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Posts Tagged ‘adeus’

céu estrelado

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Toda vez que Sara via ou ouvia um adulto gritando, brigando, xingando, se atracando; uma criança chorando, apanhando, berrando de dor ou de raiva; um animal sendo estupidamente escorraçado; um idoso maltratado e abandonado como um pacote inútil e pesado.

A cada situação que lhe fazia o ar faltar, o coração saltar do peito, as mãos a não lhe obedecer quando o que mais queria era postá-las em prece, apenas sua mente conseguia se manifestar e implorar, Deus, coloca Tuas mãos e abranda o coração de quem está causando tanta angustia, aflição, tanta dor, por favor, Deus…toma um dia de minha vida em troca da  serenidade e paz de cada um.

 

Quando Sara ouvia a sirene de uma ambulância, de uma viatura de polícia, de bombeiros ou resgates, parava o que estivesse fazendo no momento e pedia, Deus, proteja a todos os que estão envolvidos nesse procedimento, toma um dia de minha vida para que aconteça o melhor a cada um.

 

E assim Sara foi vivendo seus dias, suas angustias, seus temores, suas insônias, esses momentos que a desequilibravam totalmente, mas que conseguia, em forma de energia, doar um pouco de amor para tantos desamores acontecendo na vida.

 

E depois que implorava ao Deus de seu coração, Sara chorava.

Não sabia se de alívio, de dor, de tristeza em ver e sentir a desvalorização a que o ser humano se submete, numa lenta e auto-destruição.

E depois que Sara implorava (toma um dia de minha vida…), Deus se entristecia a também chorava.

 

Um dia encontraram Sara imóvel em sua cama.

O rosto sereno, os cabelos dormindo naquele travesseiro tão alvo, um sorriso nos lábios… sim, parecia um anjo.

Mas… tão nova! o que pode ter acontecido, alguém indagou; outro alguém balbuciou, perplexo diante de tal fato, Deve ter sido o coração…

 

Nenhum deles pôde ouvir a resposta, mas conto à vocês: Deus fez as contas de quantos dias Sara havia ofertado de sua vida e então resolveu aceitar a proposta por três razões.

Para confirmar a grandiosidade, a nobreza e humanidade do coração de Sara.

Por não mais aguentar ver Sara chorar todos os dias, tantas vezes ao dia.

Por querer aquele anjo a seu lado, livre, ajudando-O a levar paz àqueles perdidos em seus próprios, trôpegos e insustentáveis passos.

  

Que as Saras que restam no mundo não sejam todas apenas estrelas, mas que ainda estejam entre nós.

 

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Secret_Garden.

Diana queria tanto trazê-lo à sua vida ensolarada.

Principalmente quando via os olhos de Antonio turvados e sua face inescrutável, como sombra perdida na escuridão.

 

Diana sabia que lhe  doía a alma, mas mesmo sendo profunda essa cicatriz, mesmo sendo essa a profunda tristeza, Antonio não conseguia roubar a vontade que Diana sentia em vê-lo em pleno dia de muita luz.

Antonio sorriria um pouco, ainda que não fosse para ela, mas se a visse sorrir, Diana apostava que Antonio sentaria entre as flores no canteiro do jardim e cantaria uma de suas canções prediletas, aquela que só os pássaros cantam e que só os anjos entendem.

 

Ainda sorrindo, mesmo que silenciosa, Diana o pegaria pelas mãos e o levaria até a soleira da porta da casa onde ela deixara seu coração, daquela onde sempre está a pular corda e amarelinha, no compasso dos passos de Antonio.

 E lá Diana o entregaria definitivamente ao sol, talvez compreendendo  que o que já havia vivido bastasse para que, mesmo sozinha, sua vida continuasse sendo plenamente ensolarada pela lembrança de Antonio.

Afinal, não é assim que as imagens são guardadas dentro de cada um de nós, perguntou Diana a si mesma, enquanto virava a esquina, sem antes deixar de ver Antonio conversando com um esquilo de olhos brilhantes que lhe oferecia uma noz.

 

E Diana seguiu mais sozinha que nunca, levando em seu peito um vazio frio, calado, profundamente molhado de emoções tão fortes, de adeus.

Seguia quase que em transe, trôpega, com palavras costuradas na boca, porém com uma leveza assustadora no corpo e tudo porque, com seu gesto, estendeu a Antonio o pouco de paz que ainda havia dentro de seu coração.

A dor, a dor, ah! dor…

  

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Esperei por você a três dias e três noites da data conforme combinamos.

No primeiro dia choveu pela manhã e os carros que passavam rente à calçada respingaram alguma água da poça no meu casaco, aquele que comprei somente para ir encontrá-lo.

Mas não liguei porque estava tão feliz… um pouco ansiosa,  é verdade.

À noite vi na curva daquela rua que não sei por que me parece tão familiar, aquele ônibus antigo, de um verde que não se vê mais.

Parando no ponto, senhoras com chapéus um tanto exagerados desceram e também senhores de bengalas com cabos de prata e anéis de doutor a exibirem nos anulares.

Como sabemos você não veio, senão não estaria escrevendo neste instante, correndo o risco de minha carta não encontrá-lo caso você tivesse resolvido vir ao meu encontro.

 

No segundo dia o céu estava muito limpo e não sei por que me senti mais leve; na verdade senti sua aproximação, como se lá na esquina você já estivesse.

Pedi para um garoto comprar um lanche, receando deixar a parada de ônibus justo no momento em que você pudesse chegar.

Meio penalizado, o garoto me fez companhia enquanto eu comia, contando-me uma história que não entendi muito bem, do irmão que se alistou na marinha sem sequer saber nadar.

À noite abriguei-me debaixo da cobertura do ponto e como movimento não houvesse, pude até deitar-me no banco, esticando minhas pernas um pouco cansadas.

A barra do meu casaco já havia secado, embora tenha ficado suja.

 

No terceiro dia o sol chegou cedo, os trabalhadores também.

Alguns, já me reconhecendo, cumprimentaram-me.

Quando outro ônibus verde e antigo virou a esquina, dei um salto do banco, um jeito nos cabelos, um batom nos lábios e lembrei-me de colocar no rosto o mais doce sorriso que sabia dar.

Desta vez não desceram senhoras, senhoritas ou senhores.

Muitas crianças fazendo algazarra, desenhando gestos rápidos no ar.

Esperei até o último passageiro e nada de você.

Será que me enganei na data, no mês?

Será que aconteceu algo a você que não sei?

Será que no meio da viagem você desceu erroneamente em outra cidade?

Ou será que você desistiu…

As interrogações eram tantas que, para que não me atrapalhassem os passos, foi necessário guardá-las nos bolsos de fora e de dentro do casaco.

As que sobraram guardei-as na bolsa e em meu coração só couberam as reticências.

À noite pensei em dar uma corrida até uma cabine telefônica para ligar para sua casa, mas além de correr novo risco de você chegar e não me encontrar era quase certo que ninguém atenderia.

 

No quarto dia desisti.

Já não me sobravam energias, nem alegrias e nem esperanças.

Mas mesmo assim passei pelo correio para, quem sabe, pegar algum telegrama.

Nada.

Cheguei em casa e, de cansada, deitei no sofá e adormeci de roupa e tudo, e tudo significa de sapatos também, como dormem os mortos.

Depois de despertar meio assustada, tomei um banho demorado como quem lava mais uma vez a alma e resolvi escrever para você, querido meu.

 

Nesta altura dos acontecimentos, já não sei mais se gostaria de ter notícias.

Amanhã levarei meu casaco na lavanderia e quem sabe, por acaso, dê uma passada no ponto de ônibus.

Quem sabe no correio também.

Quem sabe.

Quem sabe eu vá embora, assim como fez você, mas não para tentar encontrá-lo e sim, para continuar a viver, visto que o que me resta é apenas a vida.

Mando-lhe um beijo que já não é mais saudoso; apenas um beijo, querido, que acho que também não posso mais chamá-lo de querido meu.

Mandei o garoto levar seu guarda chuva e deixar lá no ponto do ônibus.

Talvez, caso você venha, possa estar chovendo.

E depois de ler esta carta, na sua vida também.

 

   

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Adeus

 

Mas mesmo assim, encontrei-o escondido atrás das árvores.

Quando me viu através do espelho d’água, pelo mesmo espelho vi que se escondia mais e mais, na ilusão de que eu não o notasse.

Continuei lavando minhas mãos, olhos baixos, contrita, pensando que atitude tomar.

Passei levemente a mão na superfície das águas como uma libélula a matar sua sede, rio onde tantas e tantas vezes  juntos nadamos, desfazendo momentaneamente aquele espelho que se apresentara tão nítido.

Enxuguei-as lentamente naquele tecido amarelo e macio como pétalas de girassol, dedo por dedo, as duas mãos.

Quando não tinha mais como prolongar aquele instante, fui levantando os olhos da forma mais singela e delicada que eu poderia lhe dedicar   e, sem me virar, através do espelho já estático no tempo, lhe sorri.

Apesar de estar levemente trêmulo, levemente assustado, olhou-me fixamente, com decisão nos olhos e silêncios nos gestos.

Ficou paralisado, logo percebi sua infinita aflição.

Sentei-me no chão, a seus pés, ali mesmo na terra, no exato tempo em que ele, de súbito, também se sentou e nos abraçamos com profundo carinho, demoradamente, como se último fosse.

Depois tomou-me as mãos em suas mãos, olhando-me na alma como nunca fizera.

Inesperadamente, entre soluços contou-me com que frequência tem se escondido do tempo e das coisas perversas dos homens.

E temendo que eu também causasse algum mal maior pediu, quase que num sussurro inaudível,  para que eu me afastasse para sempre da sua vida.

Beijando-lhe as mãos, os olhos, a boca, aconchegando-o em meu peito para que sentisse o calor da vida a pulsar, pensei que poderia, sim, ter razão, que mais tarde eu o magoaria de alguma forma, em alguma atitude e, o pior, com alguma palavra afiada como cacos de vidro amanhecidos.

Mesmo assim persisti, insisti, tentando mostrar-lhe que, se necessário, poderia permanecer em silêncio ao seu lado, permanência invisível, compartilhando com ele apenas a minha alma por vezes embargada de emoção, quando seus olhos estivessem mergulhados no orvalho denso da madrugada.

Mostrei-lhe também que poderíamos, juntos, aprender a sorrir novamente, como sorriem as árvores quando a brisa as visita no final da tarde.

Ele permitiu então que eu permanecesse por mais algum tempo em sua vida.

Apenas por mais algum tempo.

Nada mais que um tempo.

 

 

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Não me faças lembrar

que tiveste outras

antes de mim

 

Peço-te, acolhe-me

como se eu fosse a primeira

e a única

a invadir tuas noites

insones

convidando-te a dançar

 

Brinca comigo

de colar em meu corpo

estrelas brilhantes

que eu colarei em teus cabelos

os beijos que sempre quis te dar

 

Não me faças lembrar

que enquanto sonhava contigo

tu elegias outra para guardar

com carinho e calor

a tua vida

 

Não me faças lembrar

que depois do dia vem a noite

a noite que sangra

porque depois do amor

vem o adeus

mãos vazias num tempo

de carinhos esquecidos

 

Não me faças mais uma

apenas brinca comigo

como brincam aqueles que se amam

pela primeira vez

 

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