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Renovação

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Passa-me diante dos olhos as aulas de artes manuais do colégio em época de páscoa.

Desenhávamos nossos coelhinhos, recortávamos e pintávamos; às vezes colocávamos bigodes de gato, de rato, menos de coelho.

E por falar em rato, ríamos muito de minha irmã Rosa quando pegava na tesoura; parecia que sua mão tinha dedos a mais, pois segurava tudo tão torto, fazendo caminho de rato nos recortes, nos tecidos, nos papéis.

Voltando às aulas.

Coelhos desenhados, recortados e pintados.

Fazíamos então seus dois cestinhos, um para cada mão, onde colocaríamos os ovinhos.

Bem, os ovos eram primeiro cozidos, depois mergulhados e água fria e descansavam alguns minutos no congelador (àquela época não havia freezer).

Depois pintávamos um por um, com cores fortes em desenhos feitos por minha mãe; ficava uma verdadeira obra de arte… de criança.

Justamente nesse ponto é que dava um nó na minha cabeça.

Primeiro, por que os coelhos usavam roupas como gente?

Segundo, por que pegavam cestos nas mãos se, na verdade, tinham patas?

Terceiro, por que ovos de galinha?

Quarto, por que ovos se coelho não bota?

Quinto, por que ovos de chocolate?

Sexto, sétimo, por que, oitavo, por que, por que…

As freiras não ligavam para minhas dúvidas infantis e assim, toda páscoa, eu fazia enfeites que não entendia.

Perguntava a meu pai que, muito católico, me explicava somente o sentido religioso e eu continuava não sabendo sobre coelhos e ovos.

Ia atrás de minha mãe que interrompia sua história a cada um que entrava na sala.

Minhas irmãs diziam simplesmente que eram ovos deliciosos e isso era muito bom!

Vovô pegou-me pelas mãos, levou-me para seu quarto e contou-me a historia dos coelhos e dos ovos, que gosto tanto de recordar, desse dia e da mulher que tinha muitos filhos e não podia presenteá-los por ocasião dessa festa.

Quando as crianças foram dormir e ela preparava sua marmita para o dia seguinte, a idéia veio num estalar de dedos, ou melhor, no estalar do ovo na frigideira.

Era isso mesmo! Cozinharia os ovos e depois de frios, os pintaria com cores vivas, atraentes.

Pegou uma cesta e forrou-a com um tecido bonito, depositando lá os ovos.

Mas… aonde os guardaria para que as crianças não vissem antes da hora… Já sei, pensou ela, Vou deixar no jardim entre as flores que nascem perto da cerca.

Quando os filhos acordaram, a mãe disse haver um presente escondido para cada um deles, ao que saíram em busca imediatamente.

Quando já haviam vasculhado toda a casa, saíram para quintal e depois para o jardim.

Pois justo nesse instante dois coelhinhos que estavam perto da cesta, saltaram e correram assustados.

E as crianças, olhos brilhando e cesta nas mãos, correram contar para a mãe, mostrando-lhe os ovos coloridos que os coelhinhos haviam trazido para eles de presente.

Por que conto essa história?

Prefiro-a a dizer palavras de renascimento e esperanças de vida… palavras que não fazem mais sentido no contexto grotesco em que estamos vivendo, sentimentos que não existem mais.

Para o adulto basta ver a criança com a boca lambuzada de chocolate.

Para a criança basta ver o adulto comprando.

Vovô querido, obrigada por me ajudar a manter essa criança em mim e por esse lindo momento que ficará sempre gravado com muito amor no meu coração; relembrá-lo me faz renascer.

E para você que me lê e que, apesar de tudo, acredita em renovação, desejo Feliz Páscoa e que cada momento seja de descoberta, reconhecimento, luz.

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