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Seis de Janeiro

 

 

Surgiram à minha frente do nada, assim, de repente, como se tivessem caído do céu ou de um telhado ou do alto de uma mangueira (é possível?)

 

Um deles, trazendo uma espada de madeira na cintura e uma capa nos ombros de saco de estopa, mostrava um sorriso escancarado no rosto, olhinhos que pareciam jabuticabas, negrinho como uma noite sem lua e estrelas.

 

O outro, trazendo uma lata sem fundo de goiabada na cabeça, também trazia uma toalha de mesa bastante rota amarrada ao pescoço, como um manto a arrastar-se pelo chão.

Mas o que me chamou a atenção mesmo foi o silêncio que trazia consigo, um silêncio que brilhava nos olhos, meio encobertos por sua cabeleira desalinhada, assim como labaredas alaranjadas de um por de sol.

 

E finalmente o terceiro, um baixinho serelepe, trazendo uma toalha de rosto meio encardida enrolada na cabeça, exibindo um broche (disse que da avó) preso na altura da testa, mostrando que a pedra era tão verde quanto seus olhos e, por isso, apresentava uma teoria de que ela era um terceiro olho que tinha, do jeito que ouviu, um dia, de um moço meio maluco que encontrou na rua.

 

Andavam, pulavam, cantavam à minha frente, como se a pobreza não os incomodasse, como crianças que riem à toa, sem motivo, pelo simples fato de viver.

 

Reparei então que cada um deles trazia uma caixinha de madeira nas mãos e que, deliberadamente, as seguravam perto do coração.

Fiquei curiosa, apertei o passo (tive até que dar uns pulinhos para alcançá-los, acredita?) e, alcançando-os, contei da minha curiosidade.

 

Pararam à minha frente, outra vez de repente, como tudo que estava acontecendo tão de repente.

Sério, o de olhos de jabuticaba abriu sua caixinha e eu vi uma porção de cinzas, restos do que fora uma folha de papel.

E, tomando uma postura solene, disse-me que eram cinzas de uma carta que queimara porque, toda vez que sua mãe a lia, chorava e escondia o rosto entre as mãos, como que escondendo-se do pouco de alguma coisa que restou, Um vazio, não sei, disse ele.

Eu não quero mais ver minha mãe triste, moça, nunca mais; quero que ela comece a sorrir para todas as coisas deste mundão!

Vou jogar essas cinzas lá no rio, longe de casa, para ela nem mais sentir o cheiro…

E fechou a caixinha, encostou-a junto ao seu coração, voltando a sorrir novamente.

 

O segundo, de cabelos de sol já preguiçoso, abriu sua caixinha sem eu pedir e, surpresa, vi uma plantinha com raiz e tudo, até com um pouco de terra e ele foi logo explicando que, perto de sua casa havia uma fábrica de não sei o quê, que deixava tudo cheirando muito mal, Que nem o pum do vovô quando come batata doce, moça; é um horror, todo mundo sai correndo porta a fora!

Quero plantar essa roseirinha lá na pracinha, moça, para enfeitar o olhar de quem a possa ver; então sentiremos o perfume das rosas!, completou.

 

O terceiro, o do broche, hesitou em abrir sua caixinha e só depois de alguns segundos que fitou-me nos olhos é que a abriu.

O que havia dentro?

Nada?!?, disse eu.

Como nada? respondeu, com profunda reverência. Tem tudo e como esse tudo é tão grande, precisa ser invisível para caber aqui dentro! Já pensou se eu chego lá no presépio e o Menino Jesus me pede alguma coisa que eu possa não ter na minha caixinha?

 

Fiquei de boca aberta e os três começaram a rir da expressão que eu certamente fiz e nesse momento entendi que não era a primeira pessoa a passar por essas surpresas.

Enquanto se afastavam, rindo alto, fiquei pensando nos presentes de suas caixinhas…

 

Já na esquina, voltaram-se para mim me chamando, Venha, moça, venha brincar com a gente de reis magros!

Rindo do trocadilho, respondi que eles já estavam em três reis magros e que eu era gorda!

Não faz mal, moça, faz de conta que você é o papai noel! Vem!

 

Será possível isso acontecer aqui, nestas ruas de São Paulo, tão vazias de encantos?

Não sei… talvez em sonho.

 

Hoje meu blog completa oito anos.

De tentativa de levar alguns sonhos para aqueles que ainda acreditam que suas crianças interiores os habitam.

Como eu, ainda encontram uma forma de agradecer os momentos vividos e também aqueles só sonhados e ainda não realizados.

Não importa, porque sonhar é abrir um portal na mente onde deixamos entrar apenas aqueles escolhidos pelo coração.

Hoje, dia de Reis, dia da Gratidão, deixo aqui a minha, a todos que me fizeram e fazem sonhar.

 

 

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Todo Natal sinto uma tristeza que me aperta o coração.

Mas não é, como muitos pensam, de saudades de meus queridos que hoje são estrelas; eles continuam me habitando e os vejo brilhar, a qualquer momento que eu queira, no céu de minha Alma.

Sinto-me assim porque, apesar da palavra do momento ser “crise”, as lojas e ruas se apresentam como um tsunami de pessoas que correm desvairadas, ansiosas e desesperadas atrás de presentes, comidas e bebidas.

 

Minha sorte, meu privilégio, meu merecimento, não sei, foi me encontrar em uma noite dessas com um anjo. É, um anjo!

E sabe o que mais? Mandou-lhe um beijo!

Não se espante, é para você, sim, que me lê neste instante!

Um beijo simplesmente.

 

Depois de expressar seu pedido, ou seja, de que eu fosse a portadora desse seu desejo, ficou a me sorrir.

Procurei desvendar em seu sorriso um motivo, mas ele só me devolveu outro sorriso.

Perscrutei seus olhos em busca de uma razão mais profunda …

E ele, meio que se divertindo com esse meu interrogatório silencioso, da mesma forma me olhava e sorria.

Não procure o que não existe, disse-me ele.

Mesmo assim fitei-o por mais um pouco e não senti em seu olhar nada que justificasse uma emergência, uma necessidade maior do que a vontade de enviar-lhe um beijo, lembrando, à você que me lê.

Tudo bem, pensei, darei o recado, mas… e eu não ganho nada? interroguei com o olhar, habituada que estou, como todo mortal, de sempre querer ganhar alguma coisa.

Você já indagou um anjo? se não, saiba que a resposta vem de imediato!

 

Sentados a uma mesa, frente a frente, tomou-me as mãos entre as suas e eu pude sentir com que intensidade fluía nesse toque, toda a ternura de sua imagem etérea, a sua alegria, o seu cuidado reverente com os momentos.

Depois, levantou-se e lentamente veio em minha direção.

Tomou-me o rosto entre suas mãos tão suaves ao mesmo tempo que firmes.

E deu-me um doce e longo beijo, primeiro nos olhos, depois na boca.

Senti por todo o meu corpo uma corrente de energia em intenso movimento, roubando-me os sentidos.

 

Depois que essa eternidade passou em mim, abri os olhos como que ainda encantada…

Ele continuava a sorrir.

Este é para você, disse-me num sussurro.

E se foi, lentamente, jardim a dentro, este que cultivo em meu coração.

 

Bem… acho que você deveria estar feliz por eu estar contando que um anjo mandou um beijo à você, mas você deve estar se perguntando como sei que era um anjo, não é isso? por isso é que às vezes perdemos os melhores presentes, porque nos preocupamos com o menos importante…

 

Mas vou te contar; pelo simples motivo de ver estrelas brilhando em seus olhos, melodia em seu sorriso, luz intensa cingindo sua cabeça, parecendo-me até, por segundos, vislumbrar asas em lugar de seus braços.

E seu beijo…Ah! seu beijo… é um beijo que somente um anjo saberia dar!

 

Espero que você não seja uma dessas pessoas que diz, Mas quanta fantasia, quanto devaneio ou mesmo quanta bobagem! e saem por aí preocupadas com comidas e bebidas, apenas brincando de ser feliz, sem se importar com o presente que acabou de ganhar!

 

 

Nascer é reviver, é renovar, é renascer em si mesmo através de novas oportunidades, de sonhos, de esperanças.

 

 

 

 

 

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Menino Lindo!

 

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Menino lindo

de cabelos de seda

olhos de estrelas

sorriso sereno

lábios doces

beijo de alma para alma

.

Brinca, dança

sonha

estende as mãos

entrega o riso

.

Canta baixinho

uma canção de amor

resolveu ser sonhador

.

Viaja no eterno

traz presentes de outros mares

conta histórias de lugares

onde só ele pode chegar

.

Menino lindo

de cabelos de seda

sabe voar, posto que é anjo,

para depois retornar

.

E contar das estrelas que colheu

e dos oceanos permanentes

em seu coração

.

Menino lindo!

 

 

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Dia desses assisti ao filme O Doador de Memórias, baseado no livro de Lois Lowry, com o maravilhoso ator Jeff Bridges, sob a direção de Phillip Noyce.

A sinopse diz que trata-se de um mundo feliz (apenas na aparência) onde, através de um conselho de anciãos, um rapaz que completa 18 anos é escolhido para tornar-se o receptor das memórias de um passado real ocorrido na comunidade em que vivem.

Só o ancião mais sábio, que um dia também foi escolhido por outro, tem condições, como doador, de passar, através de algumas técnicas, as memórias passadas, completamente desconhecidas pelos habitantes atuais.

É quando o rapaz, tomando conhecimento das memórias, entra em conflito com o seu até então aprendizado padrão, confrontando-o com a realidade omissa em que vê acontecer ao seu redor.

Não vou contar o impasse do filme, mas sim, o que me levou a uma profunda reflexão e à necessidade em vê-lo por mais de uma vez.

As cenas são, até certo ponto, em preto e branco e o doador de memórias explica que, em um determinado momento no passado, o conselho assim deliberou, como única alternativa para extirpar de vez a inveja, o orgulho, o ódio, a ambição, a prepotência que predominavam entre as pessoas; tirando a cor de tudo e  criando esse mundo padrão, preto e branco, insípido, de mesmices, onde as pessoas têm sentimentos mascarados, superficialmente educadas umas com as outras, mas completamente desprovidas de emoção e verdade.

Assaltou-me à mente e isso assustou-me bastante (ainda me assusto!) a ideia de que, será essa a solução para recomeçarmos a vida social, política e profissional?

Será que haverá necessidade de se eliminar de vez as “cores” (a vida) das coisas (e emoções) para se zerar as mazelas do mundo?

E como todo “mundo perfeito”, também eliminar de forma fria e prática, bebês indesejados e velhos indefesos?

Será que, em uma inversão de papéis, já não moramos nesse mundo mascarado, onde os corruptos, os violentos, os sem caráter descoloriram nossas vidas, tirando-nos a alegria de viver, de planejar, de descobrir nossos caminhos, vontades, emoções?

Como disse, não quero entrar em mais detalhes,  mas há que se ver esse filme com cuidado, pois são muitas as situações expostas que nós podemos comparar com esta realidade difícil, antes inimaginável, em que estamos vivendo.

Mas, como no filme, há uma palavra chave que cura e curará as feridas abertas, causadas pelo próprio ser humano.

É nela que reside uma profunda reflexão.

 

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União

anjo-1

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O tinir da sineta por nove vezes

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Há um silêncio no coração de quem busca

sussurros ouvidos somente por aqueles

que se entregam ao profundo momento

como a um sublime segredo

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É quando atravesso o espelho

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Levam-me lentamente

num sopro de sons

no perfume das pétalas

e do incenso

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Levam-me a banhar os pés

em respeito ao solo

onde irei tocar

.

Trocam-me a veste

de puro e alvo linho

cingida pelo laço da união

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Atravesso mais um espelho

.

Quem me guia toca-me o braço

se assim não fosse eu volitaria

diante da Rosa e da Cruz

Luz intensa, intensa emoção

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Atravesso mais um espelho

.

Sinto-me fundida àquela chama

sinto-me una

invisível energia

em plena Paz

.

De meus olhos

brotam lágrimas de amor

mas ali já não estou

.

No mais profundo de meu ser

minha Rosa

minha Seiva, meu Sol do leste

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Penso em reagir, retornar

mas… para quê?

se estou nos braços de Deus!              

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Quando virei a esquina, meio apressada, esbarrei nos três.

Por um  momento pressenti ter passado por algum portal no tempo. Em que século fui parar?

Maravilhada fiquei com suas vestimentas, coroas, jóias e atenta ao que acontecia ao redor, me pareceu que se dirigiam para algum evento, visto que carregavam presentes nas mãos; e minha imaginação viajou entre braceletes, anéis, tecidos de seda, mapas do tesouro!

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Depois do esbarrão, sorriram para mim, os três, e em cada um vi um brilho raro no olhar.

E como eram diferentes entre si… no porte físico, na etnia e seus trajes, na forma de caminhar, de falar, de tão generosamente sorrir.

Mas todos portavam coroas em suas cabeças; sobre um turbante, um véu ou sobre os cabelos.

Foi quando me dei conta de que deveria estar simplesmente na presença de três reis.

E, ao invés de lhes fazer uma reverência, pedi licença, um pouco constrangida, para fazer uma self com eles, mas o tempo que demorei para explicar e para eles entenderem o que isso seria, me fez desistir da ideia.

E assim, ajoelhei-me como um cavaleiro em suas presenças, o que me fizeram levantar de imediato, estendendo-me as mãos, com um sorriso nos lábios.

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O mais alto, de tez cor de jambo e olhos meigos, convidou-me a ir à festa com eles.

Neguei imediatamente; não estava vestida de acordo para acompanhá-los.

Ao que o outro, de tez clara e gestos doce, falou-me que haveria de surgir alguém que andaria descalço pelos caminhos da vida, sem se importar com vestes e adornos.

Por que, então, eles andavam vestidos com tanta pompa? pensei eu.

Foi quando o terceiro, de voz melodiosa, me respondeu que aquela era a vestimenta normal deles, tal como a minha era aquela, na qual me apresentava naquele momento.

Fiquei surpresa e envergonhada ao perceber que podiam ler meus pensamentos… magia?!?

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Mesmo assim, quis arrumar uma desculpa para não caminhar minha pequenez ao lado de seus passos.

Minhas melhores amigas fazem aniversário neste mês e gostaria de dar-lhes algo, como símbolo do laço cada vez mais forte de nossas amizades, disse eu.

Você terá tempo para isso, respondeu-me o de olhos meigos.

Vamos! Não podemos nos atrasar, a distância é grande, continuou ele.

Então perguntei-lhe o endereço e de que forma iriam para lá; a distância era enorme, conforme verifiquei no meu gps!

Caminhando, respondeu-me serenamente o de voz melodiosa.

Impossível! disse eu assustada, achando que não chegariam ao destino; ainda mais com aqueles mantos pesados, arrastando pelas ruas, o trânsito, os curiosos…

Reis têm carruagens, servos, amas, liteiras, ministros; aonde estão seus séquitos? mentalmente interroguei.

Deixamos para trás, em nossos reinos; somos nós os chamados para essa festa, falou o de gestos doce.

Então outra dúvida me assaltou (aliás, era o que eu mais sentia, dúvidas!): se deixaram tudo e todos para trás, inclusive um outro rei que precisou atender às necessidades urgentes de seu povo… por que convidaram à mim para segui-los nessa verdadeira jornada, para chegar a uma festa para a qual também eu não fui convidada?

Nada disseram; apenas me olharam e sorriram, acolhendo-me ainda mais para junto deles.

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Durante o trajeto vi, deslumbrada, outras magias acontecerem; os reis tiravam de seus mantos (de certo, de algum bolso embutido ou usando varinhas mágicas invisíveis) alimentos e água, entregando-os às pessoas que paravam para admirá-los.

A um, um pão; a outro, um carinho; a um, um abraço demorado; a outro, uma erva medicinal para seu ferimento; a um, um beijo; a outro, simplesmente um copo de pura água.

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E à noite, quando acampamos em um lugar muito alto e que eu nunca havia passado antes, ao invés de se alimentarem ou dormirem, ficaram fitando os pirilampos na relva e as estrelas no céu.

Em profundo silêncio.

Imitando-os, também olhei para a mesma direção; mas o que me impressionava mesmo eram suas imagens enormes, desenhadas pela luz da fogueira nas pedras e só então entendi a solenidade daquele sublime momento.

Foi quando vi uma estrela cadente riscar o negro céu e, sem querer, em uma alegria infantil, quase eufórica, falei alto e depressa, Faça um pedido para o seu coração!

Mais uma vez, os três entreolharam-se e também para mim, e sorriram.

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E aqui estou agora, com meus anjos e protetores Gaspar, Baltazar e Melchior, diante do Menino que nos envolve em cristalina alegria, que sorri como a cantar um hino, que agita e estende seus bracinhos…

E eu, num ímpeto de amor materno, sem pedir licença a alguém, tomo-O em meus braços, embalando-O e cantando para que permaneça sempre em meu coração!

Seus dedinhos macios agarram um dos meus e, assim, aconchegado ao meu calor, sorrindo adormece.

E este é o presente que trouxe a ti, pequeno Menino: minha eterna Gratidão!

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Este é um dos motivos que escolhi o Dia de Reis para inaugurar meu blog.

Este ano, a data, dentro da simbologia numérica, torna-se ainda mais especial: três reis magos mais sete anos de blog somados é igual a dez, ou seja, igual a UM.

 

 

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“Saiba Vossa Majestade que, haver, havemos cada vez menos, e dever, havemos cada vez mais”

( da obra “Memorial do Convento” – 1.982)

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Aqui estou novamente, Mestre, na tua presença.

É quando me é permitido encontrá-lo aonde estás e não aonde estou.

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Observo demoradamente tua imagem e no canto direito de tua boca pressinto um desalento contido; teus cabelos, quando longos e em constante desalinho, esvoaçavam como teus pensamentos pássaros, sempre em movimento; em tuas mãos de dedos longos, a serenidade interior e, por vezes, a resposta enfática, incisiva, que muitos ainda confundem com frieza, sarcasmo, ceticismo.

Mas como te conheço um pouco e te amo muito, isso já não me assusta; apenas o espanto de outros é que ainda me surpreende, depois de tantos ventos, tempestades, raras calmarias.

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Porém o que mais me atrai, sempre, é o teu olhar.

Essa fagulha de intensa luz e lucidez que vibra em todo o teu semblante.

Seria o mesmo olhar de quando o jornalista perguntou, na última entrevista,  Por que o senhor tornou-se escritor tardiamente? e, com paciência, respondeste Isso ninguém sabe, nem eu, nem eu! Mas isso ainda é preocupante? – como se não houvesse algo mais importante a ser dito.

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Teu olhar… com certeza tão diferente de quando, no teu exílio, navegava distâncias e saudades agora adormecidas.

E sempre que me lembro do teu exílio, me vem à mente O Conto da Ilha Desconhecida.

Não me canso de ler essa obra e fico a me perguntar se também não foste tu, Mestre querido, que aguçou-me a busca de mim mesma, porque tuas palavras em minha consciência reverberam sempre… Quero saber quem sou eu quando estiver na ilha; se não sais de ti, não chegas a saber quem és… que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não saímos de nós.

Será que não foste tu que me ajudaste a pintar, como no livro, as letras que faltavam na minha caravela, para que eu pudesse me lançar ao mar, no início temerosa, mas com o coração aberto em busca do novo, do desconhecido, do que muitos chamam de irreal?

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À tua frente sinto-me diante do mar, ora em turbulência, por vezes tranquilo, mas raramente ensolarado porque, mesmo agora não estando mais entre nós, ainda te pesam os rótulos atribuídos pelos ignorantes de tua vida, que nunca se propuseram a conhecer tua alma; apenas boiam na superfície das ondas, achando (sempre os achismos!) tua escrita salgada como o mar, nada mais.

Mas, como o mar, tens riquezas e belezas para quem se aventurar nas profundezas de tuas águas.

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Eu, no entanto, sentindo-o como o mar em eterno movimento, fico feliz em vê-lo ora verde, ora azul, dependendo do mar onde te encontras no momento deste nosso diálogo de almas e, te olhando assim tão de perto e silenciosa, continuo admirando tua coragem de não te esconderes, nunca, atrás de um remo, no fundo do porão de tua caravela, mas sim, sempre no leme de tuas verdades.

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Com certeza, aprendi contigo, Mestre, o hábito de carregar nas mãos uma bússola e atirar-me ao mar à procura de mim mesma.

O mar é UM, o começo do caminhar pra beira de outro lugar, como diz outro poeta.

 

Hoje comemora-se a data de teu aniversário, mas quem continua ganhando o presente sou eu.

Sempre.

 

 

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