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Archive for outubro \29\UTC 2013

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Não suporta meu pranto, mas me faz chorar.

De alegria, de tristeza, de pura emoção.

 

Não me abandona, mas me deixa só.

No silêncio eterno de um segundo, na desesperança de um olhar, no gesto impossível.

 

Não se descuida do meu rumo, mas me esquece.

Na cama, na rua, no balanço cadenciado da rede, em um canto de sofá.

 

Não suporta sentir saudade, mas se ausenta.

E volta só na lua cheia, nas pétalas da flor que ainda não se abriu, na estrela distante.

 

Não me aprisiona, mas me assalta.

Nos sonhos, na imaginação, nos devaneios.

 

E, no entanto, eu o invado e ele permite.

Minuciosa e cuidadosamente, em todos os seus segredos, em cada ponto, em cada contorno, esconderijos.

E ele se abre, quieto e abnegado, se entrega e suspira entre meus dedos, meus olhos, meus murmúrios.

Pouco falo com ele porque é ele quem conta tudo para mim.

 

O que importa mesmo é que nos amamos.

Muito, sempre.

Quando, por alguma razão, eu o acaricio ternamente, e sempre o faço, sinto-o como um pedaço de mim, minha luz, minhas descobertas, minhas fantasias, meu eterno querer sonhar.

Meu ar.

 

 

Te homenageio hoje e sempre, a cada emoção meu querido amigo, que me faz crescer e tentar entender outros universos, outras buscas, outras origens.

À você, meu amigo inseparável que atende pelo nome de LIVRO, meu amor eterno.

 

 

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Pintura

pintura 4

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Brota de minhas mãos

como águas brotam de fontes

uma boca vermelha

a falar de beijos ardentes

 

Brotam olhos sensuais

riso meio doce

o outro meio, meio ausente

cabelos fartos

jogados para trás dos ventos

 

Pinto em minhas mãos

teu nome

que rabisco na pele

para que eu possa senti-lo

mais presente

 

E também um ai! de saudade

junto a um sol de fim de tarde

mina um aceno de esperança

aceno de minhas mãos

 

Só não sei pintar o amor

porque este não quer sair

do meu corpo para a tela

quer morar em mim

não nela

 

  

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vô Ico                                                                           foto do neto Pedro N. Falseti
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Depois de 97 anos “Seu” Ico resolveu passear em um jardim ensolarado onde flores encantam os olhos de quem as vê e onde pássaros cantam canções que tocam ao coração. Um jardim que é aberto a todos, mas em momento certo.

Sabia que lá encontraria sua amada Euvira e de seu filho Paulo.

Por certo vão sentar-se em um banco gostoso, à sombra de uma árvore frondosa, contando as novidades mundanas e divinas.

 

“Seu” Ico deixou atrás de si um rastro de lembranças que reavivam neste instante, junto ao amor transbordante que sentia ao reunir filhos, noras e netos ao seu redor.

Sempre observei em seus olhos um brilho intenso que vi somente nos olhos de meu pai; um brilho quase que ingênuo, de uma felicidade plena, mágica.

 

Vamos jogar? era o convite que “Seu” Ico fazia a quem por ele cruzasse.

Lembro-me que uma vez ofereci a ele um baralho novinho em folha, que uma amiga havia me presenteado mandando gravar meu nome em cada carta.

Mas as cartas têm meu nome, “Seu” Ico, eu dizia, Não faz mal, eu aceito, respondia.

Ele ficou muito contente e quando vinha visitar seu filho, meu cunhado, eu perguntava, E aí, “Seu” Ico…está gostando do baralho? ao que ele respondia, Aquele está guardadinho, não deixo ninguém pegar!

 

Lembro-me também de um domingo em que fui almoçar na casa de minha irmã e “Seu” Ico estava lá.

Passado um tempo chamou-me a um canto e disse que ficou sabendo que eu estava morando junto a um companheiro.

E com aquele cuidado de “pai para com a filha” disse-me, Esse moço não é para você; você merece muito mais!

Respeitei sua colocação, mas mostrei-me espantada porque “Seu” Ico nem o conhecia pessoalmente.

Hoje sei que demorei quatro anos para enxergar o que ele enxergou em tão curto tempo.

 

“Seu” Ico, o homem de mãos mágicas, que colocava ossos, nervos e músculos no lugar, num piscar de olhos; nunca estudou anatomia, mas conhecia o corpo humano como ninguém.

E aí, filho, você está bem agora? dizia a um deles, quando colocava sua coluna no lugar.

E não se vangloriava por isso; modesto, demonstrava apenas aquele sorriso de satisfação por ter proporcionado algo de bom a quem quer que precisasse de seus cuidados.

 

Gostava de ganhar presentes e os guardava com carinho.

Gostava das delícias que minha irmã fazia especialmente para ele.

Gostava de cantar e ouvir seus filhos cantando modas de viola, músicas de amor e de saudade.

Gostava de pescar, mas não levava as noras junto; dizia que elas espantavam os peixes de tanto que falavam!

Ah! quase que me esqueço, gostava, não, adorava jogar buraco; as cartas escorriam por seus dedos e ai daquele que ousasse ganhar dele!

 

Tive uma reação atípica no momento em que recebi essa notícia triste.

Costumo parar com a atividade que estou fazendo, concentrando-me em prece.

Pois nesse momento veio à tona as passagens que compartilhei com a família, mas não agi como faço normalmente.

Estranhei-me e tentei entender o por quê. É como se “Seu” Ico não necessitasse de preces, de pedidos, de amparo; sentia-o fazendo parte dos anjos que são amparados por suas próprias asas tão leves, voando diretamente aos céus.

 

Já tarde, deitada no escuro e no silêncio da noite, veio-me uma imagem: a de “Seu” Ico chegando ao céu e, no portal de entrada, com o chapéu na mão, brilho nos olhos, alegria nas faces, encontra com Pedro, contrito, com seu cinturão trazendo várias chaves, inclusive a do céu.

“Seu” Ico sorri docemente e diz a Pedro, Vamos jogar? ao que o santo responde, Agora não posso Ico, estou de plantão, mas encontrará muitos parceiros por aqui! Então dá licença que vou entrar, diz “Seu” Ico, misturando-se entre os anjos, santos e alguns recém chegados como ele.

 

Segunda feira fui com minha amiga até a igreja das almas.

Lá acendi uma vela para ele, mesmo sentindo que “Seu” Ico não precisava.

Mas acendi, somente para que sua luz brilhasse ainda mais.

 

 

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