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Posts Tagged ‘alegria’

 

Nesta época de Natal, trazendo um pouco, a cada dia, as imagens dos Reis Magos do meu presépio para mais perto da imagem simbólica do Cristo menino, tive um daqueles devaneios que sempre surgem nesta ocasião.

Ocasião em que a humanidade mostra que realmente é movida por um amor interior que consegue aflorar universalmente, mas que depois é recolhido como se fosse um erro demonstrá-lo em todos os outros dias do ano, essa riqueza simples, pura, verdadeira.

Mas essa é uma outra história que, em outro momento, poderemos conversar e refletir… mas agora quero contar dos meus devaneios, talvez com uma necessidade premente de acariciar meu próprio coração de criança.

Me veio à mente aquelas imagens… era um tempo muito, muito feliz!

Um tempo que habita minha alma, meu viver, que me faz rir e chorar e morrer mais um pouquinho a cada lembrança…

Embora meu avô sempre dissesse para lermos um livro se nada tivéssemos para fazer, aconteciam momentos de vontade de nada fazer mesmo, de preguicinha ou de criatividade infantil, como a de telefonar para todos os conhecidos da família, para desejar boas festas.

– Vou ligar para Dona Anita Ramos, minha Mestra! – dizia eu, toda pirilampa e feliz.

– E eu vou ligar para o Armando Delmanto, meu amigo jornalista e escritor! – dizia minha irmã Rosa, toda orgulhosa!

– Ligue logo porque quero falar com Dona Maria – dizia minha irmã Margarida, apaixonada pelo Sérgio, neto dela.

Era uma disputa acirrada para usar o telefone; saía até uns empurrõezinhos.

Aí chegava a minha vez, novamente.

– Vou ligar para “Seu” Lacerda, nosso farmacêutico, pai de minha querida amiga Olga; um senhor muito espirituoso, alegre, generoso.

Margarida pulava a ordem da fila e ligava para a Ana Luíza Dorini.

E veio-me à mente aquela cena dela entrando na cozinha, toda feliz, dizendo à nossa mãe:

– Mamãe, mamãe! A Ana Luíza é minha amiga!

– Que bom, filha! Você conversou com ela?

– Não, mas ela disse “Oi” para mim! (rimos disso até hoje!)

E, a partir desse dia, Ana Luíza foi elevada à categoria de amiga.

Desde essa época, meninas que éramos, o conceito de amiga já era muito forte e valioso para nós.

– Agora sou eu! – e Rosa brigava comigo porque Margarida pulara sua vez e sobrara para mim; mas eu batia o pé:

– Não vem que não tem! Você é atrás de mim e eu depois da Margarida!

Na verdade eu já nem estava entendendo nada.

E para desviar o assunto, perguntei:

– Quem vai ligar para a Dona Assunta do empório?

Silêncio.

Troca de olhares.

Nenhum mosquitinho passou voando por ali naquele instante.

Explico: Da. Assunta era uma senhora italiana ou judia, não sei bem, muito alta e grande, de feições severas, mas que tinha um coração imenso, coração de mãe mesmo.

Porém, tínhamos medo dela, pois era muito severa com seu marido e funcionários.

Bom, para sair daquele impacto que acabei causando com a pergunta, logo me coloquei:

– Eu não posso ligar porque ela vai reconhecer minha voz!

É que eu vivia ligando lá e perguntando se tinha sardinha em lata, ao que ela respondia prontamente que “Sim, temos!” e eu, imediatamente pedia: – Solta as coitadinhas, estão tão espremidinhas, sufocadas! E desligava rapidinho.

– Eu ligo! – dizia Margarida e, ao invés de desejar boas festas a Dona Assunta, perguntava se aranha subia escada de tamancos! (literalmente chorávamos, de tanto rir)

Refeitas, Margarida ligava (furou fila outra vez!) para a Olga Royal, perguntando de sua coleção de bonecas, da loja de tecidos, do irmão e, claro, desejando um feliz Natal!

– Quem vai ligar para o Dr. Monteiro?

– O papai liga – Rosa respondia.

Às vezes achava que ele cuidava de nossos dentes através de hipnose, com aqueles olhos verdes, olhar de paisagem, paisagem infinita… e tome algodão no dente!

– Eu ligo para o Dr. Canto! Ele é legal e se você não deixar eu ligar – dizia eu para a Margarida –  vou contar para ele que você fingia que tossia só para arrancar páginas das revistas na sala de espera!

Falava só para chantageá-la, porque eu também fazia isso.

– Liga para a mãe do Bosco, Isabel! – dizia Margarida

Embora eu quisesse muito, pela possibilidade dele atender ao telefone e eu sentir meu coração disparar, tinha receio de fazê-lo porque ri na frente dela quando alguém me contou que, quando ela conheceu o marido, ele se apresentou dizendo “Muito prazer, meu nome é Benedito”, ao que ela respondeu “Prazer, e o meu é Benedita” e me parece que, em um primeiro momento, “Seu” Benedito ficou aborrecido porque entendeu que ela estava brincando com ele.

– O papai liga – falei – ele é amigo do pai, os dois são da Ordem Terceira de Francisco de Assis.

Às vezes acompanhava-nos nessas peripécias e em outras, nossa amiga Dilza Freitas, moleca como nós; tinha carinha de meiguinha, como eu, mas adorava uma “arte”.

A irmã dela, Damaris, era mais séria, já namorava e, por isso, participava raramente das nossas farras.

Se não era a Dilza, era a Marina Câmara, que morava praticamente em frente de casa e adorava uma banguncinha também.

– Corre aqui, corre aqui! – chamava a Rosa – a Ana João está passando!

Ana João era uma moça “fora da casinha”, uma andarilha, magrela que só ela, risonha, divertida. (às vezes ficava muito brava!)

Embora sempre de saia, blusinha curta, meias soquete e alpargatas nos pés, tinha um ar simploriamente masculino.

E nós três, da sacada de casa, gritávamos:

– Feliz ano novo, Ana João; feliz ano novo!!!

E ela sorria, sem a mínima noção do que falávamos; pegava nas pontas da saia parecendo que ia dançar…

– Liga para o Lalau, Rosa!- e ela ria e dizia, Eu não!

Lalau era nosso vizinho, um rapaz loiro, magro, o caçula de uma família barulhenta e alegre; a família Geraldino.

Lalau tinha um pequeno defeito em um dos pés ou pernas e mancava um pouco ao caminhar.

Rosa, espirituosa que sempre foi, fez um musiquinha para ele e logo nos ensinou e, tudo que é bobagem, criança aprende rapidinho, não é?

– Lá vem o Lalau! Lá vem o Lalau! – chamava a Rosa.

E corríamos novamente para a sacada, esperávamos o Lalau passar para depois cantar:

“ Ô Lalau, bambolê,

   Requebra as cadeiras

   Pra gente ver!”

E ele olhava para trás e derramava em nossos olhos aquele sorriso largo, aquele sorriso loiro e feliz!

Parece-me, hoje, que o que fazíamos talvez fosse inadequado; talvez o problema dele fosse mais sério, mais grave do que imaginávamos… mas ele ficava tão feliz!

Lembro-me que, mais tarde, meu pai comentava com minha mãe o quanto a conta do telefone havia aumentado, ao que minha mãe dizia, Não se aborreça, João, não se aborreça… nessa época utilizamos mais o telefone para falar com nossos parentes e amigos.

Nós abaixávamos a cabeça e ríamos escondido para nosso pai não ver.

Todos esses momentos vieram á tona, neste pequeno tempo enquanto os Reis Magos caminhavam para a tão próxima visitação.

Olhei no relógio que me mostrava a meia noite do primeiro dia do ano e tive uma última lembrança.

A de minha mãe teatralizando uns versinhos que aprendeu com sua mãe, ainda menina, fazendo-nos tremer de medo e rindo de nossa reação, por certo com olhos arregalados e fisionomia lívida.

Então dizia gesticulando e com voz lúgubre:

“ Meia noiteeee…

  Cabelos para o arrrr…

Pega um enorme facão…

E passa manteiga no pão!!!”

Mandei, no ato, esta lembrança para minha irmã Rosa, para que sentíssemos, juntas, a emoção daquele momento.

Dançaram à minha frente as imagens de Dona Iolanda, seu marido Leonel e os filhos com os quais barganhávamos frutas (amora x jabuticaba) através do muro; os queridos Nélio, Celso, Telita e Ginho.

As imagens de minhas amigas Ilza Nicoletti, Edna Bassoli, Cleuza Crespan, Cristina Cariola, Cristina Parret, Sonia Cabral, Lúcia Alves, Heloisa Pardini e Heloisa Moreira, Rosa Popolo (nossa! que saudades.); Magnólia, Dona Heda, Dona Maria Caricati, Eunice.

 

Fui me deitar com o sentimento de felicidade na pele, no pensamento, nos lábios, no coração.

E quando acordei, assistindo a uma palestra de Ariano Suassuna, o ouvi dizendo que a data de 6 de janeiro tem um significado muito importante em sua vida.

Na minha também – confidenciei-lhe mentalmente.

Mais um motivo, além do dia de aniversário do meu blog (uma criança de 9 anos), a enternecer meu coração.

E, neste instante, tenho apenas um pensamento na alma: Como sou abençoada!

Feliz Dia de Reis!!!

 

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Seis de Janeiro

 

 

Surgiram à minha frente do nada, assim, de repente, como se tivessem caído do céu ou de um telhado ou do alto de uma mangueira (é possível?)

 

Um deles, trazendo uma espada de madeira na cintura e uma capa nos ombros de saco de estopa, mostrava um sorriso escancarado no rosto, olhinhos que pareciam jabuticabas, negrinho como uma noite sem lua e estrelas.

 

O outro, trazendo uma lata sem fundo de goiabada na cabeça, também trazia uma toalha de mesa bastante rota amarrada ao pescoço, como um manto a arrastar-se pelo chão.

Mas o que me chamou a atenção mesmo foi o silêncio que trazia consigo, um silêncio que brilhava nos olhos, meio encobertos por sua cabeleira desalinhada, assim como labaredas alaranjadas de um por de sol.

 

E finalmente o terceiro, um baixinho serelepe, trazendo uma toalha de rosto meio encardida enrolada na cabeça, exibindo um broche (disse que da avó) preso na altura da testa, mostrando que a pedra era tão verde quanto seus olhos e, por isso, apresentava uma teoria de que ela era um terceiro olho que tinha, do jeito que ouviu, um dia, de um moço meio maluco que encontrou na rua.

 

Andavam, pulavam, cantavam à minha frente, como se a pobreza não os incomodasse, como crianças que riem à toa, sem motivo, pelo simples fato de viver.

 

Reparei então que cada um deles trazia uma caixinha de madeira nas mãos e que, deliberadamente, as seguravam perto do coração.

Fiquei curiosa, apertei o passo (tive até que dar uns pulinhos para alcançá-los, acredita?) e, alcançando-os, contei da minha curiosidade.

 

Pararam à minha frente, outra vez de repente, como tudo que estava acontecendo tão de repente.

Sério, o de olhos de jabuticaba abriu sua caixinha e eu vi uma porção de cinzas, restos do que fora uma folha de papel.

E, tomando uma postura solene, disse-me que eram cinzas de uma carta que queimara porque, toda vez que sua mãe a lia, chorava e escondia o rosto entre as mãos, como que escondendo-se do pouco de alguma coisa que restou, Um vazio, não sei, disse ele.

Eu não quero mais ver minha mãe triste, moça, nunca mais; quero que ela comece a sorrir para todas as coisas deste mundão!

Vou jogar essas cinzas lá no rio, longe de casa, para ela nem mais sentir o cheiro…

E fechou a caixinha, encostou-a junto ao seu coração, voltando a sorrir novamente.

 

O segundo, de cabelos de sol já preguiçoso, abriu sua caixinha sem eu pedir e, surpresa, vi uma plantinha com raiz e tudo, até com um pouco de terra e ele foi logo explicando que, perto de sua casa havia uma fábrica de não sei o quê, que deixava tudo cheirando muito mal, Que nem o pum do vovô quando come batata doce, moça; é um horror, todo mundo sai correndo porta a fora!

Quero plantar essa roseirinha lá na pracinha, moça, para enfeitar o olhar de quem a possa ver; então sentiremos o perfume das rosas!, completou.

 

O terceiro, o do broche, hesitou em abrir sua caixinha e só depois de alguns segundos que fitou-me nos olhos é que a abriu.

O que havia dentro?

Nada?!?, disse eu.

Como nada? respondeu, com profunda reverência. Tem tudo e como esse tudo é tão grande, precisa ser invisível para caber aqui dentro! Já pensou se eu chego lá no presépio e o Menino Jesus me pede alguma coisa que eu possa não ter na minha caixinha?

 

Fiquei de boca aberta e os três começaram a rir da expressão que eu certamente fiz e nesse momento entendi que não era a primeira pessoa a passar por essas surpresas.

Enquanto se afastavam, rindo alto, fiquei pensando nos presentes de suas caixinhas…

 

Já na esquina, voltaram-se para mim me chamando, Venha, moça, venha brincar com a gente de reis magros!

Rindo do trocadilho, respondi que eles já estavam em três reis magros e que eu era gorda!

Não faz mal, moça, faz de conta que você é o papai noel! Vem!

 

Será possível isso acontecer aqui, nestas ruas de São Paulo, tão vazias de encantos?

Não sei… talvez em sonho.

 

Hoje meu blog completa oito anos.

De tentativa de levar alguns sonhos para aqueles que ainda acreditam que suas crianças interiores os habitam.

Como eu, ainda encontram uma forma de agradecer os momentos vividos e também aqueles só sonhados e ainda não realizados.

Não importa, porque sonhar é abrir um portal na mente onde deixamos entrar apenas aqueles escolhidos pelo coração.

Hoje, dia de Reis, dia da Gratidão, deixo aqui a minha, a todos que me fizeram e fazem sonhar.

 

 

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É um periquitinho australiano (verdinho como alface americana) que habita minha casa desde 16 de Abril.

Minha vizinha, Maria Lúcia, uma senhorinha de 94 anos e que tinha uma vida bastante ativa (ia a restaurantes todos os dias, fazia aulas de pintura e de modelagem em cerâmica, adorava teatro, concertos e cinema) foi internada antes da Páscoa porque um dia resolveu não se alimentar mais.

Simplesmente.

Como ficou mais de um mês hospitalizada, me ofereci para cuidar de seu periquitinho.

Depois de um tempo, quando ela voltou para casa, a cuidadora e a enfermeira procuravam alguém que quisesse ficar com o bichinho.

Foi quando me ofereci mais uma vez (pois já havia um laço de amor entre nós) e assim, Plin, nome dado pela Maria Lúcia, veio alegrar e enfeitar minha casa.

Ou melhor, veio modificar a rotina de minha vida.

Plin (eu o chamo de Plingo) acorda entre 6:45 e 7:00hs

Converso um pouquinho com ele e, já bem acordado, canta por uns bons minutos, como se estivesse me contanto o sonho que teve.

Depois vai se alimentar (seu café da manhã) quando recebe sua comidinha e sua água fresca e limpinha.

Após eu higienizar sua casinha, entre 10:30 e 11:00hs Plingo toma banho e como é bom vê-lo brincando na e com a água.

Corro pegar o celular para filmá-lo, mas eis que já saiu da água e só vai voltar para ela quando eu virar as costas, como se estivesse a zombar de mim.

Adora música, principalmente baladas e blues, além de canções nas vozes das divas do jazz.

Quando vou regar as plantas do terraço deixo-o por perto para ver e ouvir a água jorrando da mangueira.

É quando enlouquece de tanto cantar e só fica mais eufórico quando as maritacas (suas parentes) vêem cantar em cima do telhado pela manhã e à hora do por do sol.

É uma festa e eu me delicio com toda essa algazarra!

Já conheço seus piadinhos de fome, de susto, de chamamento, de alegria e de carinho.

Digo de carinho porque ensinei-o a dar beijinho, apesar de que dia desses eu me descuidei e ele me deu uma valente bicada no queixo.

Estou tentando familiarizá-lo com minhas mãos para que futuramente venha sentar-se em meus dedos, mas ele ainda não confia em mim.

Dorme às 19:00hs e depois desse horário é proibido transitar no escritório (dorme lá nas noites de frio).

Antes de deitar-me vou espiá-lo e lá está ele, agachadinho no poleiro, parecendo uma bolinha estufada de penas, com a cabecinha enfiada debaixo de sua asinha.

Comprei uma gaiola linda, clara e grande; coloquei um galho seco dentro para diferenciar e proporcionar outros lugares para ele passear, além de uma ótima alimentação e muitas frutinhas.

Na verdade, me corta o coração em vê-lo preso na gaiola, embora saiba que se eu soltá-lo, não saberá voar alto e tão pouco procurar alimento (tenho esperanças de um dia poder soltá-lo, que seja, pela sala).

Ouvindo seu gorjeio tão gostoso e constante, vem-me um pensamento (não querendo justificar esse cativeiro) de que todos nós estamos presos de uma certa forma, em gaiolas invisíveis que nos limitam uma maior expansão, dominados que ainda somos por ignorarmos nosso próprio potencial; e assim, nos debatemos e muitas vezes até chegamos a nos ferir e a ferir os outros.

Como meu Plingo, não temos asas podadas, mas não sabemos ainda o que fazer com elas ou o quão alto podemos alçar nosso vôo.

Perdoe-me leitor, por tomar seu tempo; a quem é que pode interessar a rotina de um periquito senão à mim, que estou apaixonada por ele?

Bom… com licença que agora é hora d’eu cantar para o Plin dormir; não sei muitas canções de ninar, mas canto bem baixinho, baixinho mesmo.

É uma hora mágica esta, porque é uma forma d’eu externar meu amor por ele e de mostrar que no meu coração não há grades, mas apenas gratidão pela alegria que ele me proporciona com sua existência.

– Boa noite, Plingo, meu pedacinho de Deus!

 

 

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Filosofar

moça e água

 

Rio

porque esta que me olha

me sorri

e eu nem sei quem é

 

Estende-me as mãos

me oferece uma flor singela

e eu me aproximo do rio

para ver

quem é?

 

E por estar assim

rés ao espelho d’água

nele caio como um sopro

 

Rio

porque mergulho no rio

e o rio porque se envolve em mim

 

E rimos os dois

o rio porque corre em mim

eu porque corro com o rio

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Violeta

 

 

Hoje vi uma violeta chorar.

Meu coração ficou apertado pelo seu sofrer.

Já não parecia uma violeta e sim, um passarinho sem rumo, a estranhar seu próprio ninho.

 

Entre uma lágrima e outra, ouvi seu pipilar de dor, pela ingratidão de alguma palavra mal colocada, quando às vezes as pessoas pecam tanto por falar antes de escutar.

Tentei abrandar seu ferimento com outras palavras e com o cuidado que devemos ter com as flores do jardim de nossas vidas.

 

Quando a deixei, Violeta não era mais um passarinho; já havia retomado sua condição de violeta, bonita, iluminada e vívida com sua sabedoria adquirida através de sorrisos e também alguns espinhos.

 

Mas… – alguém me diria – violeta não tem espinhos!!!

Ao que eu responderia, É por isso que Violeta, depois de lavar seu rosto e tomar uma água fresca e límpida, consegue desenhar um lindo sorriso no rosto, voltando a brilhar.

 

 

Escrevi estas palavras para minha mais nova amiga, Violeta Inês Pinto de Oliveira, uma pessoa que vou conhecendo aos poucos, mas que sinto trazer no coração tanta bondade, delicadeza e alegria de viver.

E o tempo não é nada quando comparado ao que recebo de algumas pessoas como ela.

 

 

 

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Há tanto o que lembrar… da infância, da mocidade, da fase adulta.

Há tanto o que contar… tudo borbulha como se fosse urgente o tempo de recordar momentos de uma só vez.

E com as lembranças emergem as vozes e sorrisos de nossas mães (Anámaria, Anámaria, onde está você? dizia sua mãe); das brincadeiras de teatrinho que fazíamos, das músicas que cantávamos (você nos fazia chorar com a canção do Pobre Peregrino); dos namoradinhos e bailes de gala, onde íamos desfilar nossas alegrias; de nossos passeios pelos jardins de minha cidade, quando você ia passar suas férias levando em sua bagagem as novidades da capital.

Me vem à mente neste instante, uma lembrança tão remota de quando, em sua casa ainda lá na Pires da Mota, vi pela primeira vez uma propaganda do Toddy na televisão e, no intervalo, corremos para a cozinha para fazer o nosso, batido no liquidificador, conforme orientação de seu irmão Roberto.

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No entanto, neste momento, nenhuma palavra reflete meu sentimento presente.

Achei que o silêncio seria a forma mais absoluta de ainda tê-la por perto, posto que o fato tão drástico pegou a todos nós de forma tão brusca, traiçoeira, porém inevitável.

Já trazia em mim o silêncio de uma perda há três dias, agora acrescentada de mais esta.

Semana de desolação e tristeza.

Por isso, calei e profundamente senti aquela dor que sente somente aqueles que, esperançosos de um tempo melhor, não têm a chance da presença, da palavra reconfortante, do sorriso último.

Mas ontem, prima querida, fiquei a me interrogar se era você mesma quem vi sentada à nossa frente a sorrir e (veja só!) com seu alicatinho de cutícula nas mãos, a cutucar os dedos?! levava-os à boca e sorria para nós.

Foi você mesma quem vi envolvida por nossos sentimentos de amor e luz, no centro daquele templo, onde estávamos reunidos na sua presença de paz e de certeza do caminho que traçou para seus pés?

Junto à música ouvi seu riso, sua voz a alcançar notas tão altas, afinada como sempre foi, como um pássaro maravilhado pela luz de sua própria natureza.

Foi você mesma, querida Ana, sei que sim!

Da mesma forma que há décadas atrás comigo conversou e que, pela primeira vez, me fez pensar em buscar a espiritualidade dos e nos fatos, das e nas pessoas e, em mim mesma.

Você me incentivou e ajudou a descerrar o primeiro véu; foi quando a vida começou a me parecer outra, mais profunda, com um sentido mais intrínseco que até hoje busco entender, assimilar e nele me situar.

Aqui, diante desta rosa, símbolo de sua alma, eu a reverencio pela pessoa incrivelmente linda e doce, batalhadora e persistente, alegre a altruísta que foi, como lembrou nossa prima Marcela de que você, querida Ana, sorria pelos olhos.

Mas eu a reverencio principalmente por ter, um dia, me tomado pelas mãos e mostrado que a vida é muito mais do que vemos, do que sentimos e entendemos; que a vida é maior e melhor quando mergulhamos nas buscas, abandonando a superfície, descobrindo na interioridade a diferença entre estar e ser.

Nossos telefonemas cessam; não ouvirei mais sua voz suave, sua risada, seus anseios, seus estímulos e também suas dúvidas, mas nossa comunicação permanecerá, talvez agora por sonhos ou de alguma outra forma.

Você atingiu seu ponto de breve descanso, enquanto sigo pelos meandros do caminho que escolhi, trazendo a certeza de que em nenhum momento você esteve só, como não está agora e nunca estará.

Há tanto o que lembrar… minhas irmãs e primas contariam outras passagens, mais engraçadas, divertidas, porque você imprimiu marcas diferentes em diferentes pessoas.

Há tanto o que contar… quem sabe um outro dia; hoje quero simplesmente falar do meu profundo amor por você.

Vai em Paz, querida prima, que tudo está feito.

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Início de um ciclo, na continuidade de tantos outros.

Borbulham lembranças em minha pele; cheiram a mel, a ternura, principalmente a saudade…

 

Brincávamos com tudo o que nos haviam presenteado nossos pais, avô e padrinhos, no quintal de nossa casa.

Era manhã, fazia sol, nossos risos envolviam as flores, as plantas e aquele céu azulzinho, azulzinho, sem uma nuvem sequer.

 

Foi quando mamãe, preparando uma deliciosa sobremesa, pediu para eu pegar algo de que precisava, na quitanda da esquina de casa.

Mamãe sempre fazia isso e eu sempre atendia seu pedido.

Mas naquele dia eu queria ficar junto a meus irmãos, brincando, correndo, simplesmente rindo ao tempo.

Puxa, mamãe! a senhora tem cinco filhos mas só pede para mim!?!

Quem sabe, no caminho, você encontra seu príncipe encantado! respondeu ela, sorrindo.

 

Ah! como minha mãe me conhecia, sabia de meus desejos secretos…

Fui pega de surpresa, incrível!, um pensamento que nunca me havia ocorrido nas tantas vezes que já havia feito aquele trajeto.

Acreditei.

Acreditei e fui.

Quem sabe, viajando na mesma caravana dos reis magos, eu pudesse encontrar um príncipe que, ao contrário dos outros que levavam presentes ao Menino, estivesse trazendo um presente para mim, para encantar meus olhos, meu sorriso e fazer bater mais forte meu coração.

Era Dia de Reis de um ano que mora em mim.

 

 

Como disse em anos anteriores, por vários motivos íntimos escolhi esta data para inaugurar meu blog que hoje completa quatro anos; uma criança que engatinha entre as palavras, na esperança de nelas depositar a simplicidade, a sinceridade e todo o amor de seu coração.

 

 

 

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