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“Saiba Vossa Majestade que, haver, havemos cada vez menos, e dever, havemos cada vez mais”

( da obra “Memorial do Convento” – 1.982)

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Aqui estou novamente, Mestre, na tua presença.

É quando me é permitido encontrá-lo aonde estás e não aonde estou.

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Observo demoradamente tua imagem e no canto direito de tua boca pressinto um desalento contido; teus cabelos, quando longos e em constante desalinho, esvoaçavam como teus pensamentos pássaros, sempre em movimento; em tuas mãos de dedos longos, a serenidade interior e, por vezes, a resposta enfática, incisiva, que muitos ainda confundem com frieza, sarcasmo, ceticismo.

Mas como te conheço um pouco e te amo muito, isso já não me assusta; apenas o espanto de outros é que ainda me surpreende, depois de tantos ventos, tempestades, raras calmarias.

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Porém o que mais me atrai, sempre, é o teu olhar.

Essa fagulha de intensa luz e lucidez que vibra em todo o teu semblante.

Seria o mesmo olhar de quando o jornalista perguntou, na última entrevista,  Por que o senhor tornou-se escritor tardiamente? e, com paciência, respondeste Isso ninguém sabe, nem eu, nem eu! Mas isso ainda é preocupante? – como se não houvesse algo mais importante a ser dito.

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Teu olhar… com certeza tão diferente de quando, no teu exílio, navegava distâncias e saudades agora adormecidas.

E sempre que me lembro do teu exílio, me vem à mente O Conto da Ilha Desconhecida.

Não me canso de ler essa obra e fico a me perguntar se também não foste tu, Mestre querido, que aguçou-me a busca de mim mesma, porque tuas palavras em minha consciência reverberam sempre… Quero saber quem sou eu quando estiver na ilha; se não sais de ti, não chegas a saber quem és… que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não saímos de nós.

Será que não foste tu que me ajudaste a pintar, como no livro, as letras que faltavam na minha caravela, para que eu pudesse me lançar ao mar, no início temerosa, mas com o coração aberto em busca do novo, do desconhecido, do que muitos chamam de irreal?

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À tua frente sinto-me diante do mar, ora em turbulência, por vezes tranquilo, mas raramente ensolarado porque, mesmo agora não estando mais entre nós, ainda te pesam os rótulos atribuídos pelos ignorantes de tua vida, que nunca se propuseram a conhecer tua alma; apenas boiam na superfície das ondas, achando (sempre os achismos!) tua escrita salgada como o mar, nada mais.

Mas, como o mar, tens riquezas e belezas para quem se aventurar nas profundezas de tuas águas.

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Eu, no entanto, sentindo-o como o mar em eterno movimento, fico feliz em vê-lo ora verde, ora azul, dependendo do mar onde te encontras no momento deste nosso diálogo de almas e, te olhando assim tão de perto e silenciosa, continuo admirando tua coragem de não te esconderes, nunca, atrás de um remo, no fundo do porão de tua caravela, mas sim, sempre no leme de tuas verdades.

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Com certeza, aprendi contigo, Mestre, o hábito de carregar nas mãos uma bússola e atirar-me ao mar à procura de mim mesma.

O mar é UM, o começo do caminhar pra beira de outro lugar, como diz outro poeta.

 

Hoje comemora-se a data de teu aniversário, mas quem continua ganhando o presente sou eu.

Sempre.

 

 

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Nizi 5

“Quando olhares o céu de noite – disse o Pequeno Príncipe – porque habitarei uma delas, porque numa delas estarei rindo, então será como se todas as estrelas te rissem! E tu terás estrelas que sabem rir!”

Antoine de Saint-Exupéry

 

 

 

 

Em um dia de primavera Deus criou um ser para que nascesse no outono, como um fruto do Seu amor, embora sabendo com a antecedência de Sua onisciência que, independente das virtudes de lhe atribuísse, seria este um ser muito especial.

Quis fazer dele uma fonte de virtudes para que, quem com ele convivesse, pudesse aprender lições importantes e profundas de vida, lições estas que não são todos que realmente querem aprender.

Então proveu-o da bondade, da educação, da inteligência, da retidão, da compreensão, do respeito, da solidariedade, da criatividade, da cultura, da generosidade, da sinceridade, da amorosidade, da singeleza e da busca do conhecimento profundo de si mesmo.

Porém resolveu Deus por-lhe algumas pedras e espinhos espalhados pelo caminho, para que de vez em quando se lembrasse de que era ainda um mortal.

Pedras que muitas vezes fizeram seus passos trôpegos; espinhos que fundamente perfuraram seu coração, causando-lhe ferimentos graves e que de vez em quando ainda sangram…

Mas para que suportasse as tempestades (“somente os que suportam a prova do fogo saem purificados”), impregnou-lhe todo o ser de puro e verdadeiro Amor, para que pudesse, assim, encontrar forças para seguir, para buscar o que de tão valioso precisa e quer; para encontrar em si a alegria de viver que o faz sorrir e ser tão especial e pleno, aquele ser que Deus, em um dia de muita inspiração, criou.

É o que sinto, querido Nizi, que Deus idealizou quando emanou você de Sua Luz.

Você faz aniversário hoje, mas quem ganha o presente são todas as pessoas que te amam, quem ganha o presente sou eu.

Um presente de Deus.

 

 

Ao querido Anizio Silversmith, pelo seu aniversário

30 de maio de 2016

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Mãe

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Mãe querida

Me abraça neste silêncio

que me impregna e emudece

 

Beija meus olhos

penteia meus cabelos

e conta-me uma história

para que eu pare de chorar

de saudades de você

 .

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Jose Saramago

 

 

Já fiz essa colocação em outras ocasiões, mas como sempre fico surpresa com o fato a repetir-se todos os anos, aqui estou eu novamente, na data de teu aniversário, a procurar nas estantes uma obra para eu reler.

Teu aniversário José Saramago, Mestre querido, que debalde tento seguir mais de perto suas lições, mas ainda sou limitada, pequena, aprendiz…

Tenho relido ultimamente o Ensaio sobre a Cegueira que para mim retrata os absurdos desta dura realidade em que estamos vivendo.

É mais um sinal de alerta, diria até que uma premonição desta época aterradora pela qual a humanidade se auto-flagela, olvidando seus valores morais, sociais, humanitários.

Há trechos em que me assusto, de tão igual a miséria, o descaso, o desalento, a escuridão.

Para me refazer (como se possível fosse) leio de um só fôlego O Conto da Ilha Desconhecida, onde também há poder, discórdias e outras mesquinharias, mas existe algo diferente chamado objetividade de busca, profunda, interior.

Sinto que as duas obras fundem-se em vários trechos, como este que me chamou a atenção, “… é necessário sair da ilha para ver a ilha, … não nos vemos se não sairmos de nós,…”, com um pensamento da primeira obra que citei que diz, “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”

O Conto da Ilha Desconhecida, como nos situa o texto, transcorre na época medieval, em um país fictício e, como tal, há de se dizer que não é possível comparações com a época em que vivemos; mas, com mais vagar, é possível entender o quanto estamos retrocedendo em termos de valores e de como é bem possível que já estejamos esbarrando nesse período de brutalidades, posses, poder, obscurantismo.

Mestre Saramago, paro por aqui; minha intenção inicial era a de apenas lembrar-me da data de teu aniversário, mas, me perdoe, com estas obras nas mãos me é impossível não pensar (e me arrepiar) nas sombras que hoje se apossam do inconsciente coletivo, nos cegando da verdade.

Vejo nos traços do teu rosto quanto a vida te deu e também te tirou e quanto de ti existe em meu pensar, em minha busca para desvendar o que existe de real em mim, qual o meu caminho diante de tudo, de todos e de mim mesma.

Como disseste e tão bem citado por Arthur Nestrovski, “Dentro de nós (como no livro da Ilha) há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos”, tal e qual o último pensamento expresso nO Conto da Ilha Desconhecida, “Pela hora do meio-dia, com a maré, A Ilha Desconhecida fez-se enfim ao mar, à procura de si mesma.”

Será que essa é a única saída para tudo, Mestre? uma saída individual, uma busca solitária, quase sem esperanças? Se não sonhamos, não vivemos… mas, como sonhar em meio a tantos pesadelos?

Não sei como sobreviver à dor de tão desolado desamor entre as criaturas, mas… aqui estou eu novamente, Mestre, a falar da tristeza do mundo, no dia de teu renascimento em mim…

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Imortal

Aprendi com a Primavera a me deixar cortar para poder voltar sempre inteira

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Nelson Mandela.

Quero hoje conversar um pouco contigo, dia de teu aniversário.

Não só para comemorar esta data, mas por todas as que, com paciência e perseverança que só os sábios têm, continuas construindo a história de um povo, a história da evolução da humanidade, como um grande exemplo àqueles que querem decidir o rumo dos tempos pela força, corrupção e injustiças desregradas.

Mais que um exemplo, uma profunda reflexão sobre a vontade de proporcionar a seu semelhante uma visão real e melhor do que é possível viver.

 

Quantas amarguras, dores, humilhações, privações se esconderam por detrás do teu sorriso… um sorriso doce, sereno, olhar no horizonte enxergando longe, gravado nele todos os momentos de aflição, de conflitos, de solidão.

Por certo, em algum momento contigo mesmo, pensaste em desistir, mas não deixou se levar pelo instante, pequeno instante de fraqueza.

Tinhas a convicta certeza de que depois de tanto tempo, de tantos percalços, as portas se abririam, aquelas que fechadas a corrente estavam, vigiadas sempre com uma arma em punho.

Como se tua doçura precisasse de todo esse aparato… na verdade, os que te cercavam é que precisavam do teu respirar, pensar, sentir e agir.

 

E a palavra liberdade deixou de ser uma palavra, para morar nos lábios dos que te amam, apesar dela já existir há muito em teu coração, mesmo que ainda atrás das grades; já respiravas e vislumbravas teus sonhos acontecendo, primeiro no alívio e depois no grito reprimido no peito de cada compatriota, de cada pedacinho do sonho teu.

 

Hoje passas privações de tantas coisas materiais que afetam tua saúde, mas teu espírito está tranquilo pois já cumpriste tua tarefa para com a humanidade.

E mesmo desse hospital onde estás e com todas as dificuldades que isso implica, podes ver as homenagens que te fazem, não só hoje, repito, mas todos os dias das vidas para as quais estendes ainda e sempre tua alma generosa.

Cada dia vivido de cada pessoa que acreditou na tua luta é o presente que continuas a receber da própria vida; afinal, nos tempos de hoje já não mais encontramos alguém com tua coragem em deixar para trás os momentos ruins e difíceis acontecidos, para vivenciar plenamente esse grito de liberdade e amor.

 

Para mim tu és, sem dúvida alguma, o ser humano mais admirável dos nossos tempos e sinto-me privilegiada em poder estar viva na mesma época em que disseminaste tua vida em cada vida, não só na África, mas no coração da humanidade.

Obrigada Mandela, tu és um espírito de Luz e Amor.

 

 

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Me encontravas, mãe querida, quando ainda pequena, de joelhos aos pés de minha cama a rezar.

Achavas bonito e terno, eu sei, e corrias a chamar e a pegar meu pai pelas mãos, para que ele visse também.

E juntos, à entrada do quarto, abraçavam-se enternecidos pelo meu gesto.

Quem sabe até agradeciam por aquele momento sublime, intimista, de elevação espiritual.

 

Mas o que não sabias, minha mãe, é que todas as noites eu pedia a Deus para morrer antes da senhora e meu pai, porque eu não suportaria, não suportaria tanta ausência.

 

Um dia, agoniada com essa possibilidade, fui me aconchegando ao vovô e contei-lhe da minha aflição, Estou errada, vovô, estou?

Ele olhou-me nos olhos com olhos de doçura e, com serenidade na voz e nos gestos, falou-me, O que você acha que é pior, um filho perder seus pais que já viveram uma parte de suas vidas,  ou os pais perderem esse filho que mamãe sentiu no ventre e que, junto, papai viu nascer e crescer a cada momento de sua vidinha?

A partir desse dia, minha mãe, não fiz mais meu pedido a Deus, embora deixasse claro a minha incapacidade de sobreviver.

 

Hoje, para mim, continua sendo a data de teu aniversário e com certeza, minha mãe, aonde eu estivesse, correria para teus braços, teu calor, teu beijo doce, teu riso contagiante, tua voz a dizer meu nome com carinho (ainda guardo em mim o timbre de tua voz…), para entregar-te esta flor da cor que tanto gostavas.

Com a mesma certeza, escreveria um cartão repleto de palavras de eterno amor, colocando dentro dele, mais uma vez, o que já era tua: minha razão de viver!

 

Deus não me ouviu, eu sei.

Talvez, enquanto eu ainda pedia, naquele horário já estivesse dormindo ou contando histórias para os anjos.

Sei também que hoje és um de seus anjos a me proteger e a todos os seus filhos, mas… o que faço, minha mãe, assim de mãos vazias, sentindo essa insuportável e insustentável saudade?

 

 

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