateio paredes

quadros antigos

móveis lanhados

o negro vazio

 

É quando me invade

o medo

tirano

e descubro que nada sou

 

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Pedras brutas

brilhantes de chuva

da madrugada ao amanhecer

 

Escorregadias

como os açoites nas costas

de cada negro acorrentado

 

Ouço em mim

os cascos dos cavalos

tropeçando contorcendo-se

em seus vãos

 

Sinto dor frio fome

no entanto nada valem

perto das caravanas

que aqui passaram

 

Por um momento

voltando-me para onde meus passos me levam

deparo-me com aquela pousada

onde deitávamos nossas tristezas

  

Lágrimas misturam-se

com chuva e gritos

escondo-me, na porta da igreja,

das nossas descobertas doloridas

aqui em Paraty

 

Seguindo trilhas de escravos

até o forte até o canhão

até aonde diziam defender esta pátria

mas que matavam braços fortes de trabalho

com seus duros corações

 

Pedras brutas

brutos homens

que brincavam de paz

 

 

 

 

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Mãe

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h e m.

Porque choras, criança?

carregas em teus gestos

uma porção de coisas cheias de dor

 

Deixa que eu te embale em meus braços

nestes braços que nunca estreitou um filho

mas que sabem se fazer de carinhos

 

Olha para mim, criança

vês que mesmo tendo os olhos marejados

coração flechado

é possível se sonhar

 

Deixa que eu toque em teu corpo

beije teus cabelos

afague tua alma

 

Se preciso for, choro contigo

se preciso for, morro contigo

se preciso for, sempre contigo

 

Deixa que seja preciso, criança

prometo depois de amá-lo

adormecê-lo em paz

 

 

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