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Archive for julho \27\UTC 2016

orquídea

 

 

A lagartixa que habitava meu terraço morreu esta manhã.

Sua casa? o vaso de orquídeas brancas que vem dando flores desde agosto passado, há quase um ano atrás, ininterruptamente.

Pela manhã, quando abri as janelas dos quartos, no chão a vi quietinha, quase que ao sol.

Estranhei.

.

Fui vê-la mais de perto e logo senti que sofria, sem quase poder se mover, aqueles olhos pretinhos a olhar-me.

Tentei animá-la com um pouco de água pelo chão, com a intenção de refrescá-la.

Nada.

Com cuidado, tentei induzi-la a ir para um lugar mais fresco, perto das plantas, pois o sol já se fazia quente.

Enquanto tentava, aflita minha mente percorria pontos de interrogação, tentando pressentir o que havia ocorrido (ouvi à noite um barulho de algo caindo no chão, não foi?)

Tirei-lhe da boca uma minúscula peninha (quem sabe?) defendendo-se do bico de alguma avesinha.

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Só sei que sofria…e o que eu poderia fazer para aliviá-la diante de minha pequenez e impotência…

Peguei uma folha bem fresquinha de alface na geladeira e, com muito custo, para não feri-la ainda mais, consegui colocá-la em cima, posto que lagartixas gostam de lugares frios.

E levei-a, com mais cuidado ainda, para a sombra de um grande vaso.

E ela me olhava e, naquele momento, eu só queria ser um bichinho (nada mais) para poder falar sua “língua” e dizer-lhe para ir em paz.

Mas só pude ouvir seu silêncio e ver seu olhar; as únicas coisas que eu pude fazer, além de companhia.

Até o telefone tocar.

Até eu pedir para Francisco de Assis ficar tomando conta dela.

Até eu voltar… e encontrá-la de barriguinha para cima, com as duas patinhas da frente estendidas como a pedir um abraço.

.

Depois de um tempo, enterrei-a em um dos vasos do terraço e coloquei sobre ela uma flor d’água.

O certo seria colocá-la no vaso de orquídeas, mas lá não há terra, apenas raízes.

Porém, o cacho de botões de novas orquídeas pende exatamente para onde eu a depositei, como a enfeitá-la.

Morava há muito em meu terraço, mas não cheguei a dar-lhe um nome; quando a via dizia simplesmente, Oi belezinha!

Uma vez ela entrou em um dos quartos; foi difícil convencê-la de que seu lugar era ao ar livre e não, presa como nós.

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E agora à tarde, em um desabafo de dor, quando tentei contar o ocorrido a alguém, ouvi um Nossa! tanta gente morrendo estupidamente e você se desgastando em tristezas por causa de uma lagartixa? (e aqui me coloco, completamente exposta diante do crivo de quem me lê)

Mas não deixei de pensar,  Pessoa errada em hora errada.

.

E então percebi quanto temos sido agredidos pelas barbáries que vêm acontecendo sem que tenhamos tempo de respirar para nos recompor.

De tal forma, que formamos ao nosso redor couraças que não permitem que os sentimentos mais simples e puros façam parte de nossas vidas.

Mas a vida é assim, simples: ganhamos presentes valiosos, aprendemos a cuidá-los e a amá-los e depois uma sucessão de perdas acontecem, os presentes somem, se desgastam, se escondem, se anulam, enquanto alguns outros presentes vão surgindo, para acalmar um pouco o coração, embalsamando sentimentos, ideais e sonhos perdidos ou roubados, até que caiam no esquecimento silencioso e sombrio dos valores disformes.

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É nesse exato momento que chamo minha criança interior para cantar e brincar comigo, um pouco que seja.

Mas hoje ela não quis vir: está muito triste porque também conhecia e gostava da lagartixa do terraço.

Resta-me, então, sentar-me com ela no chão, brincando de nada, apenas tentando fazer-lhe companhia, como havia feito à lagartixa do terraço.

Em silêncio, sem saber o que dizer.

 

 

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Vida Animal

 

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Homens lutam como animais

espadas tinem

por terras, luxúria

poder, vingança

punhais em riste

olho no olho

fúria, ira

cheiro de morte

 .

E o cavalo, como se humano fosse,

em toda a sua alvura

sereno e silencioso

continua mastigando

lenta e calmamente

a relva fresca

e úmida de orvalho

 . 

O agressor de seu dono cai

sem vida

Seu dono cai

de cansaço

 .

E o cavalo apenas bate sua pata esquerda

na grama

e sacode seu dorso, sua crina

para espantar possível incômodo

nada mais

 

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