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Archive for janeiro \15\UTC 2016

o quarto rei mago

 

 

Quando comecei a desmontar meu presépio é que percebi não haver escrito uma linha sequer no dia 6, data que tem um significado muito especial para mim, o que fez com que eu escolhesse esse dia para inaugurar o meu blog, como a ofertar um singelo presente para aqueles que ainda conseguem sonhar.

Dia de Reis, seis anos de blog.

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Foi quando uma ideia me assaltou… estarei montando este presépio outra vez?

Depois me aquietei porque hoje tudo me assalta, me confunde, me assusta.

É verdade, ainda me assusto com fatos que a maioria das pessoas já absorveu para suas vidas como sendo natural e, por puro descuido, deixando-me contaminar pelas incertezas, desesperanças, caminhos estranhos aos meus ideais, demorei para sentir a verdadeira energia que necessito emanar para viver (e sobreviver).

E os dias passaram mas não deixaram para trás a importância dessa data para mim.

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Noite, silêncio, chuva lá fora, que molha a alma também.

Meu coração apertado, meus olhos úmidos.

Saudades dos natais da minha infância, do carinho de meu pai, do sorriso de minha mãe, das traquinagens junto aos irmãos, da euforia em levantar-me primeiro para correr aos pés da árvore e abrir os presentes.

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E agora tenho entre os dedos as imagens dos três reis magos.

Fito-os demoradamente.

Observo suas expressões, suas vestimentas, suas oferendas, suas intenções.

Fico tentada a indagá-los se poderiam nos trazer, por mais remoto que seja, algum presente além de ouro (realeza), mirra (imortalidade) e incenso (fé), para este ano que promete ser difícil, de confrontos, dúvidas e muitas incertezas.

Permanecem silenciosos, talvez sem saber o que dizer, o que fazer, o que oferecer além do que já trazem.

Gaspar, em seu manto púrpura, traz os olhos baixos em reverência ao Menino Rei.

Melchior, em seu manto vermelho, tem a cabeça reclinada como a pedir que o abençoe e aceite, simbolizado pelo presente, sua vida.

Baltazar, em seu manto verde, prostra-se diante da Divindade, em respeito ao momento único e pelo privilégio que sente de ali se encontrar.

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Lembrei-me então de Artaban, o quarto rei mago que, por dedicar-se à cura da humanidade, não conseguiu juntar-se aos outros na adoração.

Sei que quem agora me lê sabe que Artaban atrasou-se e não conseguiu sair na mesma caravana e  que posteriormente perdeu-se em vilarejos, entre doentes e famintos que parou para ajudar, conhecedor da medicina que era, sem se dizer do tamanho de seu coração amoroso.

Mas alguns não sabem que, quando achou que poderia deixar que as pessoas se cuidassem por si mesmas, já havia passado 33 anos; porém esse fato não o fez desistir da sua busca; pegou sua matula e partiu à procura do Iluminado.

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Quis o tempo que ele se perdesse novamente no deserto e, sentindo-se já bastante fraco, encontrou um dia com um homem entre as dunas que ofereceu-lhe água.

Quando fitou seu semblante sabia estar na presença divina, dizendo meio zangado, Procurei-O por toda uma vida e só O encontro agora quando estou à beira da morte!?!

Jesus abraçou-o e disse-lhe que já haviam se encontrado sim, em cada pessoa que Artaban curou, cuidou, orientou, amou, deu de beber e comer, agasalhou.

E abraçando-o ternamente, o Mestre Jesus desenhou um sorriso suave no rosto de Artaban, um sorriso que somente se vê na face dos anjos e deixou-o voar livre para as esferas.

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Ajoelhada diante da família sagrada, prometi ao Menino que, para o ano que vem, colocarei uma imagem do quarto rei mago em meu presépio; será difícil encontrar, eu sei, mas tenho um ano inteiro pela frente.

O Menino Rei apenas me sorriu demoradamente.

Olhos brilhantes, bracinhos estendidos como a me pedir colo, como a me dizer para não deixar de carregá-lo dentro de mim.

Depois, com sua voz melodiosa, fez-me lembrar que Artaban é cada um dos que servem altruisticamente à humanidade e à Natureza.

São aqueles que se superam e que, silenciosamente, plantam todos os dias esperanças em cada gesto e, todas as noites, estrelas e sonhos nos corações.

Olhando-me no fundo da alma, o Menino me  pergunta se eu conheço algum Artaban.

Depois, aconchegando-se em meu coração, adormece.

E eu O embalo em mim, como sempre, para sempre.

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É assim que dia 6 de Janeiro tem um significado profundo para mim.

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