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Archive for novembro \16\UTC 2016

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“Saiba Vossa Majestade que, haver, havemos cada vez menos, e dever, havemos cada vez mais”

( da obra “Memorial do Convento” – 1.982)

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Aqui estou novamente, Mestre, na tua presença.

É quando me é permitido encontrá-lo aonde estás e não aonde estou.

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Observo demoradamente tua imagem e no canto direito de tua boca pressinto um desalento contido; teus cabelos, quando longos e em constante desalinho, esvoaçavam como teus pensamentos pássaros, sempre em movimento; em tuas mãos de dedos longos, a serenidade interior e, por vezes, a resposta enfática, incisiva, que muitos ainda confundem com frieza, sarcasmo, ceticismo.

Mas como te conheço um pouco e te amo muito, isso já não me assusta; apenas o espanto de outros é que ainda me surpreende, depois de tantos ventos, tempestades, raras calmarias.

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Porém o que mais me atrai, sempre, é o teu olhar.

Essa fagulha de intensa luz e lucidez que vibra em todo o teu semblante.

Seria o mesmo olhar de quando o jornalista perguntou, na última entrevista,  Por que o senhor tornou-se escritor tardiamente? e, com paciência, respondeste Isso ninguém sabe, nem eu, nem eu! Mas isso ainda é preocupante? – como se não houvesse algo mais importante a ser dito.

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Teu olhar… com certeza tão diferente de quando, no teu exílio, navegava distâncias e saudades agora adormecidas.

E sempre que me lembro do teu exílio, me vem à mente O Conto da Ilha Desconhecida.

Não me canso de ler essa obra e fico a me perguntar se também não foste tu, Mestre querido, que aguçou-me a busca de mim mesma, porque tuas palavras em minha consciência reverberam sempre… Quero saber quem sou eu quando estiver na ilha; se não sais de ti, não chegas a saber quem és… que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não saímos de nós.

Será que não foste tu que me ajudaste a pintar, como no livro, as letras que faltavam na minha caravela, para que eu pudesse me lançar ao mar, no início temerosa, mas com o coração aberto em busca do novo, do desconhecido, do que muitos chamam de irreal?

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À tua frente sinto-me diante do mar, ora em turbulência, por vezes tranquilo, mas raramente ensolarado porque, mesmo agora não estando mais entre nós, ainda te pesam os rótulos atribuídos pelos ignorantes de tua vida, que nunca se propuseram a conhecer tua alma; apenas boiam na superfície das ondas, achando (sempre os achismos!) tua escrita salgada como o mar, nada mais.

Mas, como o mar, tens riquezas e belezas para quem se aventurar nas profundezas de tuas águas.

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Eu, no entanto, sentindo-o como o mar em eterno movimento, fico feliz em vê-lo ora verde, ora azul, dependendo do mar onde te encontras no momento deste nosso diálogo de almas e, te olhando assim tão de perto e silenciosa, continuo admirando tua coragem de não te esconderes, nunca, atrás de um remo, no fundo do porão de tua caravela, mas sim, sempre no leme de tuas verdades.

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Com certeza, aprendi contigo, Mestre, o hábito de carregar nas mãos uma bússola e atirar-me ao mar à procura de mim mesma.

O mar é UM, o começo do caminhar pra beira de outro lugar, como diz outro poeta.

 

Hoje comemora-se a data de teu aniversário, mas quem continua ganhando o presente sou eu.

Sempre.

 

 

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Ela o vê da janela de sua sala.

Ele deve ser desses executivos modernos que montam seus escritórios e trabalham em casa.

Um homem feito, com seus cinquenta e cinco ou sete anos, cabelos vastos e brilhantes, costa larga e sempre bem vestido.

Debruçado entre papéis, desenhos e computador.

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Um dia ela escondeu-se atrás da cortina e, com seu binóculo, investigou primeiro seu perfil italiano e, depois, sua mesa de trabalho; foi quando deduziu que ele ou é engenheiro ou arquiteto.

Ficou com a segunda opção, lembrando-se de que engenheiros permanecem mais nas obras.

Sempre o vê ocupado quando, à noite, fecha as janelas, as cortinas e vai se deitar.

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Outro dia, quando cuidava das plantas do terraço e parou um pouco para fitar o horizonte, seu olhar foi atraído para a janela dele e (que interessante!) sentiu feliz em vê-lo relaxado na cadeira, pés sem sapatos em cima da mesa, a gargalhar no celular.

Foi quando descobriu que, junto à sua curiosidade, existia também o sentimento de cuidado por ele… É, ele trabalha demais – concluiu ela – nunca vejo essa cadeira vazia, esse computador desligado…

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Mas em um dia que chovia muito, tanto que parecia pairar no ar uma névoa, ela debruçou-se na janela para colher algumas gotas de chuva nas mãos, agradecendo o alimento da Natureza a purificar o ar e a alma… foi quando o viu, parecendo inerte, fitando a tela do computador.

Assim ficou por alguns instantes; depois levou as mãos ao rosto, como se estivesse perplexo com o que via.

Para aflição dela, viu que ele começava a chorar, evoluindo para o soluçar e depois para o pranto compulsivo.

O que fazer? Como ajudar sem se entregar, pois teria que contar que o observava e o admirava à distância?

Não importa, precisava fazer alguma coisa.

Valeu-se do binóculo novamente, tentando focalizar alguma informação na tela do computador.

Nada!

Tentou achar um telefone fixo sobre a mesa; poderia fazer uma pesquisa rápida na  internet e localizar a linha.

Nada!

Atravessar a rua e ir até o prédio, nem pensar!

Não sabia o nome dele e, mesmo que soubesse, ele não sabia o seu, nem sabia que ela existia!

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Sua angústia foi crescendo, pela impotência e incapacidade em ajudá-lo a reverter esse momento de tristeza em um pouco de serenidade que fosse.

Resolveu sair para pensar melhor, sem antes dar uma outra olhadela pela janela.

Surpreendeu-se ao ver a cadeira vazia.

Onde teria ido? O que estava fazendo?

Sua imaginação correu solta entre portais, infelizmente pensando no pior.

Precisava sair, tomar ar puro (ar puro?) ver pessoas, tomar chuva…

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Embora fosse a primeira vez que usasse seu guarda chuva vermelho (que lindo vê-lo em meio a coisas e pessoas tão cinzas), resolveu andar sem rumo, procurando dentro de si uma resposta, uma atitude, uma ação (ai que aflição!).

Foi quando parou em uma padaria para tomar café, talvez um cappuccino até a borda de chocolate, para saciar sua tristeza.

Sentou-se no balcão (nunca fazia isso) ao lado de um homem que, vendo-a só, logo puxou conversa, bobagens que se fala à revelia, sem muito pensar.

Ela surpreendeu-se com sua educação e sua inteligência que ia ficando notória conforme a conversa se desenrolava.

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Mas logo voltou a pensar no vizinho de janela.

Despediu, desculpando-se, e como ele também fosse para o mesmo lado, caminharam lado a lado.

Aonde você mora? – perguntou ele – É mesmo? Eu também! A que altura? Olha só, eu também! No prédio de pastilhas em frente ao meu?

Foi quando ela prestou melhor atenção em sua fisionomia e viu, andando a seu lado, aquele perfil italiano esquadrinhado na moldura da janela.

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Toda manhã o celular toca e quando isso acontece, ela corre para a janela para vê-lo e ouvi-lo a dizer: Bom dia, minha flor!

Ao que ela responde, sorrindo: Bom dia, meu sol!

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Ah! ia me esquecendo: Raul é arquiteto mesmo!

 

 

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