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Archive for outubro \27\UTC 2014

 

 

Sou uma pessoa privilegiada, em todos os sentidos.

Criada no interior, sei o que é brincar em um vasto quintal repleto de frutas, plantas e flores, com muito sol e também com chuva (que era quando afloravam as mais deliciosas traquinagens).

Criada convivendo com meus três professores prediletos (mamãe, papai e vovô) que nos auxiliavam quando das dúvidas ou curiosidades.

Quantas coleções ilustradas tivemos! Até hoje me lembro d’O Mundo da Criança e suas histórias fantásticas, Reinações de Narizinho, O Mundo Animal e, mais tarde, a coleção feita por meu irmão João, A História da Arte.

Mais tarde partimos para a leitura dos filósofos, na biblioteca de meu avô e, também buscamos o divino na biblioteca de meu pai, onde nos entretínhamos com a vida dos santos (sem quase nada entender).

Às vezes pedíamos para meu pai que nos contasse histórias “de medo” e depois minha mãe se zangava porque demorávamos para dormir.

Aprendi Francês com 11 anos e Inglês com 13, no colégio que estudei (hoje as crianças mal escrevem em Português…)

Nunca esquecerei da aula com a mestra Maria Lúcia Barbim, em que aprendi a redigir primeiro um bilhete, depois um comunicado seguido de uma carta e, por fim, uma redação (obrigada, mestra!)

 

Cresci ouvindo meu avô ao violino que me parecia mágico, minha mãe em um piano que transbordava amor e meu pai ao violão, em eterna saudade e melancolia (optei por aprender violão).

Cresci vendo meu avô a cantar com as netas e minha mãe nos braços de meu pai, a rodopiar pela sala.

 

Cresci feliz, brincando (e às vezes brigando) com mais quatro irmãos, onde o mais velho mandava no mais novo e, o mais novo era, como se diz, paparicado por todos (até hoje alguns de nós continuam assim, brincando de mandar no outro, sem se dar conta do tempo que passou…)

Divergências até hoje existem (somos normais), mas também o que nos unia àquela época, até hoje perdura: amor.

 

Aprendi valores ímpares, pilares que sustentam minha vida, pelas palavras e exemplos que observei em meus familiares; só para citar alguns, respeito, honestidade, perseverança, amizade, bondade (e, particularmente, aprendi com todos a sonhar!)

 

Cresci em contato com animais (em casa, na casa de amigos, ou no sítio do avô (Lumina) de meus primos) e fico sentindo um vazio e tristeza pelas crianças que só os conhecem através de bonequinhos, figuras de revistas ou pela tv

 

Cresci em um tempo onde lama era uma mistura de água e muita terra, onde somente porcos (os animais) chafurdavam o dia inteiro, não se incomodando com nada ao redor.

 

Cresci em um tempo onde nossa saúde era cuidada com muito carinho; por isso, a abundância (em qualidade) em frutos, alimentos, higiene, água.

 

Cresci em um tempo que se ria por bobagens, um riso frouxo, puro, cristalino, porque se gostava de rir simplesmente.

Ríamos à toa e tanto que uma de nós chegava até a fazer xixi na calcinha! (conto a intimidade, mas não conto quem era!)

 

Aprendi a gostar de bons filmes (éramos cinéfilos, todos!) o que me é permitido até hoje, digamos, saboreá-los, de tanto prazer que ainda me trazem.

 

Cresci em um tempo onde passávamos com muito medo diante da cadeia da cidade, com aqueles homens pendurados naquelas janelinhas gradeadas olhando para o nada (hoje andam entre nós).

 

Aprendi a cultivar amigos que presentes estão em minha vida da mesma forma como estou aberta para eles, a qualquer momento que de mim precisem; são poucos (conto nos dedos de uma só mão), mas são pessoas das quais me orgulho em ser amiga.

 

Aprendi (mas não muito) a ter paciência com os prepotentes, mas aprendi também a “levantar o nariz” para os imprudentes, invasivos e ingratos (afinal tenho muitos defeitos, você nem imagina!)

 

Aprendi a amar, a chorar, a cantar, a escrever, a observar, a buscar (sem às vezes encontrar)

 

Cresci, aprendi, descobri, perdi, ganhei e aqui estou.

Com medo de desaprender tudo o que até agora entendi como sendo o melhor.

 

Foi assim que acordei nesta manhã.

Lembrando-me de todos esses momentos e também do sonho que tive (e que depois entendi o por quê).

Me vi toda paramentada em uma cerimônia oriental (japonesa, talvez) que transcorria com muito respeito, disciplina, cuidado, responsabilidade, concentração, harmonia, alegria.

Passado um tempo entendi que, unica e exclusivamente por culpa de tudo o que tive (é verdade!) hoje sinto-me um peixe fora d’água, que pulou para a margem e morre lentamente de sede, sede de tudo o que tive um dia.

Sim, hoje, quando o povo resolveu continuar dormindo em berço esplêndido.

 

Sou uma pessoa privilegiada, para quê mesmo?!?

 

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