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Archive for julho \31\UTC 2013

Templo

vermelho e branco

Quando a rubra moça

saiu da igreja

chovia

breviário junto ao peito

olhos baixos

apenas o farfalhar da saia

em volta do corpo ouvia

 

Chovia no tempo

nas incertezas

dos pensamentos sensações

dos passos a dar

 

Sabia que seu templo

ruiria ao mais brando vento

areia movediça

malícia

 

Mas o rapaz é tão doce

cabelos como de anjos

brilhantes como sol a pino

de mãos suaves e mornas

não consegue deixar de fitá-lo

 

 

Pensou com assombro,

Deus é injusto comigo

como pode querer para seus serviços

somente para seus serviços

esse anjo que por certo

no silêncio da noite

despe suas asas

e dorme nu

 

A rubra moça tropeça numa poça d’água

molha os pés molha as roupas

molha os olhos

molha-se nas imaginações…

imediatamente se redimi,

Perdão, Senhor

 

 

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 .

Hoje, não.

Hoje não quero pentear tristezas

pintar trêmula boca

roer unhas cansadas

 

Hoje, não.

Hoje não quero objetos perdidos

compasso sem ponta

espinho sem flor

 

Hoje, não.

Hoje não quero morrer instantes

roupas puídas

gestos cortantes

 

Hoje, não.

Hoje não quero ver esta face

corroída no espelho do tempo

eterno inverno

 

Hoje quero cantar

dançar minha alma

escrever cartas

lembranças sem medos

 

Hoje quero me ver

prazer presente

um presente qualquer

prazer

 

Hoje quero encontrar-me

saltando do canto

do encanto do olhar

e do riso que me tece

 

Hoje quero que seja esta a que me despe

 

 

 

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Em Vão

.

Roubas-me o sono

a sede

o riso

 

Roubas-me os passos

a cisma

o soluço

 

Roubas-me o ar

o balão

a vida

 

Como se tudo fosse

um voo estreito

ao rés do chão

 

 

 

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Nelson Mandela.

Quero hoje conversar um pouco contigo, dia de teu aniversário.

Não só para comemorar esta data, mas por todas as que, com paciência e perseverança que só os sábios têm, continuas construindo a história de um povo, a história da evolução da humanidade, como um grande exemplo àqueles que querem decidir o rumo dos tempos pela força, corrupção e injustiças desregradas.

Mais que um exemplo, uma profunda reflexão sobre a vontade de proporcionar a seu semelhante uma visão real e melhor do que é possível viver.

 

Quantas amarguras, dores, humilhações, privações se esconderam por detrás do teu sorriso… um sorriso doce, sereno, olhar no horizonte enxergando longe, gravado nele todos os momentos de aflição, de conflitos, de solidão.

Por certo, em algum momento contigo mesmo, pensaste em desistir, mas não deixou se levar pelo instante, pequeno instante de fraqueza.

Tinhas a convicta certeza de que depois de tanto tempo, de tantos percalços, as portas se abririam, aquelas que fechadas a corrente estavam, vigiadas sempre com uma arma em punho.

Como se tua doçura precisasse de todo esse aparato… na verdade, os que te cercavam é que precisavam do teu respirar, pensar, sentir e agir.

 

E a palavra liberdade deixou de ser uma palavra, para morar nos lábios dos que te amam, apesar dela já existir há muito em teu coração, mesmo que ainda atrás das grades; já respiravas e vislumbravas teus sonhos acontecendo, primeiro no alívio e depois no grito reprimido no peito de cada compatriota, de cada pedacinho do sonho teu.

 

Hoje passas privações de tantas coisas materiais que afetam tua saúde, mas teu espírito está tranquilo pois já cumpriste tua tarefa para com a humanidade.

E mesmo desse hospital onde estás e com todas as dificuldades que isso implica, podes ver as homenagens que te fazem, não só hoje, repito, mas todos os dias das vidas para as quais estendes ainda e sempre tua alma generosa.

Cada dia vivido de cada pessoa que acreditou na tua luta é o presente que continuas a receber da própria vida; afinal, nos tempos de hoje já não mais encontramos alguém com tua coragem em deixar para trás os momentos ruins e difíceis acontecidos, para vivenciar plenamente esse grito de liberdade e amor.

 

Para mim tu és, sem dúvida alguma, o ser humano mais admirável dos nossos tempos e sinto-me privilegiada em poder estar viva na mesma época em que disseminaste tua vida em cada vida, não só na África, mas no coração da humanidade.

Obrigada Mandela, tu és um espírito de Luz e Amor.

 

 

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Secret_Garden.

Diana queria tanto trazê-lo à sua vida ensolarada.

Principalmente quando via os olhos de Antonio turvados e sua face inescrutável, como sombra perdida na escuridão.

 

Diana sabia que lhe  doía a alma, mas mesmo sendo profunda essa cicatriz, mesmo sendo essa a profunda tristeza, Antonio não conseguia roubar a vontade que Diana sentia em vê-lo em pleno dia de muita luz.

Antonio sorriria um pouco, ainda que não fosse para ela, mas se a visse sorrir, Diana apostava que Antonio sentaria entre as flores no canteiro do jardim e cantaria uma de suas canções prediletas, aquela que só os pássaros cantam e que só os anjos entendem.

 

Ainda sorrindo, mesmo que silenciosa, Diana o pegaria pelas mãos e o levaria até a soleira da porta da casa onde ela deixara seu coração, daquela onde sempre está a pular corda e amarelinha, no compasso dos passos de Antonio.

 E lá Diana o entregaria definitivamente ao sol, talvez compreendendo  que o que já havia vivido bastasse para que, mesmo sozinha, sua vida continuasse sendo plenamente ensolarada pela lembrança de Antonio.

Afinal, não é assim que as imagens são guardadas dentro de cada um de nós, perguntou Diana a si mesma, enquanto virava a esquina, sem antes deixar de ver Antonio conversando com um esquilo de olhos brilhantes que lhe oferecia uma noz.

 

E Diana seguiu mais sozinha que nunca, levando em seu peito um vazio frio, calado, profundamente molhado de emoções tão fortes, de adeus.

Seguia quase que em transe, trôpega, com palavras costuradas na boca, porém com uma leveza assustadora no corpo e tudo porque, com seu gesto, estendeu a Antonio o pouco de paz que ainda havia dentro de seu coração.

A dor, a dor, ah! dor…

  

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.

.

Castelos

gélidos

  

A cada passo

sombras movediças

a cada degrau

gemidos

  

Quadros que olham

 que zombam

sussurram

  

Atrás de cada porta

um incesto

demônios extasiados

em gozos sem cor

  

Atrás de cada grade

um calabouço

em cada porão

instrumentos polidos

tortura

  

Em todas as noites

urros lacerados

morte lenta

  

E quando o dia traz à luz

janelas escancaradas

não há como acreditar

que ainda exista

atrás de cada cortina

um punhal

 

 

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