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Archive for the ‘Recortes’ Category

 

Nesta época de Natal, trazendo um pouco, a cada dia, as imagens dos Reis Magos do meu presépio para mais perto da imagem simbólica do Cristo menino, tive um daqueles devaneios que sempre surgem nesta ocasião.

Ocasião em que a humanidade mostra que realmente é movida por um amor interior que consegue aflorar universalmente, mas que depois é recolhido como se fosse um erro demonstrá-lo em todos os outros dias do ano, essa riqueza simples, pura, verdadeira.

Mas essa é uma outra história que, em outro momento, poderemos conversar e refletir… mas agora quero contar dos meus devaneios, talvez com uma necessidade premente de acariciar meu próprio coração de criança.

Me veio à mente aquelas imagens… era um tempo muito, muito feliz!

Um tempo que habita minha alma, meu viver, que me faz rir e chorar e morrer mais um pouquinho a cada lembrança…

Embora meu avô sempre dissesse para lermos um livro se nada tivéssemos para fazer, aconteciam momentos de vontade de nada fazer mesmo, de preguicinha ou de criatividade infantil, como a de telefonar para todos os conhecidos da família, para desejar boas festas.

– Vou ligar para Dona Anita Ramos, minha Mestra! – dizia eu, toda pirilampa e feliz.

– E eu vou ligar para o Armando Delmanto, meu amigo jornalista e escritor! – dizia minha irmã Rosa, toda orgulhosa!

– Ligue logo porque quero falar com Dona Maria – dizia minha irmã Margarida, apaixonada pelo Sérgio, neto dela.

Era uma disputa acirrada para usar o telefone; saía até uns empurrõezinhos.

Aí chegava a minha vez, novamente.

– Vou ligar para “Seu” Lacerda, nosso farmacêutico, pai de minha querida amiga Olga; um senhor muito espirituoso, alegre, generoso.

Margarida pulava a ordem da fila e ligava para a Ana Luíza Dorini.

E veio-me à mente aquela cena dela entrando na cozinha, toda feliz, dizendo à nossa mãe:

– Mamãe, mamãe! A Ana Luíza é minha amiga!

– Que bom, filha! Você conversou com ela?

– Não, mas ela disse “Oi” para mim! (rimos disso até hoje!)

E, a partir desse dia, Ana Luíza foi elevada à categoria de amiga.

Desde essa época, meninas que éramos, o conceito de amiga já era muito forte e valioso para nós.

– Agora sou eu! – e Rosa brigava comigo porque Margarida pulara sua vez e sobrara para mim; mas eu batia o pé:

– Não vem que não tem! Você é atrás de mim e eu depois da Margarida!

Na verdade eu já nem estava entendendo nada.

E para desviar o assunto, perguntei:

– Quem vai ligar para a Dona Assunta do empório?

Silêncio.

Troca de olhares.

Nenhum mosquitinho passou voando por ali naquele instante.

Explico: Da. Assunta era uma senhora italiana ou judia, não sei bem, muito alta e grande, de feições severas, mas que tinha um coração imenso, coração de mãe mesmo.

Porém, tínhamos medo dela, pois era muito severa com seu marido e funcionários.

Bom, para sair daquele impacto que acabei causando com a pergunta, logo me coloquei:

– Eu não posso ligar porque ela vai reconhecer minha voz!

É que eu vivia ligando lá e perguntando se tinha sardinha em lata, ao que ela respondia prontamente que “Sim, temos!” e eu, imediatamente pedia: – Solta as coitadinhas, estão tão espremidinhas, sufocadas! E desligava rapidinho.

– Eu ligo! – dizia Margarida e, ao invés de desejar boas festas a Dona Assunta, perguntava se aranha subia escada de tamancos! (literalmente chorávamos, de tanto rir)

Refeitas, Margarida ligava (furou fila outra vez!) para a Olga Royal, perguntando de sua coleção de bonecas, da loja de tecidos, do irmão e, claro, desejando um feliz Natal!

– Quem vai ligar para o Dr. Monteiro?

– O papai liga – Rosa respondia.

Às vezes achava que ele cuidava de nossos dentes através de hipnose, com aqueles olhos verdes, olhar de paisagem, paisagem infinita… e tome algodão no dente!

– Eu ligo para o Dr. Canto! Ele é legal e se você não deixar eu ligar – dizia eu para a Margarida –  vou contar para ele que você fingia que tossia só para arrancar páginas das revistas na sala de espera!

Falava só para chantageá-la, porque eu também fazia isso.

– Liga para a mãe do Bosco, Isabel! – dizia Margarida

Embora eu quisesse muito, pela possibilidade dele atender ao telefone e eu sentir meu coração disparar, tinha receio de fazê-lo porque ri na frente dela quando alguém me contou que, quando ela conheceu o marido, ele se apresentou dizendo “Muito prazer, meu nome é Benedito”, ao que ela respondeu “Prazer, e o meu é Benedita” e me parece que, em um primeiro momento, “Seu” Benedito ficou aborrecido porque entendeu que ela estava brincando com ele.

– O papai liga – falei – ele é amigo do pai, os dois são da Ordem Terceira de Francisco de Assis.

Às vezes acompanhava-nos nessas peripécias e em outras, nossa amiga Dilza Freitas, moleca como nós; tinha carinha de meiguinha, como eu, mas adorava uma “arte”.

A irmã dela, Damaris, era mais séria, já namorava e, por isso, participava raramente das nossas farras.

Se não era a Dilza, era a Marina Câmara, que morava praticamente em frente de casa e adorava uma banguncinha também.

– Corre aqui, corre aqui! – chamava a Rosa – a Ana João está passando!

Ana João era uma moça “fora da casinha”, uma andarilha, magrela que só ela, risonha, divertida. (às vezes ficava muito brava!)

Embora sempre de saia, blusinha curta, meias soquete e alpargatas nos pés, tinha um ar simploriamente masculino.

E nós três, da sacada de casa, gritávamos:

– Feliz ano novo, Ana João; feliz ano novo!!!

E ela sorria, sem a mínima noção do que falávamos; pegava nas pontas da saia parecendo que ia dançar…

– Liga para o Lalau, Rosa!- e ela ria e dizia, Eu não!

Lalau era nosso vizinho, um rapaz loiro, magro, o caçula de uma família barulhenta e alegre; a família Geraldino.

Lalau tinha um pequeno defeito em um dos pés ou pernas e mancava um pouco ao caminhar.

Rosa, espirituosa que sempre foi, fez um musiquinha para ele e logo nos ensinou e, tudo que é bobagem, criança aprende rapidinho, não é?

– Lá vem o Lalau! Lá vem o Lalau! – chamava a Rosa.

E corríamos novamente para a sacada, esperávamos o Lalau passar para depois cantar:

“ Ô Lalau, bambolê,

   Requebra as cadeiras

   Pra gente ver!”

E ele olhava para trás e derramava em nossos olhos aquele sorriso largo, aquele sorriso loiro e feliz!

Parece-me, hoje, que o que fazíamos talvez fosse inadequado; talvez o problema dele fosse mais sério, mais grave do que imaginávamos… mas ele ficava tão feliz!

Lembro-me que, mais tarde, meu pai comentava com minha mãe o quanto a conta do telefone havia aumentado, ao que minha mãe dizia, Não se aborreça, João, não se aborreça… nessa época utilizamos mais o telefone para falar com nossos parentes e amigos.

Nós abaixávamos a cabeça e ríamos escondido para nosso pai não ver.

Todos esses momentos vieram á tona, neste pequeno tempo enquanto os Reis Magos caminhavam para a tão próxima visitação.

Olhei no relógio que me mostrava a meia noite do primeiro dia do ano e tive uma última lembrança.

A de minha mãe teatralizando uns versinhos que aprendeu com sua mãe, ainda menina, fazendo-nos tremer de medo e rindo de nossa reação, por certo com olhos arregalados e fisionomia lívida.

Então dizia gesticulando e com voz lúgubre:

“ Meia noiteeee…

  Cabelos para o arrrr…

Pega um enorme facão…

E passa manteiga no pão!!!”

Mandei, no ato, esta lembrança para minha irmã Rosa, para que sentíssemos, juntas, a emoção daquele momento.

Dançaram à minha frente as imagens de Dona Iolanda, seu marido Leonel e os filhos com os quais barganhávamos frutas (amora x jabuticaba) através do muro; os queridos Nélio, Celso, Telita e Ginho.

As imagens de minhas amigas Ilza Nicoletti, Edna Bassoli, Cleuza Crespan, Cristina Cariola, Cristina Parret, Sonia Cabral, Lúcia Alves, Heloisa Pardini e Heloisa Moreira, Rosa Popolo (nossa! que saudades.); Magnólia, Dona Heda, Dona Maria Caricati, Eunice.

 

Fui me deitar com o sentimento de felicidade na pele, no pensamento, nos lábios, no coração.

E quando acordei, assistindo a uma palestra de Ariano Suassuna, o ouvi dizendo que a data de 6 de janeiro tem um significado muito importante em sua vida.

Na minha também – confidenciei-lhe mentalmente.

Mais um motivo, além do dia de aniversário do meu blog (uma criança de 9 anos), a enternecer meu coração.

E, neste instante, tenho apenas um pensamento na alma: Como sou abençoada!

Feliz Dia de Reis!!!

 

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Quando conto para os amigos que fui uma menina muito arteira a maioria não acredita; acham-me calma, comedida demais para assim ter sido.

E por ter sido como fui, mamãe sempre me entretinha junto a ela com algum brinquedo, objeto ou o que fosse, para eu não sair correndo pelo quintal (que era enorme!) ou abrir o portão e sair para a rua; afinal eu tinha apenas cinco anos, talvez até menos, não sei bem.

Era muito engraçado (e talvez estranho para os adultos) essa minha vontade de correr e correr e correr… será por isso que gosto tanto de vento?

Bem, voltando ao entretenimento… enquanto minha mãe plantava folhagens, outros tipos de mudas e florzinhas, dava-me uma pazinha para cavoucar a terra, achando que plantava também!

Me divertia quando achava tatuzinhos agitados, correndo de lá para cá, talvez vexados por eu ter descoberto seus esconderijos de uma forma tão fácil e, cá para nós, tão invasiva…

Me divertia com as borboletas coloridas que beijavam as flores e brincavam com os raios do sol.

Me divertia com as pocinhas de água que eu fazia na terra, pequenas piscinas que eu construía para as minhocas nadarem! (me divertia com tantas coisas pequenas mas que me maravilhavam, coisas que muitas crianças, hoje,  nem sabem que existem… ainda existem?)

Lembro-me de um chapéu imenso que mamãe colocava em minha cabeça para eu não tomar tanto sol; não sei se ele era tão grande assim ou eu que era muito pequena; só sei que fazia uma imensa sombra à minha volta e que tinha uma linda fita vermelha rodeando a cabeça!

Acredito que não foi a primeira vez que vi um grilo, mas foi em um dia desses de jardinagem matinal que vi pela primeira uma joaninha.

Veio voando de mansinho e aterrissou no meu braço!

Fiquei estática, com medo de me mexer e ela ir-se embora..

A primeira impressão que tive foi a de uma florzinha vermelha esvoaçando no ar.

Quando começou a andar pelo meu braço, fazendo coceguinhas, chamei mamãe para ver, ao que ela largou do que fazia para me falar sobre o bichinho.

A Joaninha deu uma voadinha e se aquietou novamente, desta vez em minha mão, e eu pude ver suas asas vermelhinhas com pintinhas pretas e seus olhinhos que mais pareciam cabeças de alfinete.

Quando mamãe contou-me que se chamava Joaninha… não gostei.

As Joanas que me perdoem (inclusive Joanna D’Arc, minha protetora) mas, na minha insignificância, achei um nome muito pesado para um bichinho tão delicado.

Minha irmã e eu vimos, em um outro dia de peraltices, duas Joaninhas, uma em cada planta; comecei a gritar Mamãe, mamãe, a Joaninha, a Joaninha voltou!

Quando ela veio ver, perguntei a ela o nome da outra; mamãe olhou-me meio surpresa e disse chamar-se Joaninha também.

Lembro-me de que pensei Que coisa mais sem graça… o mesmo nome?

Então resolvi chamá-las, a cada vez que apareciam, de nomes diferentes como, por exemplo, Pin, Mia, Liz, Raio e outros mais.

Mamãe ria tão gostoso quando eu dizia que as Joaninhas eram florzinhas que voavam!

Esquecia-me dos tatuzinhos, minhocas, grilos, borboletas e das plantinhas; ficava olhando aquele bichinho andando pelo meu braço, meu dedo, voando para o meu cabelo todo sujo de terra.

Queria fazer um carinho, mas ao menor gesto ela voava um pouquinho, para ir sentar-se em outro lugar.

Eu ficava maravilhada em ver que um bichinho tão pequeno, tão engraçadinho parecia mesmo uma florzinha a voar.

Os anos passaram, não vejo mais tudo o que me divertia.

E duramente descobri que minha mãezinha é uma florzinha que voou.

Às vezes ela vem à noite, em sonhos, conversar com a minha criança… faz um carinho, beija-lhe os olhos, escova-lhe os cabelos, veste-lhe um pijama quentinho, afofa o travesseirinho e depois se vai, antes do sol chegar, como uma florzinha a voar… 

 

 

 

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Quando meus olhos vislumbrarem um horizonte que existirá somente dentro do meu ser, posso pedir que me faças um carinho manso no rosto e me chames de querida?

 

Que ajeites meus cabelos suavemente e sorrias tão serenamente para mim?

 

Que venhas me buscar, um dia qualquer, para passearmos de mãos dadas pelo parque sem nenhum propósito ou palavra, enquanto as folhas rodopiam por entre as árvores a dança do outono, para que eu possa me permitir a encostar em teu ombro a pedir um abraço que nunca me deste?

 

Que declames para mim, somente para mim, teu poema predileto, para que possamos sorrir e chorar juntos mais uma vez e descobrir que andamos muitas vezes pelas mesmas planícies sem nunca nos encontrar?

 

Que me leves para dançar em algum lugar mágico, aonde eu possa sentir que preencho teus braços e que tu respiras meu perfume, minha serenidade silenciosa, ou quem sabe apenas o mesmo ar que ainda me fará estar por uns tempos?

 

Que tu possas cantar alguma melodia apenas para que eu sinta a doçura e maciez de tua voz e, bem baixinho, eu possa acompanhar o ritmo do teu coração?

 

Para que possas me levar a me embriagar com o último por do sol que ficará retido para sempre nestes olhos que, repito, neste instante vislumbram um horizonte que existirá somente dentro do meu ser, sem mais se importar em estar….

 

Enfim, tu virias até onde estou, mesmo que eu não soubesse mais quem sou, quem és, para que eu sentisse apenas a tua presença, mais uma vez, na minha vida?

 

 

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Seis de Janeiro

 

 

Surgiram à minha frente do nada, assim, de repente, como se tivessem caído do céu ou de um telhado ou do alto de uma mangueira (é possível?)

 

Um deles, trazendo uma espada de madeira na cintura e uma capa nos ombros de saco de estopa, mostrava um sorriso escancarado no rosto, olhinhos que pareciam jabuticabas, negrinho como uma noite sem lua e estrelas.

 

O outro, trazendo uma lata sem fundo de goiabada na cabeça, também trazia uma toalha de mesa bastante rota amarrada ao pescoço, como um manto a arrastar-se pelo chão.

Mas o que me chamou a atenção mesmo foi o silêncio que trazia consigo, um silêncio que brilhava nos olhos, meio encobertos por sua cabeleira desalinhada, assim como labaredas alaranjadas de um por de sol.

 

E finalmente o terceiro, um baixinho serelepe, trazendo uma toalha de rosto meio encardida enrolada na cabeça, exibindo um broche (disse que da avó) preso na altura da testa, mostrando que a pedra era tão verde quanto seus olhos e, por isso, apresentava uma teoria de que ela era um terceiro olho que tinha, do jeito que ouviu, um dia, de um moço meio maluco que encontrou na rua.

 

Andavam, pulavam, cantavam à minha frente, como se a pobreza não os incomodasse, como crianças que riem à toa, sem motivo, pelo simples fato de viver.

 

Reparei então que cada um deles trazia uma caixinha de madeira nas mãos e que, deliberadamente, as seguravam perto do coração.

Fiquei curiosa, apertei o passo (tive até que dar uns pulinhos para alcançá-los, acredita?) e, alcançando-os, contei da minha curiosidade.

 

Pararam à minha frente, outra vez de repente, como tudo que estava acontecendo tão de repente.

Sério, o de olhos de jabuticaba abriu sua caixinha e eu vi uma porção de cinzas, restos do que fora uma folha de papel.

E, tomando uma postura solene, disse-me que eram cinzas de uma carta que queimara porque, toda vez que sua mãe a lia, chorava e escondia o rosto entre as mãos, como que escondendo-se do pouco de alguma coisa que restou, Um vazio, não sei, disse ele.

Eu não quero mais ver minha mãe triste, moça, nunca mais; quero que ela comece a sorrir para todas as coisas deste mundão!

Vou jogar essas cinzas lá no rio, longe de casa, para ela nem mais sentir o cheiro…

E fechou a caixinha, encostou-a junto ao seu coração, voltando a sorrir novamente.

 

O segundo, de cabelos de sol já preguiçoso, abriu sua caixinha sem eu pedir e, surpresa, vi uma plantinha com raiz e tudo, até com um pouco de terra e ele foi logo explicando que, perto de sua casa havia uma fábrica de não sei o quê, que deixava tudo cheirando muito mal, Que nem o pum do vovô quando come batata doce, moça; é um horror, todo mundo sai correndo porta a fora!

Quero plantar essa roseirinha lá na pracinha, moça, para enfeitar o olhar de quem a possa ver; então sentiremos o perfume das rosas!, completou.

 

O terceiro, o do broche, hesitou em abrir sua caixinha e só depois de alguns segundos que fitou-me nos olhos é que a abriu.

O que havia dentro?

Nada?!?, disse eu.

Como nada? respondeu, com profunda reverência. Tem tudo e como esse tudo é tão grande, precisa ser invisível para caber aqui dentro! Já pensou se eu chego lá no presépio e o Menino Jesus me pede alguma coisa que eu possa não ter na minha caixinha?

 

Fiquei de boca aberta e os três começaram a rir da expressão que eu certamente fiz e nesse momento entendi que não era a primeira pessoa a passar por essas surpresas.

Enquanto se afastavam, rindo alto, fiquei pensando nos presentes de suas caixinhas…

 

Já na esquina, voltaram-se para mim me chamando, Venha, moça, venha brincar com a gente de reis magros!

Rindo do trocadilho, respondi que eles já estavam em três reis magros e que eu era gorda!

Não faz mal, moça, faz de conta que você é o papai noel! Vem!

 

Será possível isso acontecer aqui, nestas ruas de São Paulo, tão vazias de encantos?

Não sei… talvez em sonho.

 

Hoje meu blog completa oito anos.

De tentativa de levar alguns sonhos para aqueles que ainda acreditam que suas crianças interiores os habitam.

Como eu, ainda encontram uma forma de agradecer os momentos vividos e também aqueles só sonhados e ainda não realizados.

Não importa, porque sonhar é abrir um portal na mente onde deixamos entrar apenas aqueles escolhidos pelo coração.

Hoje, dia de Reis, dia da Gratidão, deixo aqui a minha, a todos que me fizeram e fazem sonhar.

 

 

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Todo Natal sinto uma tristeza que me aperta o coração.

Mas não é, como muitos pensam, de saudades de meus queridos que hoje são estrelas; eles continuam me habitando e os vejo brilhar, a qualquer momento que eu queira, no céu de minha Alma.

Sinto-me assim porque, apesar da palavra do momento ser “crise”, as lojas e ruas se apresentam como um tsunami de pessoas que correm desvairadas, ansiosas e desesperadas atrás de presentes, comidas e bebidas.

 

Minha sorte, meu privilégio, meu merecimento, não sei, foi me encontrar em uma noite dessas com um anjo. É, um anjo!

E sabe o que mais? Mandou-lhe um beijo!

Não se espante, é para você, sim, que me lê neste instante!

Um beijo simplesmente.

 

Depois de expressar seu pedido, ou seja, de que eu fosse a portadora desse seu desejo, ficou a me sorrir.

Procurei desvendar em seu sorriso um motivo, mas ele só me devolveu outro sorriso.

Perscrutei seus olhos em busca de uma razão mais profunda …

E ele, meio que se divertindo com esse meu interrogatório silencioso, da mesma forma me olhava e sorria.

Não procure o que não existe, disse-me ele.

Mesmo assim fitei-o por mais um pouco e não senti em seu olhar nada que justificasse uma emergência, uma necessidade maior do que a vontade de enviar-lhe um beijo, lembrando, à você que me lê.

Tudo bem, pensei, darei o recado, mas… e eu não ganho nada? interroguei com o olhar, habituada que estou, como todo mortal, de sempre querer ganhar alguma coisa.

Você já indagou um anjo? se não, saiba que a resposta vem de imediato!

 

Sentados a uma mesa, frente a frente, tomou-me as mãos entre as suas e eu pude sentir com que intensidade fluía nesse toque, toda a ternura de sua imagem etérea, a sua alegria, o seu cuidado reverente com os momentos.

Depois, levantou-se e lentamente veio em minha direção.

Tomou-me o rosto entre suas mãos tão suaves ao mesmo tempo que firmes.

E deu-me um doce e longo beijo, primeiro nos olhos, depois na boca.

Senti por todo o meu corpo uma corrente de energia em intenso movimento, roubando-me os sentidos.

 

Depois que essa eternidade passou em mim, abri os olhos como que ainda encantada…

Ele continuava a sorrir.

Este é para você, disse-me num sussurro.

E se foi, lentamente, jardim a dentro, este que cultivo em meu coração.

 

Bem… acho que você deveria estar feliz por eu estar contando que um anjo mandou um beijo à você, mas você deve estar se perguntando como sei que era um anjo, não é isso? por isso é que às vezes perdemos os melhores presentes, porque nos preocupamos com o menos importante…

 

Mas vou te contar; pelo simples motivo de ver estrelas brilhando em seus olhos, melodia em seu sorriso, luz intensa cingindo sua cabeça, parecendo-me até, por segundos, vislumbrar asas em lugar de seus braços.

E seu beijo…Ah! seu beijo… é um beijo que somente um anjo saberia dar!

 

Espero que você não seja uma dessas pessoas que diz, Mas quanta fantasia, quanto devaneio ou mesmo quanta bobagem! e saem por aí preocupadas com comidas e bebidas, apenas brincando de ser feliz, sem se importar com o presente que acabou de ganhar!

 

 

Nascer é reviver, é renovar, é renascer em si mesmo através de novas oportunidades, de sonhos, de esperanças.

 

 

 

 

 

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E o menino continuou a correr pelos campos de centeio, como se pássaro fosse.

Suas mãos tocavam os talos tenros e dourados, como uma colcha macia bordada pelo Tempo, da cor do sonho que sonhara de olhos semi cerrados, antes de entrar, pela primeira vez, em um templo.

Um sonho de vôo pleno onde, num ímpeto de emoção e liberdade, levantava seus braços, ficava nas pontas dos pés como se assim pudesse tocar o céu, sem se dar conta direito de que o Sol já o abraçava por inteiro.

 .

Se fez uma prece, não me recordo, mas sua existência já era a própria prece!

 .

Sentiu o aconchego do silêncio, as mãos da brisa em seus cabelos, o corpo leve a caminhar sentimentos só seus.

 .

De volta à realidade, pressentiu que seu vôo fora marcado no coração e na mente, não sabia ainda por quê.

 .

Mas quando entrou no templo, lá estava esculpida em uma parede de luz, a imagem sublime daquele que, de braços levantados em plenitude infinita, comungara com seu Deus e a Seus pés depositara sua vida, que recebera um dia como divino presente.

 .

E agora o menino está aqui, à minha frente, e eu o vejo agigantar-se solene e poderoso, elevando seus braços aos céus, transmutando sombras em luz, silêncio em sons, mundano em divino.

 .

É o mesmo menino, eu sei.

Apenas se transforma em um guerreiro dourado, para cumprir sua tarefa de Amor.

Depois, volta a ser o menino que sempre foi.

 

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Quando virei a esquina, meio apressada, esbarrei nos três.

Por um  momento pressenti ter passado por algum portal no tempo. Em que século fui parar?

Maravilhada fiquei com suas vestimentas, coroas, jóias e atenta ao que acontecia ao redor, me pareceu que se dirigiam para algum evento, visto que carregavam presentes nas mãos; e minha imaginação viajou entre braceletes, anéis, tecidos de seda, mapas do tesouro!

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Depois do esbarrão, sorriram para mim, os três, e em cada um vi um brilho raro no olhar.

E como eram diferentes entre si… no porte físico, na etnia e seus trajes, na forma de caminhar, de falar, de tão generosamente sorrir.

Mas todos portavam coroas em suas cabeças; sobre um turbante, um véu ou sobre os cabelos.

Foi quando me dei conta de que deveria estar simplesmente na presença de três reis.

E, ao invés de lhes fazer uma reverência, pedi licença, um pouco constrangida, para fazer uma self com eles, mas o tempo que demorei para explicar e para eles entenderem o que isso seria, me fez desistir da ideia.

E assim, ajoelhei-me como um cavaleiro em suas presenças, o que me fizeram levantar de imediato, estendendo-me as mãos, com um sorriso nos lábios.

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O mais alto, de tez cor de jambo e olhos meigos, convidou-me a ir à festa com eles.

Neguei imediatamente; não estava vestida de acordo para acompanhá-los.

Ao que o outro, de tez clara e gestos doce, falou-me que haveria de surgir alguém que andaria descalço pelos caminhos da vida, sem se importar com vestes e adornos.

Por que, então, eles andavam vestidos com tanta pompa? pensei eu.

Foi quando o terceiro, de voz melodiosa, me respondeu que aquela era a vestimenta normal deles, tal como a minha era aquela, na qual me apresentava naquele momento.

Fiquei surpresa e envergonhada ao perceber que podiam ler meus pensamentos… magia?!?

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Mesmo assim, quis arrumar uma desculpa para não caminhar minha pequenez ao lado de seus passos.

Minhas melhores amigas fazem aniversário neste mês e gostaria de dar-lhes algo, como símbolo do laço cada vez mais forte de nossas amizades, disse eu.

Você terá tempo para isso, respondeu-me o de olhos meigos.

Vamos! Não podemos nos atrasar, a distância é grande, continuou ele.

Então perguntei-lhe o endereço e de que forma iriam para lá; a distância era enorme, conforme verifiquei no meu gps!

Caminhando, respondeu-me serenamente o de voz melodiosa.

Impossível! disse eu assustada, achando que não chegariam ao destino; ainda mais com aqueles mantos pesados, arrastando pelas ruas, o trânsito, os curiosos…

Reis têm carruagens, servos, amas, liteiras, ministros; aonde estão seus séquitos? mentalmente interroguei.

Deixamos para trás, em nossos reinos; somos nós os chamados para essa festa, falou o de gestos doce.

Então outra dúvida me assaltou (aliás, era o que eu mais sentia, dúvidas!): se deixaram tudo e todos para trás, inclusive um outro rei que precisou atender às necessidades urgentes de seu povo… por que convidaram à mim para segui-los nessa verdadeira jornada, para chegar a uma festa para a qual também eu não fui convidada?

Nada disseram; apenas me olharam e sorriram, acolhendo-me ainda mais para junto deles.

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Durante o trajeto vi, deslumbrada, outras magias acontecerem; os reis tiravam de seus mantos (de certo, de algum bolso embutido ou usando varinhas mágicas invisíveis) alimentos e água, entregando-os às pessoas que paravam para admirá-los.

A um, um pão; a outro, um carinho; a um, um abraço demorado; a outro, uma erva medicinal para seu ferimento; a um, um beijo; a outro, simplesmente um copo de pura água.

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E à noite, quando acampamos em um lugar muito alto e que eu nunca havia passado antes, ao invés de se alimentarem ou dormirem, ficaram fitando os pirilampos na relva e as estrelas no céu.

Em profundo silêncio.

Imitando-os, também olhei para a mesma direção; mas o que me impressionava mesmo eram suas imagens enormes, desenhadas pela luz da fogueira nas pedras e só então entendi a solenidade daquele sublime momento.

Foi quando vi uma estrela cadente riscar o negro céu e, sem querer, em uma alegria infantil, quase eufórica, falei alto e depressa, Faça um pedido para o seu coração!

Mais uma vez, os três entreolharam-se e também para mim, e sorriram.

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E aqui estou agora, com meus anjos e protetores Gaspar, Baltazar e Melchior, diante do Menino que nos envolve em cristalina alegria, que sorri como a cantar um hino, que agita e estende seus bracinhos…

E eu, num ímpeto de amor materno, sem pedir licença a alguém, tomo-O em meus braços, embalando-O e cantando para que permaneça sempre em meu coração!

Seus dedinhos macios agarram um dos meus e, assim, aconchegado ao meu calor, sorrindo adormece.

E este é o presente que trouxe a ti, pequeno Menino: minha eterna Gratidão!

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Este é um dos motivos que escolhi o Dia de Reis para inaugurar meu blog.

Este ano, a data, dentro da simbologia numérica, torna-se ainda mais especial: três reis magos mais sete anos de blog somados é igual a dez, ou seja, igual a UM.

 

 

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