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Posts Tagged ‘Álvaro Alves de Faria’

para Álvaro Alves de Faria

 

 

 

 

Quando te olhei pela primeira vez, sabia-te pastor.

 

Pedi permissão para me aproximar e com um aceno convidaste-me a ouvir histórias dos ventos que apascentam tuas ovelhas.

 

Ofereceste-me abrigo sob o luar, junto ao instante da noite e vislumbrei tua luz nas fagulhas e no fogo a crepitar e no límpido céu estelar.

 

Tuas ovelhas, mansas, serenas se aconchegaram a teus pés, fechando lentamente seus olhos molhados de amor.

 

Então tocavas doçura na tua flauta encantada para que, a sono profundo, tuas ovelhas continuassem a sonhar.

Com relvas tenras, com flores risonhas, com sombras de árvores maternas e água fresca a jorrar de tuas palavras.

 

Era quando sentias um pouco da imensa solidão dos poetas.

Mas ao vê-las quietas e ressonantes, sorrias para o tempo e para tuas mãos que sempre souberam decifrar tua alma diante da silenciosa eternidade.

 

Com o correr do tempo na pele, aprendi a balir com tuas ovelhas e hoje minha voz mistura-se a delas, suave, imperceptível, constante.

 

Quando te olhei, sabia-te pastor e humano.

Sabia-te encantador de ovelhas.

Como da primeira vez.

 

 

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“O povo é quem mais ordena e fará a ordem das coisas e da vida, como esse cheiro de um cravo vermelho que plantado está em mim, como se fosse minha terra, essa terra que também é minha”.

Álvaro Alves de Faria

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Estou indo passar uns dias no sítio para descansar um pouco, respirar ar puro, ouvir pássaros e dormir no ir e vir de uma rede que costuma embalar meus sonhos.

 

Levo comigo Alma Gentil – Raízes, como se leva o sagrado colado ao corpo, para que nada de mal possa atingi-lo, para que ninguém se aposse do que não é seu.

Composto de sete livros e, mesmo antes que eu lesse um deles (A Memória do Pai) ontem à noite quando cheguei, fiquei admirando a arte gráfica de sua capa, esse azulejo como símbolo de Portugal, sua cor de um azul irremediável.

 

Quando eu o abri, enquanto lia Graça Capinha, Nelly Novaes Coelho, Carlos Felipe Moisés, Miguel Sanches Neto e Manuel Ferro, todos presentes nas partes que li do livro até o momento, já começara a  sentir o perfume do sal e a brisa do mar e andei junto ao Álvaro e seu pai (mantendo uma certa distância para não importuná-los) pelas ruas, pelas luzes, pelas dores, pelas lembranças e saudades de Portugal, de um tempo que se tornou atemporal, posto que eterno no coração do poeta.

 

Minha alma de passarinho não se cansa de reler a dedicatória singela e carinhosa deixada na página primeira, como o é o olhar deste Poeta que se agiganta ainda mais à medida que vou enveredando-me por seus versos, sua alma gentil lusitana.

 

Dentre os dizeres escritos em um cartão entre orquídeas, deixei minha emoção: Obrigada Álvaro, obrigada Poeta por trazer um pouco do seu Portugal para cá.

 

 

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Não haveria espaço suficiente para falar do poeta que faz de mim uma sonhadora, através de seus poemas construídos com palavras ásperas ou com palavras de mulher ou de pastores perdidos em seus próprios campos e rebanhos, ou contando do mesmo e do outro ou de si mesmo, em meio a essa incrível torre de babel que me leva aos céus e me devolve à terra, como se voar fosse possível.

E nessa trajetória poética vou encontrando seus passos, seus pedaços, seus gestos, seus anseios e sua desesperadora vontade de acreditar que muitas coisas ainda são possíveis, na vida e na literatura, apesar da inversão de valores e absoluta falta de honestidade a que os verdadeiros poetas estão sendo submetidos nos tempos de agora.

Jornalista, romancista, novelista, cronista, ensaísta, entrevistador, tradutor,  poeta; um dos nomes mais significativos da geração 60 da poesia deste país; e como Paulo, um dos apóstolos, leva incansavelmente suas palavras, seu sermão no viaduto, para aqueles que anseiam como ele, por uma verdadeira renovação de sonhos, delírios, saltos mortais, reencontro.

Seus livros trazem toda a sua biografia, quase completa, como ele mesmo diz; e quero que ela permaneça assim por muito tempo, incompleta, porque assim sentirei que sua busca continua incessante, investigadora, descobridora, sensível como um gesto quase que invisível e solto no ar, no hálito, no beijo, na palavra, no silêncio.

Lá, na biografia de seus livros, é possível se  saber de todo o seu traçado registrado nos anais da literatura brasileira e do exterior.

Aqui, quero deixar um de seus poemas (o que não me foi nada fácil escolher, escolhido que foi pelo instante que vivo), para sentirmos um pouco da magia de suas palavras, das cores e dos sons de seus sentimentos.

 

 O Azul Irremediável

Quando o azul for irremediável

é porque não há mais saída

para nada.

Quando o azul for irremediável

na tez e no tecido

no quadro e no olhar

é porque

tudo já é ausente

no quarto

nas figuras de gesso

nas xícaras de chá

no cálice de licor.

O azul será irremediável

sempre

que for necessário

observar

os momentos derradeiros.

                                                            Álvaro Alves de Faria

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