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Archive for novembro \30\UTC 2015

Ao Entardecer

rosa e piano

 

 

No dedilhar das teclas do piano

te encontro criança

te encontro mulher

 

Trazes junto com os sons

vozes ausentes

mas nunca esquecidas

 

Trazes momentos que mostram,

como espelhos,

a infância vivida a cada instante

e que hoje chama-se lembrança

 

Mostras a mulher que descobriu a si mesma

que se entregou a cada sentido

a cada carinho

à descoberta de que a vida não é

apenas uma rosa, como tu,

mas que os espinhos existem

para que a dor não chegue ainda mais perto

 

Trazes passado e presente de mãos dadas

como crianças

a brincarem de roda em uma tarde de sol

na calçada de um lugar

que ainda mora dentro de ti

 

No dedilhar das teclas

a mágica de ser

e sonhar

 para minha irmã Rosa

 

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Saramago

 

Lendo matérias referentes às fatalidades acontecidas nos últimos dias e tendo em mãos o livro que foi publicado após a morte de José Saramago (organizado e selecionado por Fernando Gómez Aguilera), deparo-me com o capítulo sobre Ética.

Falta-me o chão, o ar, e um vazio imenso me faz sentir saudade de meu lar que não sei exatamente onde fica, mas que sei não ser esta cidade, este país, este planeta…

E à medida em que vou absorvendo tuas palavras, Mestre Saramago, menos entendo o por quê de teres sido tão criticado, pois se foste ateu, o que isso importa vendo (e lendo em teus livros e em fatos vividos) o quanto foste humano e quantos crentes de tantas religiões hoje são desumanos com a própria raça, abrindo os portais mais sórdidos e mais escuros de seus impulsos inferiores.

Hoje, dia em que se comemora a data de teu nascimento, deixo trechos desse capítulo, Ética, para um momento de reflexão e de constatação de que, ser humano não implica em fazer parte de um ou outro segmento religioso e sim, praticar o que sua consciência lhe diz, mesmo que para tanto se reme contra a correnteza da maioria, que prefere utilizar a máscara padronizada à face limpa de disfarces.

“Se decidíssemos aplicar uma velha frase de sabedoria popular, provavelmente resolveríamos todas as questões deste mundo: “Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti”, que pode ser dito de maneira mais positiva:”Faz aos outros o que quiseres que te façam a ti”.

Creio que todas as éticas do mundo, todos os tratados de moral e códigos de comportamento se contêm nestas frases.

Nem a arte nem a literatura têm que nos dar lições de moral. Nós é que temos que nos salvar e isso só é possível com uma postura cidadã ética, embora possa soar antigo e anacrônico.

Percebi, nestes últimos anos, que ando procurando uma formulação da ética; quero exprimir, através dos meus livros, um sentimento ético da existência e quero exprimi-lo literariamente.

Cada vez me interessa menos falar de literatura e cada vez mais de questões como a ética – pessoal ou coletiva.

Não sei [se haverá algo depois desta travessia do deserto], mas há uma condição essencial: o respeito ao outro. Nisso está contido tudo, porque impede de fazer mal.

O que faz falta é uma insurreição ética. Não uma insurreição das armas, mas ética, que deixe bem claro que isto não pode continuar.

Não se pode viver como estamos vivendo, condenando três quartas partes da humanidade à miséria, à fome, à doença, com um desprezo total pela dignidade humana.

Tudo isso para quê? Para servir à ambição de uns poucos.

Só falo de evidências, de coisas que estão à vista de todos. E sei que tenho razão.

Em nome da ética, e muito mais da ética revolucionária, se fizeram coisas pouco éticas.

Certa vez eu disse que estamos precisando de uma insurreição ética, mas vamos matizar um pouco.

Creio que tudo isso seria menos conflituoso se pensássemos numa espécie de sentido ético da existência. Sem revolução.

Ter para cada um de nós um sentido ético da existência, no silêncio da nossa consciência. Claro, a consciência não é nada silenciosa, ao contrário: a consciência fala.

A ética de que falo é uma pequena coisa laica, para uso na relação com os outros. Passa por essa coisa tão simples quanto o respeito, só isso.

Portanto, se mais tarde, pelas circunstâncias, a revolução finalmente fosse necessária, então a faríamos.

Mas deixemos a revolução para mais tarde e comecemos pelas pequenas coisas que podemos fazer sem revolução.

Essas coisas pequenas podem ter consequências fortes e intensas como as revoluções, que não duram.

A ética é a mulher mais bonita do universo, o mundo necessita de uma forma diferente de entender as relações humanas e isso é o que chamo de insurreição ética.

Você tem que se perguntar: o que estou fazendo no mundo?

A idéia do respeito ao outro como parte da própria consciência poderia mudar algo no mundo.

Claro que muitas pessoas riem ao ouvirem falar de ética.

Mas creio que há que voltar a ela e não à ética repressiva.

Não tem nada a ver com a moral utilitária, prática, a moral como instrumento  de dominação. Não. É algo mais sério que isso: o respeito ao outro.

E isso é uma postura ética. Fora daí não creio que tenhamos nenhuma salvação.

Tivemos liberdade para torturar, para matar, para assassinar, e tivemos liberdade para lutar, para seguir em frente, para tentar manter a dignidade. É aterrador o uso que se pode fazer de uma palavra.

O importante é que haja presença de um senso de responsabilidade cívica, de dignidade pessoal, de respeito coletivo; se se mantém, se se constrói, se não se aceita cair na resignação, na apatia, na indiferença, isso pode ser uma simples semente para que algo mude.Mas eu estou muito consciente de que isso, por sua vez, não significa muito.

Há um problema ético grave que não parece estar a caminho de ser resolvido: depois da Segunda Guerra Mundial discutia-se na Europa sobre progresso tecnológico e progresso moral, se podiam avançar a par um do outro.

Não foi assim, pelo contrário, o progresso tecnológico disparou a alturas inconcebíveis e o chamado progresso moral deixou de ser, pura e simplesmente, progresso e entrou em regressão”.

Gostaria, Mestre, de trazê-lo, mesmo que por pensamento, a tempos de delicadezas, mas só posso assim fazê-lo guardando-o em mim; o mundo está irreconhecível (ou será esta a sua face verdadeira?)

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casal

 

 

A primeira vez que aqui cheguei, a venda funcionava sob o pulso de Seu Jacinto.

Dona Clotilde garantia o almoço de seu marido, Vem almoçar, moooor! e dos homens simples mas de braços fortes que por ali trabalhavam; Faço qualquer coisa, Dona, mas só trabalho honesto!

Da segunda vez, faltou o carinho e cuidados das mãos mágicas de Dona Clotilde.

Seu Jacinto e os moços simples, de braços fortes e bronzeados, almoçavam e jantavam e bebiam no boteco da esquina pintado de azul e amarelo; dizia o dono que para alegrar a vila.

Da terceira vez que me descambei para cá, Seu Jacinto já dormia com Dona Clotilde ao pé da mangueira cinquentenária aquele sono que ninguém mais pode acordar.

Naquele mesmo lugar onde se beijaram pela primeira vez, na noite de Santo Antonio, enquanto os outros, distraídos que estavam, pulavam a fogueira e nada viram.

Foi uma festa linda o funeral de Seu Jacinto, contaram-me os moços simples, de braços fortes, bronzeados e suarentos.

Foi do jeito que ele pediu quando se sentou em sua cadeira de balanço, no meio da noite e do quintal, onde tremeluzia apenas uma lamparina na soleira da porta.

Indo e vindo, indo e vindo, lentamente no balançar da cadeira e do tempo, olhou para o céu, tirou o chapéu, distraído fingiu que reparava nas unhas; depois olhou para aquela estrela que brilhava lá no fundo da paisagem e murmurou para seu coração, Já vou, mulher, já vou! Acaba de fazer a sopa de mandioquinha que eu já tô indo!

E aqueles moços simples, de braços fortes, bronzeados, suarentos e saudade no coração, disfarçadamente enxugaram uma lágrima.

Só Tonico chorou copiosamente, como se criança fosse.

E por causa desse pranto sem fim, continuei vindo para cá almoçar, conversar e beber no boteco da esquina com o Tonico e seus amigos, esses moços simples, de braços fortes, bronzeados, suarentos e de brilho intenso no olhar.

Só por isso.

 

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