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Archive for setembro \15\UTC 2016

Sabes quem é?

flor-coracao

 

 

As visitas só podem ser feitas às terças feiras.

Mas a cada terça, a menina a encontra com uma lembrança diferente, de pessoas diferentes, de momentos que já não sabe mais em que espaço adormeceram.

 

Desta vez encontrou-a com uma foto nas mãos, de alguém que não havia mencionado sequer a existência.

Seu rosto estava iluminado e a menina se surpreendeu com essa quase felicidade que não havia notado em nenhum momento, até então.

As mãos da senhora tremiam e, assim, dava impressão à menina de que a pessoa na foto se mexia enquanto sorria.

 

Sabes quem é? – pergunta a senhora, arrumando a gola de sua blusa, como se quem estivesse na foto pudesse vê-la – e a menina negou com a cabeça, esperando um nome, uma data, uma história.

Mas o que viu foi apenas os olhos da senhora pousarem novamente naquele sorriso e com os dedos ainda trêmulos acariciar o rosto, os olhos, a boca, os cabelos daquele que lhe sorria.

 

Por algum tempo assim permaneceu a fitar aquela expressão serena, tranquila, suave.

E a menina, a seu lado, apenas acompanhava o caminhar daquele instante.

 

Até que a senhora se apercebeu novamente de sua presença e, passando-lhe as mãos delicadamente em seus cabelos sedosos, perguntou novamente – Sabes quem é? É o grande amor de minha vida! – e a menina novamente se calou, intrigada com a surpresa que notou na voz da senhora, como se ela tivesse o dever de saber a quem se referia.

 

No instante seguinte, a senhora guardou a foto na caixa de lembranças e retirou-se novamente para o mundo que construiu, onde sempre era feliz, onde sempre sorria como criança para seu amor.

 

E o horário da visita terminou.

E a menina saiu da mesma forma que entrou, sem sequer saber um nome, um lugar no tempo, embora com a certeza de que havia escutado, no silêncio daquele mundo mágico, uma história de amor.

 

 

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sabia

 

 

O pássaro da primavera voltou.

Sempre chega antes, anunciando a estação que está por vir.

Como um relógio, começa seu canto às quatro horas da manhã; como um relógio, desperta-me com sua canção.

Todos os dias, mesmo nos frios ou chuvosos.

Seu trinado preenche todo o meu quarto, como se estivesse tão próximo, em alguma planta do meu terraço.

Fico quietinha, ouvindo-o e imaginando sua alegria pulando de árvore em árvore, de galho em galho, como que presenteando a todos com essa madrugada musical.

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Na primavera passada alguém reclamou para mim de seu canto intermitente (mas não tão repetitivo, repleto de solfejos diferentes) e eu fico a pensar como é possível eu sentir prazer com um mesmo fato onde outro sente desalento, irritação…

Quem não gosta da música da natureza está mal consigo mesmo, penso eu.

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Abrindo aqui um parênteses, lembrei-me de uma situação ocorrida ainda esta semana.

Liguei para meu porteiro informando que precisaria viajar e se eu poderia, mais uma vez, deixar meu periquitinho na portaria para eles cuidarem (e, claro, quando volto, sempre os recompenso por isso, nada mais justo!)

Meu Plingo canta o dia todo, só pára para comer, beber e dormir.

Ele é tão feliz, que dá gosto de observar!

Pois não é que “alguém” reclamou que ele não pára de cantar e, por isso, torna-se irritante?

Fechando parênteses.

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Vou até a janela da sala e, além de ver um céu todo estrelado e a lua, majestosa, crescendo a cada noite, me apercebo que o pássaro deixa a árvore do meu prédio e vai se afastando para outras árvores.

Volto para a cama e ouço seu cantar se distanciando, distanciando, distanciando… e assim acabo dormindo outra vez.

Com o coração repleto de música, de doçura, de amor, mesmo que de meus olhos esteja rolando uma lágrima de saudade daquela que fui e não serei mais.

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A Primavera, como o sabiá, enfeitará e perfumará meu coração novamente.

E isso me basta.

 

 

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